O pão nosso de cada dia está ficando mais caro
Valorização do trigo pressiona custos de produção e ameaça provocar novos reajustes

Jorge Guimarães
O café da manhã está mais caro para os brasileiros nos últimos meses. O aumento é percebido tanto nas padarias quanto nos supermercados, especialmente no tradicional pão francês, ou “pão de sal”, como é conhecido em Minas Gerais. A alta está relacionada à valorização do trigo, provocada pela redução da produção do cereal, que diminui a oferta e eleva os custos em toda a cadeia produtiva.
Alta
Em 2026, o trigo acumula valorização estimada entre 12% e 15%, índice bem acima dos reajustes próximos de 5% observados em períodos considerados normais, segundo informações da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip).
A alta do trigo, provocada pela redução da área plantada e pelas condições climáticas, afeta toda a cadeia produtiva, das indústrias às padarias e varejistas. Com o aumento dos custos de farinha, energia, mão de obra e outros insumos, o consumidor poderá enfrentar novos reajustes no preço do tradicional pão de sal nos próximos meses.
O cenário exige atenção, pois a oferta reduzida de trigo pode manter os custos elevados e gerar novos aumentos em produtos derivados do cereal. Para o economista Lázaro Ribeiro, o pão de sal pode continuar pesando no bolso dos consumidores, especialmente no café da manhã.
Mix
Nas padarias e quitandas, a alta do trigo preocupa, já que o insumo representa cerca de 20% a 30% dos custos, segundo a Abip. Com a farinha mais cara e outros gastos elevados, como energia, mão de obra e aluguel, parte do aumento pode ser repassada aos preços dos produtos, afetando o consumidor.
Para os empresários, o desafio é encontrar um equilíbrio entre manter preços competitivos e preservar as margens necessárias para a continuidade do negócio. Como o pão de sal está entre os produtos mais consumidos pelos brasileiros, qualquer reajuste exige cautela para não afastar o cliente.
— A tendência é que o comportamento do mercado de trigo continue sendo acompanhado de perto pelo setor. Caso os preços permaneçam elevados, os reflexos poderão aparecer não apenas no tradicional pão de sal, mas também em bolos, biscoitos, massas e diversos outros produtos que fazem parte da rotina dos consumidores — observou Ribeiro.
Estratégias
O aumento dos custos em 2026 desafia empresários da panificação a equilibrar preços acessíveis e a saúde financeira dos negócios, tornando qualquer reajuste uma decisão cuidadosa.
O empresário Kelmert Bueno contou que o setor vem enfrentando dificuldades para absorver os aumentos e, ao mesmo tempo, evitar que o impacto chegue de forma mais forte ao consumidor. Segundo ele, a estratégia tem sido administrar os custos e buscar alternativas para preservar os preços de alguns produtos.
— Estamos procurando segurar os preços o máximo possível. Em alguns produtos, principalmente nas quitandas, ainda conseguimos manter os valores, mesmo com os aumentos dos insumos. Mas sabemos que isso tem um limite e pode não ser possível por muito tempo — destacou.
De acordo com o empresário, a preocupação não está apenas no preço do trigo. Outros componentes da produção também sofrem reajustes e acabam aumentando o custo final dos produtos.
— A gente precisa fazer conta todos os dias. O consumidor tem um limite para pagar, e o empresário também tem um limite para absorver os aumentos. O desafio é encontrar esse equilíbrio — explicou.
Para o economista, o comportamento dos preços precisa ser analisado dentro de toda a cadeia produtiva. Segundo ele, quando um insumo importante como o trigo apresenta valorização, o efeito pode ser distribuído entre produtores, indústria, comércio e consumidor.
— O aumento do custo de produção pressiona as margens das empresas. O empresário pode absorver uma parte desse impacto durante algum tempo, mas, se a alta persistir, em algum momento será necessário rever os preços para preservar a sustentabilidade do negócio — avaliou Ribeiro.
Supermercados
Para o gestor de Operações do Somar Supermercados, Sérgio Antônio de Oliveira, o impacto pode ser percebido em diferentes setores das lojas, já que o trigo está presente em uma grande variedade de produtos comercializados diariamente.
— Quando a farinha de trigo aumenta, não estamos falando apenas do pão. Temos uma série de produtos que utilizam o trigo em sua composição, como massas, biscoitos, bolos, pizzas e diversos itens de panificação. Portanto, qualquer alteração significativa no custo da matéria-prima acaba refletindo em todo esse mix — declarou.
Segundo o gestor, o supermercado procura acompanhar de perto as movimentações dos fornecedores e trabalhar para oferecer alternativas ao consumidor.
— A nossa preocupação é sempre buscar as melhores condições de compra e tentar minimizar o impacto para o cliente. Mas, quando existe um aumento na origem, em algum momento ele acaba chegando à cadeia de comercialização — destacou.
Sérgio Antônio de Oliveira observou ainda que o consumidor está cada vez mais atento aos preços e procura alternativas para equilibrar as compras.
— Hoje o cliente pesquisa mais, compara marcas, observa promoções e, muitas vezes, acaba substituindo um produto por outro. O supermercado também precisa acompanhar esse comportamento e oferecer opções para diferentes faixas de orçamento — disse.
Consumidores
A alta dos preços dos produtos derivados do trigo já começa a fazer parte da rotina de muitos consumidores. Para quem passa diariamente pela padaria, o tradicional pão na chapa continua sendo presença garantida no café da manhã, mas o preço passou a ser observado com mais atenção.
— A gente percebe que o pãozinho está mais caro e, quando coloca na conta tudo o que compra na padaria durante o mês, a diferença acaba aparecendo. Tento continuar comprando, mas sempre olhando o preço — contou a dona de casa Aurélia de Fátima Souza.
Massas, biscoitos, bolos e outros itens passaram a exigir mais pesquisa antes de serem colocados no carrinho.
— Não é só o pão. A gente vai ao supermercado e percebe que vários produtos tiveram aumento. Então, estou pesquisando mais e aproveitando as promoções para tentar economizar — afirmou o aposentado Carlos Henrique Teixeira.
Apesar dos reajustes, o pão continua sendo um dos alimentos mais presentes na mesa dos brasileiros.
— O pão de sal faz parte do nosso dia a dia. É difícil cortar completamente. O que a gente faz é comprar somente o necessário e pesquisar onde está mais barato — comentou o eletricista José Antônio Silva.
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