Questão de aparência

“A gente, todos os dias, arruma os cabelos; por que não o coração?” A indagação deste provérbio chinês dá o que pensar, mas a resposta pode ser simples: vaidade das vaidades. O ser humano, em geral, vive de aparência, quer ser aquilo que não é, quer acumular muito mais do que se faz necessário à sobrevivência. Por isso, cada um sente a necessidade de arrumar o que é visto pelos outros, como os cabelos. O coração, já que ninguém o vê, pode se manter desarrumado no que se refere às mágoas, à inveja, à ingratidão, ao ódio, à falta de escrúpulos.
O Brasil passa por uma fase em que a aparência é fundamental, já que o coração está desprovido de adornos. Os ladrões engravatados roubam mais e melhor, com um detalhe: não precisam colocar o revólver na cabeça de ninguém. Com um bom discurso, com uma boa prosa, canalizam milhões para seus cofres ou contas bancárias. Alguns são pegos com a mão na massa, mas logo lançam mão da mentira como instrumento jurídico e se dão bem. Às vezes são molestados pelos meios de comunicação, porém, esquecidos em seguida. Daí os escândalos não param, para que o último alivie o anterior.
As obras públicas no país, com as devidas exceções, são muito caras, devido as porcentagens destinadas aos larápios, e da má qualidade dos serviços. Desde aquele acidente com o avião da Gol em 29 de setembro de 2006, todos os grandes aeroportos país precisam de reformas urgentes. Voar no Brasil se tornou uma aventura, porque não se tem certeza que se chegará ao destino em tempo hábil, ou mesmo se chegará.
O último apagão energético ocorrido no país no dia 14 de outubro de 2025 ainda se mantém vivo na nossa lembrança, devido aos transtornos causados na vida dos brasileiros, principalmente na economia. Especialistas garantem que o problema pode se repetir, já que muitas providências que se fazem necessárias para evitá-lo não foram tomadas. O país quer crescer, precisa de energia. Há promessas, há projetos, mas a concretização se desfaz em meio aos interesses nada patrióticos, discussões e desacordos.
Recentemente, li num jornal de circulação nacional que o apagão na malha viária do país é iminente. Estradas esburacadas, sem manutenção, a maioria desprovida de pavimentação. Tudo isso contribui para aumentar o número de mortos e feridos, algo muito mais medonho do que os desastres aéreos, mas que não chama tanto a atenção, por serem pulverizados. Para se evitar o pior, é hora dos brasileiros se preocuparem menos com os cabelos e dar mais atenção ao coração. Assim cada um faria ao outro o que deseja para si próprio: respeito. Em tempo: a onça não tarda e vai beber água.
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