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Welber Tonhá

A história do futebol

Por Bruno
A história do futebol

Minha canção de tinta e papel deveria ecoar os tambores da Copa de 2026, um desfecho natural após eu ter tracejado a longa memória dos mundiais. No entanto, o futebol praticado pela seleção brasileira não me trouxe gols; trouxe-me um silêncio azedo, uma fúria fria que secou a fonte da minha inspiração. Diante do campo desolado do presente, recolhi meus panos. Decidi que, se a atualidade me nega o encanto, buscarei abrigo onde o futebol nunca decepciona: no sagrado altar de sua própria história.

O início de tudo não teve gramados perfeitos, refletores ou táticas complexas. Teve, sim, a lama de vilarejos medievais ingleses, onde centenas de homens corriam atrás de uma bexiga de porco inflada, num frenesi violento que mais parecia uma batalha campal do que um esporte. Era o "futebol de massa", uma celebração caótica que reis tentaram proibir, mas que a alma do povo insistia em jogar.

O berço e a ordem (Século XIX)

A névoa de Londres, em meados dos anos 1800, testemunhou a metamorfose do caos em poesia. Nas prestigiadas escolas públicas britânicas, os jovens decidiram que era preciso domesticar a selvageria. Em 1863, na Freemasons’ Tavern, homens de cartola e paletó ditaram as primeiras regras fundamentais. Ali nasceu a Football Association.

O esporte rompeu as correntes do elitismo quando operários de fábricas e ferrovias adotaram a bola de couro. O futebol ganhava sua primeira grande identidade: um jogo de passes, de união e de paixão operária. Pelos oceanos, nos porões dos navios britânicos, essa febre cruzou o mundo.

O despertar do Velho e do Novo Mundo (1900–1930)

Se a Inglaterra deu ao futebol uma certidão de nascimento, a América do Sul lhe deu uma alma. Em 1894, um jovem chamado Charles Miller desembarcou no porto de Santos com duas bolas debaixo do braço e um livro de regras. O Brasil, aos poucos, transformou o esporte britânico — rígido e geométrico — em uma dança improvisada, miscigenada e rítmica.

Enquanto a Europa se reconstruía de guerras, o Uruguai assombrava o planeta com um futebol vistoso, coroado nas Olimpíadas. O sucesso foi tamanho que o mundo exigia um palco próprio. Em 1930 , Montevidéu sediou a primeira Copa do Mundo. O Uruguai ergueu a taça, mas o planeta inteiro havia sido conquistado. O futebol já não era apenas um jogo; era a nova religião global.

A Era de Ouro e o Rei do Futebol (1950–1970)

O pós-guerra trouxe feridas, mas também a maior era de romantismo que os gramados já viram. Em 1950, o Maracanã chorou o Maracanazo, provando que o futebol tinha o poder de paralisar e ferir uma nação inteira.

Mas o destino guardava uma redenção mágica. Em 1958, na Suécia, um menino de 17 anos com um sorriso tímido redesenhou a história da gravidade e da bola. Pelé surgiu como o Rei, e ao seu lado, Garrincha, o anjo das pernas tortas, transformou o drible em arte pura. O Brasil de 1970 alcançou o ápice estético do esporte: um futebol que parecia música, um espetáculo de camisas amarelas que consagrou o tricampeonato e definiu o "jogo bonito".

A revolução tática e os deuses imperfeitos (1970–1990)

Nos anos 70, a Holanda de Rinus Michels e Johan Cruyff provou que a inteligência poderia desafiar as posições fixas. O Carrossel Holandês mostrou um futebol total, onde todos atacavam e todos defendiam.

Logo depois, os anos 80 trouxeram a consagração do drama e do gênio individual. Em   1986, no México, Diego Armando Maradona transformou o futebol em literatura viva. Em um único jogo contra a Inglaterra, ele uniu a trapaça divina da "Mão de Deus" à genialidade pura, costurando a defesa adversária naquele que ficou conhecido como o Gol do Século. Maradona mostrou que o futebol era política, vingança e arte barroca.

A globalização e os titãs modernos (2000 – Hoje)

A virada do milênio transformou o esporte em uma indústria multibilionária. Os gramados viraram palcos de alta tecnologia, e os atletas se transformaram em super-humanos.

O mundo testemunhou, por quase duas décadas, uma das maiores rivalidades artísticas da história humana: a consistência implacável e atlética de Cristiano Ronaldo   contra a genialidade silenciosa e quase sobrenatural de Lionel Messi. Essa era de ouro teve seu ápice poético em 2022, no Catar, quando Messi, em uma final teatral, finalmente beijou a Taça do Mundo, fechando o ciclo dos românticos em um futebol cada vez mais rápido e tático.

Hoje, o futebol continua seu curso. Das arenas modernas e reluzentes aos campos de terra batida nas periferias do mundo, a essência permanece intacta. Quando uma criança chuta uma bola em direção a duas pedras que servem de trave, o tempo para. A história do futebol se reinicia a cada toque, provando que, enquanto houver uma bola rolando, a humanidade continuará sonhando acordada.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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