São José: o homem que ensinou pelo silêncio

Welber Tonhá
Ao continuar esta caminhada pela cultura dos santos católicos, escolho falar de São José justamente no tempo em que celebramos o Dia dos Pais. Talvez não exista figura mais apropriada para recordar a grandeza da paternidade do que aquele homem sobre quem os Evangelhos dizem tão poucas palavras, mas cuja presença foi decisiva na infância e na formação de Jesus.
José não deixou discursos registrados, não escreveu livros e não buscou protagonismo. Sua história foi construída no silêncio, no trabalho, na responsabilidade e na proteção da família. Talvez esteja justamente aí uma de suas maiores lições: há pessoas cuja importância não se mede pela quantidade de palavras que dizem, mas pela segurança que oferecem ao permanecer ao nosso lado.
Homem simples de Nazaré, José era conhecido como carpinteiro. Trabalhava com as próprias mãos e conhecia o peso da madeira, o esforço dos dias e a dignidade do trabalho. Quando se viu diante da inesperada gravidez de Maria, poderia ter escolhido o afastamento. No entanto, escolheu acolher.
E talvez uma das palavras mais bonitas para definir a paternidade seja exatamente essa: acolher.
José acolheu Maria, acolheu Jesus e acolheu uma missão que não havia planejado. Tornou-se pai não apenas por uma ligação de sangue, mas por uma decisão diária de amor, presença e responsabilidade. Sua história nos recorda que pai também é aquele que acompanha, protege, ensina e permanece.
Pouco depois do nascimento de Jesus, José precisou deixar sua terra e fugir com a família para o Egito, diante da ameaça de Herodes. Imagino aquele homem atravessando caminhos desconhecidos com a única preocupação de manter Maria e o menino seguros. Não havia certezas sobre o dia seguinte. Havia apenas a necessidade de continuar.
É impossível não pensar em tantos pais que, ao longo da história, também atravessaram seus próprios desertos. Homens que mudaram de cidade, trabalharam longas jornadas, adiaram sonhos e suportaram preocupações que muitas vezes os filhos só compreenderam anos depois.
De volta a Nazaré, José viveu os anos mais silenciosos e talvez mais belos de sua missão. Imagino sua oficina, o cheiro da madeira, as ferramentas espalhadas e Jesus ainda menino observando suas mãos. Talvez tenha aprendido com ele um ofício, mas certamente aprendeu também a dignidade do trabalho, a responsabilidade, o respeito e a importância de concluir bem aquilo que havia começado.
Antes de ensinar multidões, Jesus também foi um menino aprendendo a viver.
E José estava ali.
É justamente por isso que São José se tornou uma referência tão profunda para os pais. Seu amor não aparece em grandes discursos, mas em sua presença. Ele estava quando Maria precisou de apoio, quando Jesus nasceu, quando a família precisou fugir e durante os anos comuns de Nazaré.
Ao escrever sobre São José neste período próximo ao Dia dos Pais, inevitavelmente penso também em meu próprio pai, Walter, o nosso Pezão.
Falar de pai é tocar um território da memória onde poucas palavras parecem suficientes. Um pai não cabe apenas em uma fotografia ou em uma lembrança isolada. Ele permanece em nossa maneira de enxergar o mundo, em nossos gestos, em expressões que repetimos sem perceber e em valores que carregamos ao longo da vida.
Quanto de um pai continua vivendo dentro de um filho?
Talvez muito mais do que conseguimos perceber.
Ao olhar para São José, penso nessa herança silenciosa. Ele provavelmente jamais imaginou que seria lembrado por milhares de anos. Apenas viveu sua missão, trabalhou, protegeu e permaneceu ao lado de sua família. Muitos pais também não sabem a dimensão da marca que deixam em seus filhos. Enquanto tentam construir uma vida segura para a família, estão construindo também memórias.
Meu pai, Walter Pezão, faz parte de minha história dessa maneira. Ao homenageá-lo, não desejo transformá-lo em personagem idealizado. Pais são homens reais, com virtudes, limitações, sonhos, erros, preocupações e batalhas que muitas vezes os filhos só conseguem enxergar depois de adultos.
Talvez esteja justamente aí a beleza da paternidade.
Existem pais que ensinam falando e existem pais que ensinam vivendo. O filho observa o pai trabalhando, cumprindo compromissos, enfrentando dificuldades e seguindo adiante apesar dos próprios cansaços. Um dia, ao enfrentar sua própria vida, percebe que alguma coisa daquele homem continua caminhando dentro dele.
É assim que penso em meu pai.
São José nos ensina que uma vida pode ser extraordinária mesmo quando vivida longe dos holofotes. Ele não precisou anunciar ao mundo que era pai.
Ele simplesmente foi.
Por isso, neste Dia dos Pais, escolho recordar também aqueles homens comuns que, como o carpinteiro de Nazaré, construíram sua importância no silêncio dos dias, na responsabilidade e na presença.
E faço deste texto minha homenagem ao meu pai, Walter “Pezão”.
Com o passar do tempo, compreendo cada vez mais que os filhos são feitos também daqueles que vieram antes deles. Um pai permanece em seus ensinamentos, em suas histórias e na maneira como aprendemos a seguir nossos próprios caminhos.
Entre São José e Walter existe uma distância de séculos, mas há algo que aproxima todas as histórias de paternidade: um filho sempre carregará consigo alguma coisa daquele homem que um dia caminhou à sua frente.
E talvez essa seja a mais bonita herança deixada por um pai: não aquilo que conseguimos guardar nas mãos, mas aquilo que continuamos carregando dentro de nós.
Ao meu pai, Walter “Pezão”, meu respeito, minha gratidão e minha homenagem neste Dia dos Pais.
Welber Tonhá
Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.
Instagram: @welbertonha
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