O Grito do Santuário

Eu sempre passava correndo, atrasado, pelo Santuário. Recém-chegado a Divinópolis, tentava, aos trancos e barrancos, sobreviver, colocar o pão na mesa e garantir um teto. Nos seus 114 anos, talvez valha a pena perguntar não apenas o que a cidade se tornou, mas também o que ela ainda tenta nos dizer.
Nessas idas e vindas apressadas, meu subconsciente insistia para que eu parasse e contemplasse. Mas, em tempos neoliberais, o máximo de observação atenta que me era permitido consistia em olhar para o relógio da torre do Santuário de Santo Antônio.
Como sociólogo e ex-estudante de arquitetura, a ambiência daquele espaço despertava algo profundo em mim. Era como se algo voraz, aprisionado havia muito tempo, quisesse gritar. Eu queria ter tempo – tempo para ouvir aquele grito. Parecia alguém pedindo socorro; parecia dor. Eu precisava de tempo. Era uma voz abatida, vindo de um porão frio e úmido. Esse grito escondia-se atrás dos sons da cidade.
Na véspera do feriado de Tiradentes, depois de terminar minhas tarefas e compromissos, já ao anoitecer, tive um raro respiro. Sempre tive as artes e a arquitetura como refúgio. Então sentei-me na praça do Santuário. Levantei-me e caminhei por toda a sua extensão: seus altos e baixos, seus fortes, suas armas, suas entranhas, os sons propagados por suas fontes e correntezas.
Havia um cheiro de pólvora – talvez fruto da poluição dos carros. A fuligem impregnava o concreto aparente e lhe conferia caráter. Cada fissura daquele concreto parecia guardar um fragmento da cidade, como se tudo tivesse sido criado para um tempo vindouro em que as chaminés e a fumaça tomariam conta do horizonte.
A paisagem natural absorve aquilo que os cientistas chamam de carbono e o devolve em forma de vida, de ar puro. A natureza foi concebida em perfeição pelo Grande Arquiteto. E o arquiteto terreno, desde os primórdios das civilizações, ao buscar esse Grande Arquiteto, encontrou técnicas para erguer templos.
Poucos alcançam – ou sequer se aproximam – da verdadeira maestria do Grande Arquiteto. Eu não sabia o nome de quem havia projetado aquela praça; não sabia absolutamente nada. Mas, arrepiado e chorando como uma criança, sozinho naquele espaço, tive a certeza de estar diante da obra de alguém que havia se aproximado dessa grandeza.
Eu tinha escutado o grito.
E, finalmente, ouvido.
Como um louco, saí perguntando – ainda enxugando as lágrimas – quem havia feito aquela praça. Ninguém sabia. Nem jovens, nem adultos, nem os mais velhos. No céu, as estrelas já começavam a aparecer, e eu precisava voltar para casa, mas não sem antes descobrir quem era aquele mestre.
Então, como um sopro, avistei uma loja de bolsas de luxo. Parei e pensei: “Alguém aqui deve saber.” Lugares assim não vendem apenas produtos ou luxo; vendem estórias e história. E sabiam.
Aristides Salgado.
Anotei o nome em meu caderninho de campo – que sempre carrego comigo – e fui para casa. Mesmo exausto, comecei a processar minhas anotações, como todo antropólogo costuma fazer. Foi ali que a cobra mordeu o próprio rabo: era o ouroboros.
Eu havia chegado a Divinópolis em ano eleitoral para aproveitar minha cadeira em ciência política. Nesse processo, silenciei aquele grito interno – que, agora eu compreendia, era meu. O porão era meu coração.
Durante muito tempo, aceitei as artes e a arquitetura como acessórios em minha vida. Mas, como o ouroboros que se fecha sobre si mesmo, descobri que Aristides Salgado, além de exímio arquiteto urbanista, também havia deixado contribuições na política.
Muita coisa aconteceu comigo depois dessa descoberta, mas isso é assunto para outro momento. O dia seguinte, simbolicamente – e talvez não por coincidência –, era Tiradentes. Essas histórias terão de ficar para depois.
Quero apenas dizer que o Ocidente escolheu a razão, a linguagem do império e a lógica cartesiana. Todo o restante foi barbarizado. Nas últimas décadas, os burocratas neoliberais ascenderam, e o reflexo disso tornou-se visível em seus prédios comerciais bege, brancos e cinzas. O próprio morar transformou-se em negócio.
Vale ressaltar, porém, que esse cinza contemporâneo nada tem a ver com a força brutalista do concreto de Salgado e de sua geração. O cinza de hoje é o cinza do apagamento: junto do bege e do branco, opera uma neutralização violenta das identidades.
A nova geração – não os filhos, muitas vezes cooptados pela linguagem dos burocratas neoliberais e produtores de arquitetura e design para eles, mas os netos, chamados de Geração Z – parece perceber isso intuitivamente. Há neles uma nostalgia de algo que nunca viveram.
Talvez os espíritos vanguardistas ressurjam justamente em tempos sombrios. Assim como Salgado representou a vanguarda de seu tempo, alguns jovens de hoje – não todos, mas talvez muitos – recusam-se a beber um novo cálice amargo.
Há artistas se reconectando ao passado para produzir novos ares, recusando a linguagem oficial dos burocratas neoliberais.
Márcio Caetano
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