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Welber Tonhá

A cultura das Copas do Mundo de Futebol 

Por Bruno
A cultura das Copas do Mundo de Futebol 

A Copa está acontecendo e por sugestão de um leitor em especial, Walter Pezão, meu pai, resolvi pesquisar sobre a Copa do Mundo de futebol, e vou fazer em três colunas, afinal, o assunto é grande. 

Capítulo I – o nascimento de um sonho (1930–1970)

O velho relógio do futebol marcava o início de uma nova era. Naqueles primeiros anos do século XX, o mundo parecia maior do que realmente era. Os oceanos separavam continentes, as viagens duravam semanas e as notícias caminhavam lentamente entre os países. Ainda assim, uma paixão começava a unir povos distintos: o futebol.

Nas ruas de Montevidéu, Buenos Aires, Londres, Rio de Janeiro e tantas outras cidades, meninos perseguiam bolas de couro como se perseguissem o próprio destino. Era um jogo simples. Bastava um campo improvisado, duas traves e a vontade de jogar.

Foi então que alguns visionários começaram a fazer uma pergunta ousada: E se os melhores do mundo se encontrassem para decidir quem é o maior? A ideia parecia impossível. Mas os sonhos mais grandiosos quase sempre começam parecendo impossíveis. Em 1930, sob a liderança do francês Jules Rimet, presidente da FIFA, nasceu a primeira Copa do Mundo. O palco seria o pequeno Uruguai.

A escolha não foi por acaso. Os uruguaios haviam conquistado as medalhas de ouro olímpicas de 1924 e 1928 e celebravam o centenário de sua independência. Como recompensa, receberam a honra de organizar o novo torneio.

Poucos países europeus aceitaram a aventura. A travessia do Atlântico levava semanas em navios. Ainda assim, treze seleções chegaram. Era o início da história. E ninguém imaginava que ela atravessaria séculos.

Montevidéu respirava futebol. Nas arquibancadas do recém-construído Estádio Centenário, milhares de torcedores testemunharam algo que nunca havia acontecido. Uma Copa do Mundo. A final colocou frente a frente dois rivais vizinhos: Uruguai e Argentina. O jogo foi dramático. A Argentina chegou a liderar o placar. Mas o Uruguai reagiu. Quando o árbitro apitou o fim da partida, os donos da casa venceram por 4 a 2. O primeiro campeão do mundo estava coroado.

Sem saber, os uruguaios haviam inaugurado uma tradição que se transformaria em uma das maiores celebrações da humanidade. O troféu original recebeu posteriormente o nome de Jules Rimet em homenagem ao homem que idealizou o torneio. Durante décadas ele seria o símbolo máximo do futebol mundial.

A segunda Copa aconteceu em 1934. A sede foi a Itália. O país vivia sob o governo de Benito Mussolini, que enxergava o futebol como ferramenta de propaganda nacional. Os italianos chegaram fortes. Empurrados pela torcida e por uma equipe talentosa, conquistaram o título. Quatro anos depois, em 1938, repetiram a façanha na França. Tornaram-se bicampeões. Pareciam invencíveis. Mas a história tinha outros planos.

Em 1939 o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial. Cidades foram destruídas. Milhões de vidas foram perdidas. Os estádios ficaram vazios. As Copas previstas para 1942 e 1946 foram canceladas. Pela primeira vez desde seu nascimento, o sonho de Jules Rimet adormeceu. Mas não morreu. Porque algumas paixões sobrevivem até mesmo às maiores tragédias.

Em 1950, a Copa retornou. E retornou no Brasil. O país parecia feito para receber o torneio. O futebol já era parte da alma nacional. Para a ocasião foi construído um estádio colossal. O Maracanã. Gigante Monumental. Capaz de receber multidões inimagináveis. Os brasileiros acreditavam que a taça já lhes pertencia. A seleção encantava. A imprensa celebrava. O país inteiro preparava a festa. Faltava apenas um último jogo. Contra o Uruguai. Mais de duzentas mil pessoas lotaram o Maracanã. O Brasil precisava apenas empatar. Quando Friaça marcou para os brasileiros, o estádio explodiu em alegria. Então veio o inesperado. Schiaffino empatou. Ghiggia virou. O silêncio caiu sobre o Maracanã. Um silêncio tão profundo que parecia impossível. O Uruguai era campeão. O Brasil chorava. Aquele dia entraria para a eternidade com um nome simples: Maracanazo. Ghiggia costumava dizer: apenas três pessoas conseguiram calar o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu.

A Copa de 1954 aconteceu na Suíça. Todos acreditavam que a Hungria seria campeã. E com razão. A seleção comandada por Ferenc Puskás estava há anos sem perder. Praticava um futebol revolucionário. Marcava muitos gols. Encantava multidões. Na final enfrentou a Alemanha Ocidental. Os húngaros abriram 2 a 0 rapidamente. Parecia decidido. Mas o impossível resolveu aparecer. A Alemanha virou. Venceu por 3 a 2. O episódio ficou conhecido como "O Milagre de Berna". Era a prova de que, no futebol, nenhuma história está escrita antes do apito final.

Em 1958 a Copa desembarcou na Suécia. O Brasil carregava as cicatrizes de 1950. Mas também carregava esperança. Entre os convocados havia um garoto tímido. Tinha apenas dezessete anos. Chamava-se Edson Arantes do Nascimento, Pelé. Poucos sabiam quem ele era. Logo o mundo inteiro saberia. Na semifinal, marcou três gols contra a França. Na final, diante da Suécia, encantou o planeta. Um dos gols nasceu de um chapéu sobre o defensor seguido de uma finalização perfeita. Parecia magia. O Brasil venceu por 5 a 2. Pela primeira vez, a taça cruzava o Atlântico rumo à América do Sul. Pelé havia chegado. E o futebol nunca mais seria o mesmo.

Pelé continua sendo o jogador mais jovem a marcar em uma final de Copa do Mundo. Tinha apenas 17 anos e 249 dias.

Em 1962, no Chile, o Brasil voltou. Agora era favorito. Pelé começou brilhando. Mas uma lesão o tirou da competição. Muitos imaginaram o pior. Foi então que surgiu Garrincha. O homem das pernas tortas. O driblador impossível. O anjo de asas tortas, como o chamariam mais tarde. Partida após partida, Garrincha carregou a seleção. O Brasil derrotou a Tchecoslováquia na final. Era bicampeão. O mundo descobria que o futebol brasileiro possuía uma fonte inesgotável de talento.

Em 1966 a Inglaterra recebeu a Copa. Para os ingleses, tratava-se de uma questão de honra. Afinal, consideravam-se os criadores do esporte. O torneio trouxe uma das histórias mais curiosas de todos os tempos. O troféu Jules Rimet foi roubado durante uma exposição. O país inteiro entrou em alerta. Dias depois, quem encontrou a taça foi um cachorro chamado Pickles. O animal virou celebridade nacional. Pouco depois, dentro de campo, os ingleses conquistaram seu único título mundial ao derrotar a Alemanha Ocidental. Wembley explodiu em festa. A Inglaterra finalmente tinha sua Copa.

O gol mais famoso da final de 1966 até hoje gera debates. A bola bateu no travessão e quicou próxima à linha. Entrou ou não entrou? Décadas depois, a discussão continua.

Então veio 1970, México, sol forte, estádios coloridos. Televisão transmitindo para o mundo inteiro. Pela primeira vez, a Copa tornava-se verdadeiramente global. E o Brasil chegava com um elenco extraordinário. Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gerson. Carlos Alberto. Era uma reunião de gênios. Cada jogo parecia uma obra de arte. A seleção avançava com naturalidade. Encantava, dominava, criava beleza. Na final enfrentou a Itália, duas gigantes, duas campeãs. Mas apenas uma sairia eterna. Pelé abriu o placar, a Itália empatou, então a máquina brasileira entrou em funcionamento. Vieram mais três gols, o último nasceu de uma troca de passes perfeita, a bola chegou a Carlos Alberto, o capitão acertou um chute poderoso, Gol.

Talvez o gol coletivo mais bonito da história das Copas, Brasil 4 x 1 Itália. Tricampeão mundial. Pela regra da época, a conquista definitiva permitiu ao Brasil ficar com a Taça Jules Rimet para sempre. Pelé erguia o troféu pela terceira vez. Era a despedida do Rei das Copas. E também o encerramento de uma era.

Enquanto a noite caía sobre o Estádio Azteca, ninguém podia prever o futuro. Não sabiam que surgiriam novos heróis, novos vilões, novas tragédias, novos milagres. Não sabiam que um menino argentino chamado Diego Maradona sonhava com uma bola em algum lugar de Buenos Aires. Nem que um holandês chamado Johan Cruyff estava prestes a revolucionar a forma de jogar futebol. A história continuava. E a Taça do Mundo seguia sua viagem através do tempo.

Fim do Capítulo I.

Continua no Capítulo II – Deuses, Heróis e Tragédias (1974–2002).

Tem pauta sobre cultura? Me envie.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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