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Welber Tonhá

A cultura da Capoeira — quando o corpo guarda a memória de um povo

Por Welber Tonhá · Colunista· 4 min de leitura
A cultura da Capoeira — quando o corpo guarda a memória de um povo

Welber Tonhá

Há histórias que não foram escritas primeiro no papel. Foram gravadas no corpo, no ritmo, na voz e na memória. A capoeira é uma delas. Muito antes de ocupar academias, projetos sociais, escolas e competições, ela já existia como expressão de resistência, identidade e liberdade, construída no Brasil a partir das tradições africanas trazidas pelos povos escravizados e reinventadas diante de uma realidade marcada pela violência, pela opressão e pela necessidade de sobreviver sem perder as próprias raízes. 

Talvez por isso seja tão difícil definir a capoeira com uma única palavra. Ela é luta, mas também dança. É jogo, mas também defesa. É música, ritual, estratégia, convivência e educação. Dentro de uma roda, o corpo fala, o berimbau conduz, as palmas acompanham e os olhos precisam aprender a ler o movimento do outro. Cada ginga parece carregar uma mensagem antiga: é possível recuar sem se render, desviar sem fugir, cair e voltar ao centro. 

A história da capoeira também atravessou perseguições. Houve um tempo em que praticá-la era visto como ameaça, quando seus movimentos e seus praticantes eram tratados pelas autoridades como caso de polícia. O Brasil levou muito tempo para reconhecer oficialmente aquilo que o povo já sabia havia gerações: a capoeira era cultura, era patrimônio e era parte essencial da formação de nossa identidade. Hoje, reconhecida no Brasil e internacionalmente como patrimônio cultural, ela carrega consigo uma vitória que pertence principalmente àqueles que insistiram em mantê-la viva. 

E é exatamente quando penso nessa permanência que minha memória deixa a história nacional e chega a Divinópolis. 

Falar da capoeira em nossa cidade é também falar de pessoas que fizeram dela um caminho de vida. Entre essas pessoas está alguém que conheço não apenas pela roda ou pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos, mas pela amizade que nasceu ainda nos tempos de faculdade, na Uemg: meu amigo Eudes, que a capoeira consagrou como Mestre Bob. 

Existem amizades que o tempo modifica, mas não apaga. Quando me lembro daqueles tempos de Uemg, vejo jovens seguindo caminhos que ainda não sabíamos exatamente onde terminariam. Cada um carregava sonhos, inquietações, projetos e uma ideia do futuro. Os anos passaram, e foi bonito perceber que Eudes transformou sua relação com a capoeira em algo muito maior do que uma prática esportiva. Mestre Bob fez dela instrumento de educação, disciplina, inclusão e preservação da memória. 

À frente do Grupo Patuá, construiu em Divinópolis uma trajetória que ultrapassa a formação de atletas. Porque um verdadeiro mestre não ensina apenas golpes. Ensina respeito. Ensina a ouvir. Ensina que existe momento de avançar e momento de esperar. Ensina que ninguém entra sozinho em uma roda, porque todo jogo depende do outro, do ritmo e da coletividade. 

A capoeira que Mestre Bob transmite aos seus alunos guarda exatamente essa essência. Crianças, jovens e adultos aprendem movimentos, mas também entram em contato com uma parte fundamental da história brasileira. Ao tocar o berimbau, cantar uma ladainha ou iniciar uma ginga, cada aluno toca, de alguma maneira, em uma memória construída durante séculos. 

O Patuá tornou-se, assim, uma referência da capoeira em Divinópolis, levando seus atletas a encontros, campeonatos e experiências para além das fronteiras da cidade. As medalhas e conquistas são importantes e merecem ser celebradas, mas acredito que o maior resultado desse trabalho está nas pessoas formadas dentro da roda. Está no jovem que aprende disciplina, na criança que encontra pertencimento, naquele que descobre sua própria capacidade e no aluno que, depois de anos aprendendo, passa também a ensinar. 

Há algo profundamente simbólico nisso. O conhecimento recebido não termina em quem o recebeu. Ele precisa continuar circulando. 

Talvez seja esse o verdadeiro sentido da roda. 

Ela não possui começo nem fim. Todos podem ocupar o centro em algum momento, enquanto os demais sustentam o ritmo ao redor. A roda permanece porque cada geração recebe algo e assume a responsabilidade de entregá-lo à próxima. 

Quando olho hoje para meu amigo dos tempos da UEMG, vejo também o mestre que Divinópolis aprendeu a respeitar. Vejo alguém que transformou talento e dedicação em trabalho cultural, educativo e humano. O rapaz que conheci na faculdade tornou-se guardião de uma tradição que nasceu muito antes de todos nós e que continuará existindo graças a pessoas que compreendem que cultura não se conserva apenas dentro de museus ou livros. Cultura também precisa respirar. 

E a capoeira respira. 

Respira no toque do berimbau. 

Respira nas palmas que cercam a roda.

Respira no pé que se aproxima do chão e logo volta a subir. 

Respira nas vozes que cantam histórias que atravessaram gerações. 

Em Divinópolis, ela respira também através do trabalho de Mestre Bob e do Grupo Patuá. 

Por isso, quando uma nova roda se forma e dois capoeiristas se abaixam diante do berimbau antes de começar o jogo, não vejo apenas dois corpos prestes a gingar. Vejo uma história inteira entrando novamente em movimento. 

E talvez aí esteja a grande beleza da capoeira: transformar o chão em memória, o corpo em linguagem e cada roda em uma página viva da história brasileira. 

Welber Tonhá 

welbertonha@gmail.com

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha


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