Mais de 400 idosos foram vítimas de violência em Minas em apenas 21 dias

Elian Ozéias
Mais de 400 idosos foram vítimas de algum tipo de violência em Minas Gerais nas três primeiras semanas de outubro. É como se, a cada dia, 19 pessoas idosas fossem violentadas no estado. Os dados, divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), fazem parte da operação “Virtude”, uma ação nacional voltada à repressão e à prevenção de crimes contra esse público, considerada uma das mais vulneráveis da sociedade. Como no restante do Estado, a situação em Divinópolis não foge à realidade.
Operação
Desde o início da operação, em 1º de outubro, Dia Internacional do Idoso, até o dia 21, foram contabilizados 413 atendimentos a vítimas em casas de longa permanência, 60 prisões, 1.294 atendimentos pré-hospitalares, 352 boletins de ocorrência e 223 inquéritos instaurados.
Segundo o superintendente de integração e planejamento operacional da Sejusp, Bernardo Naves, a iniciativa vai além da repressão policial.
— A operação acontece em todo o Brasil com ações repressivas, preventivas e educativas. É fundamental orientar a população sobre os direitos da pessoa idosa e conscientizar a sociedade sobre a importância do cuidado com quem é mais vulnerável — destacou.
O chamado “Dia D” da “Virtude”, realizado nesta quarta-feira, 22, mobilizou diversas instituições em um evento na Praça Sete, em Belo Horizonte. Participaram Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Defensoria Pública, Ministério Público e Secretaria de Desenvolvimento Social, entre outros órgãos. Durante a ação, foram feitos atendimentos, orientações e acolhimentos de denúncias.
— Todos os envolvidos estão preparados para acolher, apurar e garantir o amparo às vítimas. Denunciar é o primeiro passo para interromper o ciclo de violência — afirmou Naves.
Divinópolis
No Municíppio, a situação também preocupa. De acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, até 16 deste mês, o município registrou 1.356 violações de direitos contra pessoas idosas, número que inclui maus-tratos, negligência, abusos psicológicos, exploração financeira e abandono.
Apesar da gravidade, apenas 257 denúncias foram formalizadas na Ouvidoria dos Direitos Humanos. Em 2024, o total de violações foi de 2.858 casos, o que mostra que o problema persiste, mesmo com as campanhas de conscientização.
A psicóloga Eloiza Vieira, especialista em saúde mental, ressalta que a violência nem sempre se manifesta de forma visível.
— Ela vai muito além das agressões físicas. Se expressa por meio de negligência, isolamento e omissão no cuidado. Muitos idosos vivem a velhice como um processo de apagamento, sentindo-se inúteis e descartáveis. Essa violência silenciosa é tão destrutiva quanto a física — explica.
Eloiza reforça que o preconceito etário e a lógica social de produtividade contribuem para o aumento dos casos.
— Vivemos em uma sociedade que valoriza quem produz e consome. O idoso, muitas vezes, é visto como um fardo, o que legitima práticas violentas e o exclui afetiva e socialmente. Romper esse ciclo exige mais do que leis, exige empatia e mudança de mentalidade — conclui.
O que dizem as autoridades
O coordenador estadual de Defesa da Pessoa Idosa da Defensoria Pública de Minas Gerais, Luiz Renato Braga Areas Pinheiro, destaca que as agressões mais comuns são violências psicológicas e patrimoniais.
— Recebemos muitos casos de interdições injustificadas, tentativas de controle dos bens e golpes de crédito consignado. O idoso é privado de autonomia e, muitas vezes, de sua própria voz. É preciso que a sociedade reconheça essa violação — afirmou.
A Sejusp informou que, além das ações presenciais, os atendimentos continuarão nos próximos meses com investigações e campanhas educativas. As denúncias podem ser feitas pelo Disque 181, canal gratuito e anônimo que funciona 24 horas por dia em todo o Estado.
O silêncio como forma de violência
Segundo especialistas, o maior desafio é romper o silêncio. Muitos idosos não denunciam por medo, vergonha ou dependência emocional e financeira dos agressores, que, em boa parte dos casos, são familiares próximos.
Eloiza Vieira reforça que escutar os idosos é uma forma de resistência e de humanidade.
— Dar voz a quem é silenciado é um ato de justiça social. Ouvir suas histórias, respeitar seus ritmos e valorizar suas presenças é o primeiro passo para devolver dignidade à velhice. Envelhecer deve ser sinônimo de respeito, não de esquecimento — conclui.
Para além do Dia D
A operação “Virtude” reforça a importância da proteção integral ao idoso, mas também evidencia a urgência de mudanças estruturais. O envelhecimento da população brasileira exige políticas públicas contínuas e integradas, que vão do combate à violência ao fortalecimento das redes de atenção e acolhimento.
Como destacou Bernardo Naves, o objetivo maior é construir uma cultura de respeito.
— O ideal é que nenhuma operação como essa seja necessária. Mas enquanto houver um idoso sendo maltratado, negligenciado ou silenciado, o Estado e a sociedade precisam estar prontos para agir — afirma Naves.
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