Segurança alimentar e sustentabilidade estão na ordem do dia

Da Redação
O professor Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993), famoso cardiologista, cirurgião de renome em transplantes de coração, concedeu entrevista ao radiojornalista Flávio Flora, da Rádio Vanguarda FM, quando o médico visitou a cidade sulmineira, em 1980.
Uma das questões postas ao doutor Zerbini foi sobre o efeito das gorduras nos problemas cardíacos: assunto de saúde da época, envolvendo as margarinas x manteiga, e o óleo de soja x gordura ou banha de porco.
Numa longa e rica resposta, ele explicou os efeitos desses produtos, condenando o uso predominante das margarinas e do óleo de soja, este “usado pela segunda vez, depois de superaquecido”. Fez uma recuperação do passado, lembrando quem muitos de seus pacientes foram alimentados durante toda uma vida com carne e gordura de porco e só apresentavam problemas coronarianos por causas genéticas ou deficiência do próprio organismo, “não porque suas veias estavam entupidas”.
Obesidade crescente
Naquela conversa bem humorada, após outro questionamento – conta o jornalista – ele disse que “os óleos comestíveis vão predominar na alimentação mundial e a obesidade será o primeiro sinal” para as pessoas repensarem os ingredientes das suas comidas cotidianas.
— Se não puder evitar as carnes, a melhor carne é a de porco, dos ‘carunchinhos’, aqueles comuns da roça. A gordura desses animais, tratados ao modo antigo, não faz mal à saúde. O homem rural sempre comeu e não teve tantos problemas do coração ou excesso de gordura no sangue. É claro, sem esquecer, que as pessoas na roça se exercitam mais e isso melhora o desempenho fisiológico da pessoa — comentou doutor Zerbini, no seu jeito simpático de se expressar.
Comidas gordurosas
A entrevista é relembrada como um marco temporal histórico do uso predominante do óleo de soja e de palmas na alimentação mundial. Desde essa época, ainda que mais da metade da população ainda mantenha um peso saudável, a obesidade dobrou em todo o mundo.
Esses óleos são abundantes e baratose usados em casa, sem restrições, e na indústria, desde o tempero às frituras (reutilizados inúmeras vezes), sendo um ingrediente comum da maior parte dos produtos vendidos em supermercados.
O óleo vegetal (de soja e de palma ou dendê), está entre os oito ingredientesque fornecem 85% das calorias consumidas mundialmente. Os outros sãotrigo, arroz, milho, açúcar, cevada e batata.
Poucos nutrientes e altas calorias
O professor Benton, pesquisador da Universidade de Leeds (Reino Unido), especializado em segurança alimentar e sustentabilidade,em seu último estudo, confirma que a produção de óleos vegetais e as culturas oleaginosas cresceram consideravelmente nas últimas três décadas.
— A cada dia que passa, não importa o país em que vivemos, todos temos uma dieta parecida – rica em calorias e pobre em nutrientes — afirma, referindo-se a uma combinação global de acordos comerciaise políticas governamentais, quetornaram mais barato e fácil exportar e importar óleo.
— Agora nós temos um sistema alimentar construído sobre calorias incrivelmente baratas — diz o professor Benton.
Opinião contrária
A par das notícias de que as calorias baratas dos óleos comestíveis (gorduras saturadas ou trans) sãoum risco para a saúde, por estar associadas a doenças cardíacas, hipertensão e obesidade, um recente estudo da London SchoolofEconomics (LSE) – que analisou 26 países entre 1989 e 2005, período da crescente “globalização social” – opõe outra visão.
Essa pesquisa da LSE concluiu que as mudanças na maneira como se trabalhae se vive é o que está tornando as pessoas mais gordas, e não a maior oferta de alimentos baratos e mais calóricos.
A autora do estudo, doutora Joan Costa-Font, sugere que a culpa pela obesidade deve ser atribuída ao fato de que agora as pessoas estão mais sujeitas a trabalhar, a comprar e a socializar sem precisar se movimentar muito. Antes, "as pessoas tinham que andar até os lugares e não havia tantas atividades que nos faziam poupar energia como hoje", observa.
— Os indivíduos tinham contatos sociais mais próximos, cozinhavam e gastavam mais tempo com as tarefas domésticas diárias — analisa Costa-Font, destacando que as pessoas têm novas necessidades e por isso, por se movimentarem menos:
— Deveriam comer menos e se movimentar mais —recomenda.
Moderação nas gorduras
Em outro estudo publicado na semana passada, para equilibrar o debate, a professora CorinnaHawkes, diretora do Centro de Política Alimentar da Universidade de Londres (UK), também confirma o aumento das fontes de calorias desde os anos 1980 com o cultivo de oleaginosas.
Hawkes lembra que uma pequena quantidade de gordura é parte essencial de uma dieta saudável e balanceada, mas não se pode esquecer que as gorduras são ricas em calorias, por isso consumi-las em grande quantidade pode aumentar o risco de sobrepeso ou obesidade.
Segurança alimentar
Em Divinópolis, a Política de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Sans) está sendo implantada, de acordo com as diretrizes e cronograma proposto pela legislação (Lei 11.346/0, Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional).
O objetivo é assegurar o direito humano à alimentação adequada, promovendo a soberania e a segurança alimentar e nutricional de modo que todos tenham acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, preferencialmente produzidos não muito distantes dos pontos de venda e consumo.
O perfil nutricional da população brasileira é marcadopela coexistência de doenças de desnutrição, anemias e deficiênciasde vitaminas, com doenças provocadas pelo excessode alimentos, como sobrepeso, obesidade, diabetes, e hipertensão arterial – segundo informações do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
Política municipal
Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional reuniu-se com vereadores, na Câmara Municipal, ontem à tarde, o para capacitá-los a discutir a proposta local que deverá ser enviada para a Câmara nas próximas semanas.
Para a socióloga Sandra Guimarães, uma das participantes do processo de implantação da Sans em Divinópolis, de parte de colaboradores da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg Divinópolis):
— A política de Sans prevê considerar as dimensões de produção, acesso, consumo, além do que, deve também, estabelecer as relações entre alimento e saúde, o uso biológico do alimento, bem como suautilização comunitária e familiar. Aliás, nessa política, a agricultura familiar e a produção orgânica desempenham papeis fundamentais — destacou Guimarães.
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