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Welber Tonhá

A cultura de marcar o tempo

Por Bruno
A cultura de marcar o tempo

O ano começou, mais um ano se foi, e o tempo vai passando. Como você marca o seu tempo? Como organiza seus horários, compromissos e as memórias do que foi construído em sua vida?

Organizar o tempo é necessário. A história do tempo é, em última análise, a história do desejo humano de capturar o invisível. Antes de haver engrenagens ou baterias, o homem olhou para cima. O primeiro relógio foi o céu, e o primeiro mestre do tempo foi o Sol.

Nas civilizações antigas, o tempo não era uma sequência de minutos rígidos, mas um fluxo cíclico. Os egípcios e babilônios observaram que as sombras "dançavam" conforme o astro-rei cruzava a abóbada celeste. Assim nasceu o gnômon: uma simples haste fincada no chão. Com o tempo, essa haste evoluiu para o quadrante solar, onde a sombra apontava para marcações na pedra, dividindo o dia em partes. No entanto, o Sol é um mestre caprichoso: ele se retira à noite e se esconde sob as nuvens.

Para medir as horas na escuridão, a humanidade precisou domesticar os elementos. Surgiu a clepsidra, ou relógio de água, onde o líquido vertia de um vaso a outro, revelando a passagem do tempo pelo nível que descia. No silêncio dos templos e palácios, o tempo era úmido e constante.

Mais tarde, o fogo também se tornou cronometrista. Relógios de vela e incensos eram marcados com entalhes; conforme a cera derretia ou o aroma se espalhava, as horas eram consumidas pelas chamas. Já na Idade Média, a areia fina do mar deu vida à ampulheta, um símbolo da transitoriedade da vida: um fluxo constante, imparável e finito.

A grande virada ocorreu no século XIV, nas altas torres das catedrais europeias. O homem já não queria apenas observar o tempo; ele queria construí-lo. Surgiram os primeiros relógios mecânicos, gigantes de ferro movidos por pesos. Eles não tinham ponteiros de minutos, apenas sinos que ecoavam pela cidade, convocando para a oração ou para o mercado. O tempo deixava de pertencer à natureza e passava a pertencer às cidades.

Com a invenção da mola espiral e do pêndulo — aperfeiçoado por Christiaan Huygens no século XVII —, o relógio encolheu. Saiu das torres para as salas de estar e, depois, para o bolso dos cavalheiros. O tempo tornou-se uma posse pessoal, um objeto de luxo e precisão.

Diz a lenda que o relógio de pulso popularizou-se por uma necessidade de liberdade: Santos Dumont precisava cronometrar seus voos sem tirar as mãos dos comandos. O tempo agora estava atado à pele, acompanhando o ritmo do coração humano.

No século XX, o quartzo substituiu as molas, trazendo uma precisão nunca antes vista. Mas a busca não parou. Hoje, os relógios atômicos medem o tempo através das oscilações de átomos de césio, com uma margem de erro de apenas um segundo em milhões de anos.

O que começou com uma sombra projetada na areia transformou-se em uma rede invisível de satélites que coordenam o mundo moderno. O relógio, esse pequeno mestre de tique-taque incessante, é a ferramenta com a qual tentamos organizar o caos da existência, lembrando-nos, a cada segundo, que o presente é o nosso bem mais precioso.

Seu tempo tem valido a pena? Conte-me.

Tem pauta cultural? Conte-me por e-mail: welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09.

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça em Genebra, cadeira nº C186.

Membro da Academia Mineira de Belas Artes.

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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