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Polícia

Minas registra alta nos feminicídios e pode bater recorde em 2026

Por Bruno
Minas registra alta nos feminicídios e pode bater recorde em 2026

Lucas Maciel

Menos de seis meses foram suficientes para recolocar Minas Gerais em um cenário de alerta no combate à violência contra a mulher. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que, entre janeiro e maio de 2026, o estado registrou 148 vítimas de feminicídio, entre crimes consumados e tentados. Se o ritmo observado até agora for mantido, este poderá ser o ano com o maior número de ocorrências desde o início da série histórica, em 2019.

O levantamento revela que a violência continua espalhada por todas as regiões do estado. Embora Belo Horizonte concentre o maior número de registros, municípios do interior também acumulam casos de extrema gravidade. Em comum, a maior parte dos crimes ocorre dentro do ambiente doméstico e é praticada por companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Em Divinópolis, o problema também permanece presente. Levantamento realizado pelo Agora mostra que o município registrou dois casos de feminicídio em 2026. Além disso, uma tentativa de feminicídio marcada por extrema violência mobilizou as forças de segurança nas últimas semanas, enquanto um assassinato ocorrido no ano passado voltou aos holofotes após o julgamento do acusado neste ano.

Ao todo, Minas Gerais contabilizou 2.725 vítimas de feminicídio — entre tentativas e crimes consumados — entre janeiro de 2019 e maio de 2026. Os dados reforçam que, apesar dos avanços na rede de proteção às mulheres e da ampliação das denúncias, a violência de gênero continua produzindo números elevados no estado.

Série histórica 

Os indicadores mostram que os registros permanecem em níveis elevados ao longo dos últimos anos. Em 2019, primeiro ano da série histórica, Minas registrou 375 vítimas. Em 2020 foram 341 ocorrências; em 2021, 336; em 2022, 370; em 2023, 354; e, em 2024, o estado atingiu o maior volume já contabilizado, com 417 vítimas entre feminicídios tentados e consumados.

No ano passado, foram registrados 384 casos. Agora, mesmo com dados referentes apenas aos cinco primeiros meses de 2026, o número de ocorrências já acende um novo sinal de alerta.

Outro dado que chama atenção é o comportamento dos feminicídios consumados. Somente em fevereiro deste ano foram registrados 23 assassinatos de mulheres motivados por violência de gênero, o maior número para esse mês desde que o monitoramento começou.

Na maior parte da série histórica, as tentativas de feminicídio superam os casos consumados, evidenciando que centenas de mulheres sobrevivem a ataques graves todos os anos. Em 2024, por exemplo, foram 248 tentativas e 169 mortes. Já em 2023 houve uma exceção, quando os feminicídios consumados ultrapassaram as tentativas.

Os registros também mostram concentração dos casos em grandes centros urbanos. Belo Horizonte lidera o ranking estadual, seguida por municípios como Contagem, Betim, Uberlândia e Ribeirão das Neves, que aparecem de forma recorrente entre as cidades com maior número de ocorrências.

Divinópolis

Embora distante dos volumes registrados nas maiores cidades mineiras, Divinópolis também tem convivido com episódios que evidenciam a gravidade da violência contra as mulheres.

Conforme levantamento realizado pelo Agora, dois casos de feminicídio foram registrados no município em 2026. Além das mortes, uma tentativa de feminicídio ganhou repercussão estadual pela brutalidade das agressões.

A Polícia Civil concluiu na terça-feira, 30, o inquérito que investigou uma mulher de 47 anos mantida em cárcere privado durante aproximadamente oito dias em um apartamento no bairro Padre Eustáquio. O caso foi revelado com exclusividade pelo Agora.

Segundo as investigações, o companheiro da vítima foi indiciado por tentativa de feminicídio, tortura, cárcere privado, divulgação de cena de nudez e dano.

De acordo com a Polícia Civil, a mulher sofreu sucessivas agressões físicas e psicológicas motivadas por ciúmes. Ela foi privada de alimentação, obrigada a consumir crack, tomar banhos gelados e permanecer ajoelhada sobre grãos, além de ser humilhada pelo investigado, que registrou parte das agressões em vídeo e compartilhou as imagens com terceiros.

Em uma tentativa de fuga, a vítima conseguiu sair do apartamento, mas foi alcançada nas proximidades e arrastada de volta pelo suspeito. Um vizinho presenciou a cena e acionou a Polícia Militar.

Antes da chegada dos policiais, conforme a investigação, o homem ainda tentou matar a companheira com golpes de faca, inclusive na região genital. A prisão em flagrante impediu que o crime fosse consumado. O investigado permanece preso preventivamente.

Caso julgado

Outro caso voltou a chamar atenção neste ano durante uma sessão do Tribunal do Júri realizada em Divinópolis.

Em maio, um homem de 51 anos foi condenado a 20 anos de prisão pelo feminicídio da própria irmã, crime ocorrido em outubro de 2025, no bairro Nilda Barros.

Durante o julgamento, o réu confessou o assassinato. Conforme a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), os irmãos discutiram dentro da casa onde moravam com a mãe. Após a vítima deixar o imóvel, o homem pegou uma faca na cozinha, saiu atrás dela e desferiu diversos golpes, principalmente no pescoço e no tórax.

A mulher morreu ainda no local. A mãe dos dois presenciou o início das agressões e chegou a desmaiar.

Após o crime, o autor fugiu, mas foi localizado e preso pela Polícia Militar no mesmo dia. O Conselho de Sentença reconheceu a autoria do feminicídio e determinou o cumprimento da pena em regime inicialmente fechado. O condenado permanece recolhido no Presídio Floramar.

Registros

Além de dimensionar a violência contra a mulher, os dados produzidos pelos órgãos de segurança pública servem de base para o planejamento de políticas de prevenção, proteção às vítimas e enfrentamento aos crimes de gênero.

O sistema de monitoramento utilizado em Minas Gerais reúne informações das polícias Civil e Militar e inclui, nas estatísticas, mulheres cisgênero e mulheres trans, respeitando a identidade de gênero nos registros oficiais. Também acompanha o vínculo entre vítima e autor, permitindo identificar a predominância de crimes praticados por parceiros, ex-companheiros e familiares.

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