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Augusto Ambrosio Fidelis

Roda de bêbados

Por Augusto Fidelis · Colunista· 2 min de leitura
Roda de bêbados

Passeava por uma das ruas da cidade, no último final de semana, quando, ao passar perto de um bar, fui convocado a dar um veredicto numa questão que estava sendo discutida por um grupo de ébrios. Depois de vários copos de cerveja, um deles levantou a questão sobre qual expressão estaria correta: boa mulher ou mulher boa? Falei-lhes, primeiro, da minha inocência, da pureza d’alma que me é peculiar, portanto, não me achava digno de intervir numa questão tão delicada, com ânimos tão exaltados. Ouviram as ponderações, mas precisavam de um juiz e não viam, naquela oportunidade, alguém mais interessante.

Imediatamente, o dono do bar trouxe uma cadeira, novinha em folha,  sua mais recente aquisição, como fez questão de frisar. Sentei-me solenemente, como a oportunidade requeria, e logo adverti que não bebia cerveja. Sugeriram-me, então, uma cachacinha da roça, porém, preferi um refrigerante. A posição inicial da minha cadeira não me era favorável, não tanto por causa do sol, mas porque os fumantes dominavam a área. Um dos membros da solene assembléia, ainda lúcido, percebendo que me sentia sufocado com o “fumacê”, sugeriu a mudança de lugar.

Na roda, todos me conheciam, menos um senhor de barriga volumosa, de bigode ralo, que se declarou atleticano, e falava muito alto. Tinha um ar de autoridade e seus colegas abasteciam-lhe o copo frequentemente. Pude experimentar a carne com mandioca (uma delícia) e a linguiça de porco, apesar de um pouco apimentada. A personalidade, ora em destaque, me olhou com certa desconfiança e, para ter certeza de que não se tratava de um impostor, solicitou-me o curriculum vitae. Na falta do documento escrito, informei onde nasci, formação escolar, títulos honoríficos e atuação profissional.

Uma vez aprovadas pelos nobres colegas de bar as minhas referências biográficas, me foi possível dar início ao tão esperado pronunciamento. Para fundamentar a minha dissertação, recorri a estudos bíblicos, filosóficos e sociais, bem como aos códigos que já existiram, aos que existem e aos que ainda poderão existir. Concluída a preliminar, adentrei no assunto principal, explicando, primeiro, que as expressões são distintas. “Boa mulher” é aquele ser virtuoso, zeloso com os seus afazeres na sociedade, na família, no trabalho, de coração generoso, propenso à santidade. Se essa mulher é solteira, é o tipo que os homens falam: “Esta é pra casar”.

No que se refere à “mulher boa”, o que não a impede de ser também uma boa mulher, é o ser que se destaca pelos seus dotes físicos, capazes de excitar os seus admiradores e deixá-los abobados. Depois disso, fui lindamente ovacionado. Só que, a partir desse episódio, estou passeando por outras bandas. Gente, mexer com tonto não dá! 


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