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Welber Tonhá

A segunda Guerra Mundial — e o Exército Brasileiro 

Por Redação Jornal Agora · Redação· 5 min de leitura
A segunda Guerra Mundial — e o Exército Brasileiro 

Welber Tonhá

Quando penso na Segunda Guerra Mundial, não consigo enxergá-la apenas como uma sucessão de batalhas registradas nos livros de História. Vejo homens deixando suas casas, famílias esperando notícias que demoravam a chegar, jovens atravessando um oceano sem saber exatamente o que encontrariam do outro lado e um mundo inteiro colocado diante de uma das páginas mais duras de sua existência. Entre esses homens estavam brasileiros. Soldados que carregaram nas fardas as cores de um país distante dos campos de batalha europeus, mas que, diante das circunstâncias, também foi chamado a tomar posição.

O Brasil entrou oficialmente na guerra em 1942, depois de ataques de submarinos alemães e italianos contra embarcações brasileiras. A distância geográfica já não era suficiente para manter o conflito longe de nós. O Atlântico também se tornara campo de batalha e, pouco a pouco, o país compreendeu que aquela guerra, embora travada a milhares de quilômetros, também havia chegado à nossa porta.

Foi nesse contexto que nasceu a Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Aproximadamente 25 mil brasileiros foram enviados para a Itália e integrados às forças aliadas. Deixaram o calor de suas cidades e enfrentaram o inverno europeu, as montanhas, a lama, a neve, o medo e a incerteza. Muitos nunca tinham visto a neve. Talvez alguns jamais tivessem imaginado que um dia estariam combatendo nos Apeninos italianos, ouvindo tiros de artilharia enquanto, do outro lado do oceano, suas famílias rezavam pelo retorno.

A frase que se tornou símbolo daqueles homens dizia que era “mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra”. A cobra fumou. E nossos soldados foram.

Na Itália, o Exército Brasileiro escreveu capítulos que permanecem vivos em nossa memória militar. Monte Castello, Castelnuovo, Montese, Collecchio e Fornovo são nomes que deixaram de representar apenas pontos no mapa para se transformarem em lugares ligados ao esforço e ao sacrifício de brasileiros. Em Monte Castello, depois de tentativas difíceis e de meses enfrentando posições fortemente defendidas, a vitória alcançada em fevereiro de 1945 tornou-se um dos grandes símbolos da presença brasileira no conflito. Em Montese, poucos meses depois, a FEB enfrentaria uma de suas batalhas mais intensas.

Mas, para mim, a História nunca pode ser contada apenas pelas vitórias. Por trás das estratégias militares existiam homens. Havia o soldado que escrevia uma carta para a mãe, aquele que guardava no bolso a fotografia da esposa, o jovem que talvez sonhasse em voltar para casa e construir uma família. Existiam cozinheiros, motoristas, médicos, enfermeiros, operadores de rádio, oficiais, praças e tantos outros personagens que fizeram daquela participação brasileira algo muito maior do que uma sequência de confrontos.

Estudar esse período é, sobretudo, compreender que objetos também carregam memórias. Uma farda não é apenas tecido. Um capacete não é apenas metal. Uma mochila não representa somente aquilo que um soldado carregava nas costas. Um rádio de campanha, um cantil, uma fotografia, um documento ou um veículo militar podem conservar silenciosamente fragmentos de uma geração inteira.

Foi justamente por acreditar nisso que tive a honra de ser um dos responsáveis pela montagem da exposição dedicada à participação do Exército Brasileiro e à memória militar brasileira. Durante esse trabalho, tive a oportunidade de conhecer o senhor Carlos Daher, proprietário do acervo exposto, e compreender ainda mais a dimensão de preservar objetos que atravessaram décadas e trouxeram consigo histórias que precisam continuar sendo contadas.

Ao observar cada peça, inevitavelmente imagino as mãos que um dia a tocaram. Quem utilizou aquele capacete? Que caminhos percorreu aquela mochila? Que mensagem passou por determinado equipamento? Quantos quilômetros um veículo militar enfrentou antes de se tornar testemunha silenciosa da História? É justamente aí que um acervo deixa de ser uma coleção de objetos antigos e passa a representar vidas, acontecimentos e lembranças.

Também agradeço à prefeita Janete Aparecida, ao secretário de Cultura Mardey Russo e ao gerente Eduardo Araújo pela confiança em me designar para a montagem da exposição. Recebi essa responsabilidade com enorme respeito, porque trabalhar com a memória é também assumir o compromisso de ajudar a preservá-la para as próximas gerações.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, mas suas histórias ainda caminham entre nós. Alguns daqueles jovens brasileiros voltaram para suas cidades e retomaram suas vidas tentando encontrar novamente a normalidade. Outros permaneceram para sempre em solo europeu. Todos, entretanto, passaram a fazer parte de uma memória que pertence ao Brasil.

Quando olho para aqueles soldados, penso especialmente na distância. Eles atravessaram o oceano levando consigo um pequeno pedaço de seu país. Talvez o cheiro da casa onde cresceram, uma lembrança de infância, a fotografia guardada entre os pertences ou simplesmente a esperança de retornar. Naquele momento, o Brasil caminhava com eles pelas estradas da Itália.

É por isso que preservar essa história importa.

Convido você a conhecer de perto parte dessa memória na exposição realizada na Prefeitura Municipal de Divinópolis, onde objetos, uniformes, equipamentos, documentos, veículos e diferentes elementos ajudam a aproximar o visitante desse período tão importante da nossa História.


A exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, durante o horário comercial.

Mais do que observar peças antigas, o convite é para olhar para elas e imaginar as pessoas que estiveram por trás de cada uma.

Porque existem histórias que lemos.

Existem histórias que ouvimos.

E existem aquelas diante das quais precisamos parar por alguns instantes, olhar com atenção e compreender que, muito antes de se transformarem em História, foram a vida de alguém.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha



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