Vulcão de lama surge no Caribe após terremotos na Venezuela e intriga cientistas

Da Redação
A sequência de terremotos que atingiu a Venezuela no fim de junho provocou mudanças que ainda estão sendo analisadas por cientistas em diferentes pontos do Caribe. Uma das ocorrências que mais chamou atenção foi o surgimento de um vulcão de lama na costa sul de Trinidad, uma formação que emergiu no mar após os tremores de alta magnitude registrados na região.
O fenômeno apareceu na baía de Palo Seco, a poucos quilômetros da costa, e passou a ser investigado por pesquisadores do Centro de Pesquisa Sísmica da Universidade das Índias Ocidentais (UWI), pelo Instituto de Assuntos Marinhos de Trinidad e Tobago e pela consultoria ResiLog Limited.
Diferentemente dos vulcões tradicionais, que liberam lava e materiais provenientes do interior da Terra, o vulcão de lama é formado pela expulsão de sedimentos acumulados no subsolo. A estrutura encontrada em Trinidad é composta principalmente por argila mole, fragmentos de rochas e materiais ricos em calcita.
Segundo especialistas, a formação chegou a se elevar aproximadamente quatro metros acima do fundo do mar. Imagens registradas após o surgimento mostram uma espécie de ilha baixa de lama, formada pelo material que foi expelido das camadas subterrâneas.
Relação com terremotos
A principal hipótese analisada pelos cientistas é que a formação tenha relação com os terremotos registrados no nordeste da Venezuela em 24 de junho, com magnitudes de 7,2 e 7,5.
O geocientista Xavier Moonan explicou que a ausência de sinais de grandes deslizamentos na área próxima à praia indica que o material pode ter chegado à superfície por meio de uma falha geológica ativada pelo movimento sísmico.
Apesar da proximidade entre os eventos, os pesquisadores ainda trabalham para confirmar a ligação direta entre os terremotos e o surgimento do vulcão de lama. A análise depende de estudos das amostras retiradas do local, da composição do material expelido e do comportamento da estrutura nos próximos dias.
A região, segundo especialistas, já possui características favoráveis à ocorrência de vulcões de lama. Trinidad está localizada próxima ao limite entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, uma área marcada por falhas geológicas, compressão do terreno e grande concentração de sedimentos.
Nessas condições, camadas profundas podem acumular água e gases sob pressão. Quando uma fratura se abre no subsolo, essa mistura pode encontrar um caminho até a superfície, formando estruturas temporárias no fundo do mar.
Fenômeno diferente
Embora o nome possa sugerir uma relação com vulcões tradicionais, o processo é diferente. O material expelido não vem de magma, mas de sedimentos, água e gases presos nas camadas subterrâneas.
A lama costuma apresentar temperatura muito inferior à lava e pode desaparecer com rapidez devido à ação das ondas e correntes marítimas. Em alguns casos, essas formações perdem altura, são erodidas ou deixam de emitir material após determinado período.
Os cientistas agora acompanham justamente esse comportamento. A análise da composição da lama pode indicar de quais profundidades o material veio, além de revelar informações sobre gases, minerais e características do sistema subterrâneo da região.
Outras mudanças no litoral
O vulcão de lama não foi a única alteração observada após os terremotos. Especialistas também identificaram mudanças no litoral de Trinidad, principalmente na região de Galfa Point, na Ilha de Cedros.
Segundo as avaliações de campo, uma área da costa teria se elevado aproximadamente seis metros, expondo partes que antes estavam cobertas pelo mar. A movimentação provocou a morte de animais marinhos que ficaram presos após a alteração do terreno.
De acordo com os pesquisadores, embora os dois fenômenos tenham relação com a atividade geológica provocada pelos terremotos, os mecanismos são diferentes. Enquanto a elevação da costa está associada a movimentos prolongados do solo, o vulcão de lama ocorre pela expulsão de material acumulado no subsolo.
Outros vulcões de lama localizados no sudoeste de Trinidad também apresentaram sinais de atividade após os tremores. A expectativa dos especialistas é que essa movimentação diminua nas próximas semanas, mas novas ocorrências podem surgir, principalmente em áreas afetadas por chuvas e instabilidade do terreno.
Tragédia na Venezuela
Enquanto cientistas investigam os efeitos geológicos dos terremotos, a Venezuela ainda enfrenta as consequências humanas do desastre.
Os tremores registrados no fim de junho já deixaram 4.829 mortos e 16.740 feridos, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 15, pelo presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Jorge Rodríguez Gómez.
O desastre também deixou quase 18 mil pessoas sem moradia. Ao todo, mais de 128 mil famílias receberam algum tipo de atendimento após os abalos sísmicos.
O número de pacientes atendidos chegou a 34.872. Equipes de diferentes países foram enviadas para auxiliar nos trabalhos de resgate e atendimento às vítimas, com envio de equipamentos, medicamentos e alimentos.
A União Europeia anunciou ainda um novo pacote de ajuda humanitária de 20 milhões de euros para apoiar a Venezuela. Os recursos serão destinados a equipamentos médicos e equipes de busca e resgate.
Pesquisas continuam
A formação que surgiu diante da costa de Trinidad transformou em poucos dias uma movimentação subterrânea em uma estrutura visível na superfície. Para os cientistas, o fenômeno representa uma oportunidade de compreender melhor como áreas de intensa atividade tectônica respondem após grandes terremotos.
As análises das amostras coletadas e o monitoramento da região devem indicar se o vulcão de lama continuará ativo, qual sua origem exata e qual foi a influência dos tremores registrados na Venezuela sobre essa nova formação no Caribe.
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