Mito Fundador

Augusto Fidelis
Tanto na escola primária como secundária, é costume estudar os vultos da história, enaltecer seus feitos, buscar-lhes o exemplo de amor e dedicação ao país. Quando se chega ao curso superior, a beleza do mito é desfeita, já que uma das funções dos professores é alertar que tudo não passa de uma farsa. Por ocasião das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, a professora Marilena Chauí, da USP, se deu ao trabalho de escrever um livro, chamado “Brasil”, para detonar o chamado Mito Fundador.
Na época, li a obra por indicação do professor de História e, sinceramente, ao terminar, optei por endossar a opinião de Francisco Campos, citado pela própria autora: “Criamos nosso mito. O mito é uma crença, uma paixão. Não é necessário que seja uma realidade. É realidade efetiva, porque é estímulo, esperança, fé, ânimo. Nosso mito é a nação: nossa fé, a grandeza da nação”.
Ora, sendo a vida o bem maior, e se o Mito Fundador contribui para torná-la mais suave, porque não alimentá-lo? Entendo ser importante compreender o que seja a formação de um povo, com a crueza que é o dia a dia das pessoas, e o que seja o seu Mito Fundador. Mas este último exerce a função de aparar arestas, evitar as lutas desnecessárias e promover a convivência. O que seria do ser humano se não houvesse o mínimo de ilusão?!
A partir das comemorações do centenário da Abolição da Escravatura, ocorrido em 1988, militantes dos Movimentos Negros passaram a achincalhar a Princesa Isabel com a alegação de que ela simplesmente assinou a Lei Áurea, deixando os escravos à própria sorte. Passados 136 anos, descobre-se que esta não era a sua intenção. A revista “Nossa História”, traz cartas escritas pela Princesa, enviadas às figuras importantes da época, nas quais revelava o desejo de indenizar os ex-escravos, fazer a reforma agrária e criar o voto feminino.
Já naquela época, não bastava um governante querer desenvolver projetos sociais, principalmente aqueles que vão contra os interesses do poder econômico. Certamente, devido às suas idéias em favor dos menos favorecidos, muito mais do que a assinatura da Lei Áurea, a Família Real foi banida do país um ano e meio depois. Se ela tivesse se tornado imperatriz, a Princesa Isabel teria dado dias melhores aos libertos, mas não houve tempo.
Queira sim ou não, nesta vida tudo passa, tudo acaba, nada será eterno. O Mito Fundador, porém, sempre ressurgirá das cinzas, tal como Fênix, para dar novo ânimo às gerações que se sucedem. O Brasil merece ser grande em todos os aspectos. Viva a Princesa Isabel!
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