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Welber Tonhá

A cultura das quermesses

Por Bruno
A cultura das quermesses

O vento frio de junho traz consigo um aroma adocicado de pipoca, o calor estalante das fogueiras e o som distante de uma sanfona. Mas para entender como esse mosaico de cores e sabores se formou, precisamos fazer o tempo correr ao revés, atravessando oceanos e séculos, até o momento em que a primeira centelha de uma quermesse foi acesa.

O alvorecer: kerkmitte e a devoção europeia (século XII)

Nossa história começa nas planícies frias da região de Flandres e nos campos da Holanda medieval. O inverno havia sido rigoroso, mas a comunidade se reunia em torno de uma grande conquista: a conclusão da nova igreja do vilarejo. Para celebrar a dedicação do templo, o povo uniu o sagrado e o profano.

Nascia ali a palavra kerkmisse (da junção de kerk, igreja, e misse, missa). Era a "Missa da Igreja", um aniversário paroquial. Fora das paredes de pedra, as famílias montavam pequenas barracas rústicas para partilhar a colheita, vender doces artesanais e leiloar prendas para ajudar os mais necessitados. A devoção ganhava o chão da terra e o sorriso do povo.

A fusão das estações: o solstício e os santos (séculos XIV a XVI)

Enquanto a tradição da quermesse se espalhava pela Europa, ela se chocou e se fundiu com rituais ainda mais antigos. Desde tempos imemoriais, os povos pagãos acendiam fogueiras em junho para celebrar o solstício de verão, agradecendo pela fertilidade da terra e pela fartura das colheitas.

A Igreja Católica, em sua caminhada expansiva, envolveu esses ritos com o manto da fé. As fogueiras do solstício ganharam o nome de São João, o calor do meio do ano abençoou Santo Antônio e São Pedro. A quermesse, antes uma festa de inauguração, tornou-se o grande festejo junino europeu, repleto de danças coreografadas que imitavam a corte — as ancestrais da nossa quadrilha.

A travessia e o chão caipira (séculos XVII a XIX)

Nos porões das caravelas portuguesas, a tradição cruzou o Atlântico e desembarcou no Brasil Colonial. Mas a quermesse europeia não permaneceu a mesma; ela se encantou pelo novo mundo.

Ao tocar o solo brasileiro, a festa encontrou o milho nativo, que virou pamonha, curau e bolo. Encontrou o amendoim, que virou pé de moleque. A fogueira europeia passou a aquecer o inverno do hemisfério sul. O ritmo europeu ganhou o balanço das violas e o compasso rústico do homem do campo. A quermesse tornou-se caipira, uma exaltação da vida rural, da simplicidade e da solidariedade comunitária sob as bandeirinhas de papel que cortavam o céu estrelado.

O mosaico moderno (século XX até os dias de hoje)

As cidades cresceram, o concreto engoliu os campos, mas a quermesse resistiu. Ela migrou para os pátios das igrejas urbanas, para as ruas fechadas dos bairros e para as quadras das escolas.

Hoje, a quermesse é um relicário de memórias afetivas. É o voluntário que passa a noite fritando o pastel na barraca da paróquia; é o calor do vinho quente e do quentão que desafia o vento de inverno; é a expectativa do anúncio do bingo e a brincadeira inocente do correio elegante.

O que começou há séculos como uma missa de inauguração na Europa antiga transformou-se no maior símbolo de pertencimento e comunhão da nossa cultura. A quermesse, afinal, é a prova viva de que o ser humano sempre precisará de um motivo para se reunir, acender uma luz na escuridão e celebrar o milagre de estarmos juntos.

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welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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