A Cultura e a Aceitação da Perda

Welber Tonhá
A perda acompanha a humanidade desde seus primeiros passos. Antes de escrever a própria história, o ser humano já precisava despedir-se dos mortos, abandonar lugares, suportar derrotas e compreender que nem tudo aquilo que amamos permanece ao nosso lado.
Cada cultura criou uma maneira de enfrentar essa ausência. Os egípcios preparavam os mortos para uma travessia; gregos e romanos gravavam nomes na pedra para que a memória resistisse ao tempo. Outras sociedades desenvolveram orações, velórios, cremações, altares e períodos de recolhimento. Mudavam os gestos e as crenças, mas permanecia a necessidade de dar forma ao vazio.
Os rituais não apagam a dor. Quando faltam palavras, acendemos uma vela, depositamos flores, guardamos uma fotografia ou repetimos o nome de quem partiu.
Entretanto, nem toda perda acontece diante da morte. Perdemos disputas, oportunidades, sonhos e projetos. No futebol, o Brasil conheceu a frustração ao perder para a Noruega, assim como a Argentina sentiu o peso da derrota diante da Espanha.
A derrota esportiva é real, ainda que passageira. O torcedor sofre, reclama e revive cada lance. Contudo, o esporte guarda uma esperança que outras perdas não oferecem: haverá outro jogo. O time poderá voltar ao campo e a história concederá outra oportunidade.
A morte não concede revanche.
Talvez por isso a perda de um animal de estimação seja tão difícil de compreender para quem nunca estabeleceu com um animal um vínculo profundo. Para alguns, a tristeza é moderada. Para outros, a dor é imensa, porque aquele animal não ocupava somente um espaço na casa. Ele fazia parte dos horários, dos hábitos e da vida familiar.
Em nossa casa, acabamos de perder Ragnarok, o gato que eu chamava carinhosamente de Negão. Ele faleceu no domingo. Para quem observa de fora, talvez pareça apenas a morte de um gato. Para nós, foi a interrupção de uma presença amada.
A casa continua no mesmo endereço. Os móveis permanecem em seus lugares e as noites chegam como antes. Ainda assim, alguma coisa mudou. A ausência aparece no olhar que procura o canto onde ele dormia, no cuidado ao abrir uma porta esperando que ele passe, no pote que já não precisa ser preenchido e no silêncio que substitui seu miado.
O luto por um animal retorna cada vez que um hábito procura aquele que já não está. Ragnarok tinha um nome grandioso, mas para nós era o Negão: um gato com suas manias, seus pedidos de carinho e sua maneira particular de pertencer à família. Sua partida encerrou uma fase da casa que nunca voltará a ser exatamente igual.
Depois existem as perdas humanas, geralmente as mais dolorosas e difíceis de aceitar. Elas modificam famílias, amizades e comunidades inteiras.
A perda da Irmã Maria Beatriz, do Carmelo Imaculada Conceição, em Divinópolis, ultrapassou os muros do convento. Uma vida dedicada à oração, ao silêncio e ao serviço pode alcançar muitas pessoas. Quando parte alguém que consagrou seus dias a rezar pelos outros, fica a sensação de que uma voz silenciosa deixou de pronunciar nossos nomes diante de Deus.
Também marcou a comunidade a morte do jovem Matheus Azevedo, irmão do senador Cleitinho, do deputado Eduardo Azevedo e do ex-prefeito Gleidson Azevedo. A presença pública dos irmãos fez a notícia alcançar muitas pessoas, mas nenhum cargo modifica a dor íntima de uma família.
Antes de serem figuras públicas, eles são irmãos. Diante da morte, títulos e mandatos ficam do lado de fora da casa. Dentro dela permanece a ausência daquele que ocupava um lugar que nenhuma homenagem poderá preencher.
Essas perdas são diferentes, mas revelam a mesma verdade: ninguém parte sozinho, porque ninguém vive inteiramente sozinho. Cada ser deixa uma rede de afetos e lembranças. Por isso, não existe uma medida absoluta para o sofrimento. Não sentimos apenas conforme aquilo que perdemos, mas conforme o vínculo que construímos.
Aceitar uma perda não significa concordar com ela, esquecer quem partiu ou deixar de sentir saudade. Aceitar é compreender que a ausência passou a fazer parte de nossa história e que será necessário continuar vivendo sem expulsar de nós aquilo que amamos.
O luto não segue uma linha reta. Há dias de serenidade e manhãs de revolta. Uma lembrança pode provocar um sorriso e, logo depois, trazer lágrimas. Algumas pessoas choram imediatamente; outras só compreendem a dimensão da perda muito tempo depois. Cada luto assume a forma do amor que o antecedeu.
Talvez as culturas tenham criado tantos ritos porque perceberam que ninguém deveria atravessar sozinho esse território. O velório reúne. A oração ampara. A homenagem preserva. A fotografia testemunha. O abraço sustenta. O nome pronunciado impede que o silêncio seja completo.
O Brasil voltará a jogar. A Argentina disputará novos campeonatos. Essa é a natureza das perdas reversíveis: a vida oferece novas partidas.
Mas não haverá outro Ragnarok
Poderá haver outros gatos, novos afetos e outras histórias, mas nenhum será o Negão. Da mesma forma, outras religiosas viverão no Carmelo, mas nenhuma será Irmã Maria Beatriz. Outros jovens nasceram na família Azevedo, mas nenhum substituirá Matheus.
A vida não produz substitutos. Ela cria novas presenças, enquanto aqueles que partiram passam a existir de outra maneira: na memória, na saudade, na fé e nas histórias contadas.
Uma verdadeira cultura de aceitação da perda não exige o esquecimento, não mede a legitimidade das lágrimas e não determina prazos para o sofrimento. Aceitar é aprender a carregar a ausência sem permitir que seu peso nos impeça para sempre de caminhar.
Ragnarok permanece quando dizemos Negão. Irmã Maria Beatriz permanece nas orações e na memória. Matheus permanece na história de seus irmãos, familiares e amigos.
E todos aqueles que amamos permanecem enquanto continuamos dizendo: você esteve aqui, foi amado e não será esquecido.
Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Escritor, historiador, pesquisador e fazedor cultural.
Instagram: @welbertonha
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