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Welber Tonhá

Nossa Senhora do Rosário — a Maria que caminha entre contas, coroas e gerações 

Por Redação Jornal Agora · Redação· 6 min de leitura
Nossa Senhora do Rosário — a Maria que caminha entre contas, coroas e gerações 

Welber Tonhá

Chego agora ao último caminho desta jornada que chamei de “3 Marias em uma”. Comecei pelas águas do Paraíba do Sul, onde a pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida surgiu nas redes de pescadores e se transformou em símbolo da fé brasileira. Depois atravessei o oceano até os campos de Fátima, em Portugal, onde três crianças disseram ter encontrado uma Senhora vestida de luz, trazendo uma mensagem de oração, conversão e paz. Agora encerro esta caminhada diante de Nossa Senhora do Rosário, uma devoção que atravessou séculos e que, no Brasil, ganhou uma identidade profundamente ligada à fé popular, à cultura negra, aos Congados, aos Reinados e à memória de tantas gerações.

Antes de continuar, é importante compreender aquilo que dá sentido ao título desta série. Quando falamos em Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora do Rosário, não estamos falando de três Marias diferentes. Maria é uma só. O que muda são os títulos, os lugares, as histórias e as formas pelas quais diferentes povos aprenderam a expressar sua devoção à mãe de Jesus. Foi justamente daí que nasceu para mim a ideia das “3 Marias em uma”: três histórias que percorrem caminhos distintos, mas terminam diante da mesma figura materna.

A devoção a Nossa Senhora do Rosário está profundamente ligada à história do próprio Rosário, oração que conduz o fiel pela repetição de Pai-Nossos e Ave-Marias enquanto contempla os mistérios da vida de Jesus Cristo. Sua formação ocorreu gradualmente ao longo dos séculos, embora a tradição católica tenha associado fortemente sua divulgação a São Domingos de Gusmão e à Ordem dos Dominicanos.

Um acontecimento importante para essa devoção ocorreu em 1571, após a Batalha de Lepanto. O Papa Pio V relacionou a vitória das forças cristãs à intercessão de Nossa Senhora, invocada por meio da oração do Rosário. Com o passar do tempo, aquela celebração de agradecimento se consolidaria na festa de Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 7 de outubro.

Mas é quando essa devoção atravessa o oceano e chega ao Brasil que encontro uma das partes mais significativas de sua história. Durante o período colonial, Nossa Senhora do Rosário tornou-se especialmente importante entre as populações negras, inclusive escravizadas. Surgiram em diferentes regiões as irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaços que, dentro das limitações e contradições de uma sociedade escravista, possibilitaram formas de organização comunitária, solidariedade, religiosidade e preservação de vínculos.

Não podemos romantizar aquele período. A escravidão foi uma violência profunda, responsável por separar famílias, retirar liberdades e tentar apagar identidades. Ainda assim, homens e mulheres negros encontraram maneiras de resistir, preservar memórias e reconstruir pertencimentos. A religiosidade foi também um desses caminhos.

Nesse encontro complexo entre o catolicismo trazido pelos portugueses, as culturas africanas e a realidade construída em terras brasileiras, surgiram manifestações que atravessaram gerações. Congados, Reinados, guardas de Congo, Moçambique, Catopés e tantas outras expressões fizeram de Nossa Senhora do Rosário uma presença que ultrapassou os altares e ganhou as ruas.

E em Minas Gerais essa história criou raízes profundas. Quem já acompanhou uma festa de Reinado compreende que existe ali algo que não cabe apenas na descrição de uma celebração religiosa. Há séculos caminhando naqueles passos. Há memória no som das caixas e dos tambores. Há história nas cores das fardas, nos bastões, nas coroas e nas bandeiras que atravessam as ruas. Há reis e rainhas, capitães, guardas, bandeireiros, homens, mulheres, jovens e crianças mantendo viva uma tradição que receberam daqueles que vieram antes.

Há momentos em que ouvimos primeiro o tambor e somente depois enxergamos a guarda se aproximando. E sempre achei bonita essa imagem: é como se a memória chegasse antes das pessoas, anunciando que uma história muito antiga continua viva.

Nossa Senhora do Rosário tornou-se, assim, uma Maria que caminha com o povo. Está na igreja e está na rua. Está diante do altar, mas também segue atrás das bandeiras. Está no silêncio de quem segura um Rosário entre os dedos e na alegria coletiva de uma guarda que canta e dança sua fé. É devoção íntima e, ao mesmo tempo, celebração comunitária.

Talvez o próprio Rosário seja uma bela metáfora para compreendermos essa tradição. Uma conta sozinha parece pequena. Depois dela vem outra, e mais outra, todas ligadas por um mesmo fio até formarem uma oração inteira. Assim também são as gerações. Cada pessoa é como uma dessas contas. Um avô ensina ao neto aquilo que aprendeu de seus antepassados. Uma mãe transmite à filha uma oração. Um capitão ensina aos mais jovens um canto, um ritmo, um gesto. Uma família guarda cuidadosamente uma coroa, uma bandeira ou uma farda que pertenceu aos antigos.

O tempo passa, as pessoas passam, mas o fio permanece.

Por isso, falar de Nossa Senhora do Rosário é também falar de memória, resistência, pertencimento e identidade. É reconhecer a contribuição fundamental das comunidades negras para a formação da religiosidade e da cultura brasileira, especialmente em Minas Gerais, onde o Reinado permanece como uma das expressões mais fortes desse encontro entre fé, ancestralidade e tradição.

E então retorno ao ponto onde comecei. Três Marias em uma. Primeiro encontrei Nossa Senhora Aparecida, pequena imagem retirada das águas por pescadores e transformada, através dos séculos, em Padroeira do Brasil. Uma devoção que nasceu entre redes vazias e encontrou morada no coração de milhões de brasileiros. Depois encontrei Nossa Senhora de Fátima, a Senhora que, segundo a tradição católica, apareceu aos três pastorinhos portugueses em 1917, em um mundo marcado pela guerra e pelas incertezas, trazendo uma mensagem que falava de oração, conversão e paz. Agora termino diante de Nossa Senhora do Rosário, aquela que atravessou séculos acompanhando homens e mulheres em oração e que, no Brasil, encontrou entre as comunidades negras uma de suas mais profundas manifestações de fé, resistência e identidade cultural.

Talvez seja essa a maior conclusão desta caminhada. Cada povo encontrou uma maneira de aproximar Maria de sua própria história. Mudaram os mantos, as coroas, os lugares e os títulos. Mudaram as músicas, as festas e as formas de devoção. Mas permaneceu a mesma jovem de Nazaré que, segundo os Evangelhos, respondeu “sim” ao chamado de Deus e se tornou mãe de Jesus.

Foi isso que procurei compreender ao escrever sobre estas “3 Marias em uma”. Mais do que apresentar três devoções católicas, procurei perceber aquilo que elas produziram na história e na cultura dos povos. Porque a fé também deixa marcas. Constrói templos, inspira músicas, cria festas, movimenta peregrinações, atravessa gerações e permanece guardada nas memórias familiares.

Talvez muitos de nós tenhamos alguma dessas lembranças: uma pequena imagem na casa dos avós, uma procissão acompanhada ainda na infância, uma vela acesa silenciosamente, uma Ave-Maria aprendida com nossa mãe ou o som distante de uma guarda de Reinado atravessando as ruas.

São pequenos gestos, mas são eles que permitem que uma tradição sobreviva aos séculos. E assim encerro esta jornada compreendendo que nunca foram verdadeiramente três Marias. Era apenas Maria. A mesma mãe contemplada por diferentes povos, em diferentes épocas e sob diferentes nomes.

Aparecida nas águas. Fátima na luz. Rosário nas mãos do povo.

Três histórias, três devoções, três caminhos — e uma só Maria.

Welber Tonhá

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha


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