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Welber Tonhá

A Cultura de Acumular

Por Jornal Agora· 4 min de leitura
A Cultura de Acumular

Welber Tonhá

Desde muito cedo, aprendi que quase toda casa guarda mais do que objetos. Guarda medos, lembranças, promessas e histórias que ninguém teve coragem de abandonar. Uma gaveta cheia de chaves antigas, uma caixa de fotografias sem data, roupas que já não servem e utensílios há muito esquecidos não representam apenas desordem. Muitas vezes, são vestígios de uma cultura que atravessa gerações: a cultura de acumular.

Esse comportamento é tão antigo quanto a própria humanidade. Antes de existir o dinheiro, o homem já guardava sementes, alimentos, ferramentas e peles para enfrentar tempos de escassez. Acumular era sobreviver. Um celeiro cheio podia garantir a continuidade de uma família ou de uma aldeia; um depósito vazio anunciava fome e insegurança. Talvez por isso ainda exista, dentro de nós, a sensação de que guardar é proteger o futuro.

Com o passar dos séculos, entretanto, a necessidade transformou-se também em demonstração de poder. Reis acumularam ouro, terras, armas e obras de arte. Impérios encheram palácios com objetos retirados de povos conquistados. Quanto mais alguém possuía, maior parecia ser sua importância. A riqueza deixou de ser apenas um recurso e tornou-se uma espécie de linguagem: quem tinha muito acreditava valer mais.

Esse pensamento chegou até nossas casas, ainda que de forma mais silenciosa. Muitos de nossos avós guardavam potes, pedaços de tecido, pregos, sacolas e ferramentas porque haviam vivido épocas em que tudo era difícil de conseguir. Jogar fora algo que ainda pudesse servir parecia desperdício. Herdamos deles não apenas os objetos, mas também a frase que continua justificando tantos armários cheios: "Um dia isto pode ser necessário".

Compreendo esse sentimento. Há coisas que realmente merecem permanecer. Uma carta antiga, uma fotografia, um livro anotado ou um objeto usado por alguém querido podem conter mais afeto do que valor material. Preservar também é uma forma de lutar contra o esquecimento. Se hoje conhecemos partes importantes do passado, é porque alguém decidiu guardar documentos, móveis, roupas, imagens e pequenas lembranças do cotidiano.

O problema surge quando deixamos de escolher. Há um momento em que o objeto já não serve à pessoa, e a pessoa passa a servir ao objeto. Os cômodos diminuem, os corredores se estreitam e a casa perde espaço para a vida. Descartar passa a provocar culpa, como se jogar fora uma coisa significasse apagar a história ligada a ela.

Percebo que, em nosso tempo, acumulamos muito mais do que objetos. Guardamos milhares de fotografias que talvez nunca voltemos a olhar, mensagens antigas, arquivos repetidos, contatos de pessoas com quem já não falamos e compromissos que não cabem em nossos dias. Acumulamos informações, tarefas e experiências, como se uma vida cheia fosse necessariamente uma vida bem vivida.

A sociedade de consumo soube explorar essa inquietação. Somos constantemente convencidos de que alguma coisa nos falta. Uma roupa nova, um aparelho mais moderno ou um móvel diferente prometem preencher vazios que os objetos não conseguem alcançar. Compramos para melhorar o humor, marcar uma fase ou construir uma imagem de nós mesmos. A alegria dura pouco, e logo outra compra parece necessária.

Não acredito, porém, que a resposta seja desprezar tudo. Entre guardar cada coisa e não preservar coisa alguma, existe a sabedoria da escolha. Algumas lembranças merecem atravessar o tempo; outras podem seguir para novas mãos; muitas já cumpriram sua função e precisam partir.

Tenho aprendido que desapegar não significa negar o passado. A memória não vive somente nos objetos. O prato pode quebrar, a roupa pode se desfazer e a casa pode deixar de existir, mas aquilo que foi vivido permanece de outras maneiras. Carregamos pessoas, lugares e tempos dentro de nós, mesmo quando seus vestígios materiais desaparecem.

A cultura de acumular nasceu do medo da falta, tornou-se símbolo de poder, hábito familiar e instrumento de consumo. Ela atravessa gerações porque toca em um temor profundamente humano: perder aquilo que amamos e sermos esquecidos.

Talvez nosso maior desafio não seja aprender a guardar, pois isso já sabemos desde a Antiguidade. O verdadeiro aprendizado está em reconhecer o que merece permanecer. Afinal, uma vida não deveria ser medida pela quantidade de coisas deixadas para trás, mas pelos afetos, pelas histórias e pelos ensinamentos que conseguimos transmitir.

Welber Tonhá e Silva

[welbertonha@gmail.com]

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09. Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça, em Genebra, cadeira nº C186. Membro da Academia Mineira de Belas Artes. Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha


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