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Saúde

SUS amplia tratamento com três novos medicamentos para câncer de pulmão

Oferta de brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe começa gradualmente em outubro e deve beneficiar cerca de 1,9 mil pacientes

Por Jonny Reisle · Redação· 6 min de leitura
SUS amplia tratamento com três novos medicamentos para câncer de pulmão

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima, para o triênio 2026-2028, 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no país, sendo 18.730 entre homens e 16.650 entre mulheres. Diante desse cenário, o Sistema Único de Saúde (SUS) prepara uma ampliação das opções terapêuticas, com a oferta de três medicamentos de alta tecnologia a partir de outubro.

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A medida anunciada pelo Ministério da Saúde prevê a disponibilização de brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe. A distribuição será gradual, conforme as tratativas de compra com os fornecedores e as características operacionais de cada tecnologia. A estimativa do governo é de que cerca de 1,9 mil pacientes sejam beneficiados.

Os medicamentos passam a integrar a nova Assistência Farmacêutica Oncológica (AF-Onco), política criada para organizar a aquisição e o abastecimento de tratamentos de alto custo. A iniciativa prevê 23 medicamentos oncológicos, ampliando em 35% a oferta de tratamentos no SUS. A política prevê orçamento anual de R$ 2,1 bilhões, financiado pela União.

A oncologista Luana Azevedo explica que a chegada dos medicamentos representa um avanço, mas ressalta que as terapias não serão destinadas indistintamente a todos os pacientes.

— A incorporação de novas tecnologias para o tratamento do câncer de pulmão representa um avanço importante no SUS, mas é importante esclarecer que esses medicamentos não são indicados para todos os pacientes. Cada um deles atende a grupos específicos, definidos de acordo com as características da doença e com critérios clínicos e moleculares — afirma.

Diagnóstico tardio

O anúncio ocorre em um momento de preocupação com o diagnóstico tardio. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com informações do Painel de Oncologia, analisou cerca de 49 mil registros de pacientes diagnosticados entre 2020 e 2025 que tinham informação sobre o estágio do tumor. Do total, 87,9% chegaram ao diagnóstico nos estágios 3 ou 4, considerados avançados. Foram 31.467 registros no estágio 4 e 11.704 no estágio 3.

Em fases iniciais, o câncer de pulmão pode não apresentar sintomas claros. Quando as manifestações aparecem, o quadro pode estar mais complexo, reduzindo as possibilidades de tratamentos curativos e aumentando a necessidade de terapias sistêmicas.

Atente-se


Entre os sinais que merecem avaliação médica estão tosse persistente ou que muda de padrão, falta de ar, dor no peito, tosse com sangue, rouquidão, perda de peso sem explicação e cansaço. Infecções respiratórias de repetição também podem exigir investigação. Alterações persistentes devem ser avaliadas por um profissional de saúde.

O diagnóstico precoce pode mudar o percurso do paciente. Quando o tumor é localizado, em muitos casos o tratamento pode envolver cirurgia, com possibilidade de cura. A estratégia depende do tipo de tumor, do estágio da doença e das condições clínicas de cada pessoa. Radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo também podem ser indicadas conforme as características do câncer.

O rastreamento é outro ponto importante. A tomografia computadorizada de tórax de baixa dose pode identificar alterações antes do surgimento de sintomas em pessoas com maior risco. O Inca desenvolve estudos para avaliar a estratégia e os impactos de uma eventual adoção.

Causas

Enquanto o debate sobre rastreamento avança, a prevenção continua fundamental. O tabagismo é o principal fator de risco para o câncer de pulmão e está associado a cerca de 85% dos casos diagnosticados. A exposição passiva à fumaça também aumenta o risco. Outros fatores incluem poluição do ar e exposição ocupacional a substâncias como amianto e sílica.

Quais são os medicamentos?

A nova oferta do SUS busca enfrentar parte desse desafio pelo lado do tratamento. Brigatinibe e gefitinibe são terapias-alvo de uso oral que atuam sobre alterações específicas presentes nas células cancerígenas. Por serem administrados por via oral, podem ser utilizados na casa do paciente, trazendo mais comodidade.

O brigatinibe será adquirido e distribuído de forma centralizada pelo Ministério da Saúde. O gefitinibe terá aquisição realizada diretamente pelos hospitais e gestores locais, com repasse federal. O durvalumabe seguirá negociação nacional de preços, com execução pelos gestores conforme a demanda.

Luana Azevedo destaca que, no caso das terapias-alvo, a identificação das alterações moleculares presentes no tumor é fundamental para determinar quais pacientes podem se beneficiar dos medicamentos.

— O gefitinibe é indicado para tumores com mutação ativadora do EGFR, enquanto o brigatinibe é direcionado aos tumores com rearranjo do ALK. Essas alterações estão presentes apenas em uma parcela dos pacientes com câncer de pulmão, o que reforça a importância da realização de testes moleculares para identificar quem pode se beneficiar dessas terapias — explica.

Já o durvalumabe pertence à classe das imunoterapias. Ele atua estimulando ou potencializando a capacidade do sistema imunológico de combater as células tumorais. A indicação anunciada é para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células em estágio III que não podem ser submetidos à cirurgia e cuja doença não tenha progredido após o tratamento com quimioterapia associada à radioterapia.

Nesse cenário, o medicamento tem como objetivo reduzir o risco de progressão da doença e aumentar a sobrevida dos pacientes.

A incorporação também representa uma mudança importante no acesso financeiro. Na rede privada, brigatinibe e gefitinibe podem custar juntos mais de R$ 604,2 mil por ano. O durvalumabe, por sua vez, pode superar R$ 643 mil anuais. No SUS, o financiamento será integralmente federal dentro da nova política, ampliando a possibilidade de acesso a tratamentos de alto custo.

A oferta não será imediata para todos os pacientes. O Ministério da Saúde informou que a entrega ocorrerá de maneira gradual a partir de outubro, de acordo com as compras e as condições operacionais de cada tecnologia. O acesso seguirá os protocolos clínicos do SUS nos serviços habilitados em oncologia.

Prevenção ajuda tratamento

O tratamento do câncer de pulmão no sistema público já inclui cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapias sistêmicas e terapias-alvo para grupos específicos. A chegada dos três medicamentos amplia esse conjunto de alternativas disponíveis aos pacientes.

O cenário de quase 88% dos casos analisados em estágios 3 ou 4 mostra que a descoberta tardia continua sendo um dos principais prolemas. Quanto mais avançada a doença, mais complexas podem ser as estratégias terapêuticas e menores tendem a ser as possibilidades de cura.

Por isso, especialistas reforçam a necessidade de atenção aos sinais, acompanhamento médico e abandono do cigarro. Pessoas com histórico de tabagismo ou outros fatores de risco devem conversar com profissionais de saúde sobre a necessidade de investigação. A decisão sobre exames deve considerar idade, histórico de tabagismo e fatores individuais.

Para Luana, a ampliação das terapias precisa estar acompanhada de um diagnóstico preciso, capaz de identificar as características específicas de cada tumor.

— É fundamental que o diagnóstico, o estadiamento e, quando indicado, a caracterização molecular do tumor sejam realizados adequadamente para que cada paciente receba o tratamento mais apropriado para o seu caso — ressalta.

Em um país onde milhares de pessoas ainda descobrem o câncer de pulmão quando a doença já avançou, a chegada de novas terapias representa uma importante ferramenta de cuidado. Mas a resposta ao problema depende também de prevenção e diagnóstico oportuno. A expectativa é que a ampliação do tratamento pelo SUS ajude a reduzir desigualdades de acesso e ofereça novas possibilidades aos pacientes.

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