A cultura da Festa do Livro, ou festival literário

Aconteceu no último fim de semana a 1ª Festa do Livro em Divinópolis. Uma injeção de incentivo nos eventos culturais da cidade. Iniciativa do secretário de Cultura Mardey (Balão), com apoio da prefeita Janete e emenda impositiva dos vereadores Kell Silva, Ney Burger e Matheus Dias. Foi uma grande movimentação na Praça do Santuário. Torcemos para que venham muitos eventos assim em nossa cidade.
Você sabe como surgiu a Festa do Livro? Antes que o livro tivesse lombada, capa ou página, ele era feito de fôlego e voz. A história das festas literárias não começa em pavilhões modernos, mas ao redor das fogueiras, onde os primeiros contadores de histórias reuniam a tribo para compartilhar os mitos que nos tornaram humanos. Desde então, a humanidade nunca deixou de buscar pretextos para se reunir em torno da palavra.
A aurora: os jardins e os pergaminhos
Na Antiguidade Clássica, o "festival literário" não envolvia a compra e venda, mas a escuta. Na Grécia, os simpósios e as ágoras serviam como os primeiros palcos onde poetas e filósofos testavam suas ideias diante de um público ávido.
Mas foi em Alexandria, no Egito helenístico, que a humanidade conheceu a primeira grande "festa" permanente do conhecimento. A Grande Biblioteca não era apenas um repositório de rolos de papiro; era um ponto de encontro. Sábios de todo o mundo mediterrâneo viajavam semanas para caminhar por seus corredores, debater traduções e celebrar o saber acumulado. Em Roma, as recitationes cumpriam um papel semelhante: os autores alugavam espaços públicos ou usavam os jardins de mecenas para ler suas obras recém-escritas em voz alta, buscando a aprovação da elite antes de encomendar as cópias manuais.
O ouro de Bagdá e a sombra dos claustros
Enquanto a Europa medieval se recolhia na quietude dos mosteiros — onde monges copistas dedicavam anos a um único manuscrito iluminado —, o Oriente Médio fervilhava.
Durante a Era de Ouro Islâmica (séculos VIII a XIII), cidades como Bagdá e Córdoba abrigavam gigantescos mercados de livros. A rua de Al-Mutanabbi, em Bagdá, tornou-se o coração pulsante da literatura: um labirinto de livreiros, encadernadores, calígrafos e leitores. Era uma verdadeira feira a céu aberto, onde poetas declamavam versos nas esquinas e acadêmicos regateavam o preço de tratados de astronomia ou traduções de Aristóteles.
A forja de Gutenberg e as rotas de Frankfurt
Tudo mudou no século XV. Quando o metal de Johannes Gutenberg beijou o papel com tinta e pressão, o livro deixou de ser uma joia exclusiva de reis e clérigos. Nascia a reprodução em massa, e com ela, a necessidade de distribuir essas obras.
É aqui que surge a Feira do Livro de Frankfurt. Originalmente um mercado medieval de mercadorias em geral desde o século XII, Frankfurt viu livreiros locais começarem a trocar manuscritos. Com o advento da prensa (criada a poucos quilômetros dali, em Mainz), a cidade rapidamente se tornou o epicentro do comércio livreiro europeu. No século XVI, editores levavam seus livros em barris por estradas esburacadas para negociar direitos, descobrir o que estava sendo impresso na Itália ou na França, e debater as ideias que logo acenderiam a Reforma Protestante.
Mais tarde, no século XVII, a cidade de Leipzig assumiria o protagonismo, tornando-se o coração iluminista da feira literária até a Segunda Guerra Mundial.
Os pavilhões modernos e o renascimento
Com a Revolução Industrial e a alfabetização em massa no século XIX, o livro tornou-se, definitivamente, um produto popular. As feiras passaram de pontos de encontro de atacadistas e editores para grandes vitrines industriais.
Após as cinzas da Segunda Guerra Mundial, em 1949, a Feira de Frankfurt foi refundada por um grupo de livreiros alemães na Igreja de São Paulo. Ela não era apenas um mercado, mas um símbolo: a reconstrução de uma Europa livre através do retorno do pensamento e da liberdade de expressão. Até hoje, é o maior encontro de negócios do mercado editorial do mundo.
A celebração da palavra: A era dos festivais
Se as feiras históricas eram focadas na venda do objeto impresso, o final do século XX trouxe uma nova reinvenção: o festival literário. O foco mudou do livro para a experiência, do editor para a conexão entre autor e leitor.
Em 1988, na pequena vila galesa de Hay-on-Wye (famosa por ter mais livrarias do que mercados), nasceu o Hay Festival. Bill Clinton o descreveu anos mais tarde como o "Woodstock da mente". Pessoas passaram a montar barracas na lama ou se amontoar em tendas de circo não para ouvir música, mas para escutar escritores debatendo política, poesia e a condição humana.
Esse modelo espalhou-se como fogo em palha seca por todo o globo. No Brasil, essa consagração chegou em 2003 com a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
> A mágica dos festivais modernos, como a Flip, é tirar a literatura de trás das estantes empoeiradas e devolvê-la às ruas de pedra, ao calor humano e ao debate público. O autor deixa de ser um nome impresso na capa e torna-se uma voz presente.
Das fogueiras tribais às tendas de lona balançando com a brisa do mar, a essência permanece intacta: nós somos, fundamentalmente, animais que precisam contar e ouvir histórias para entender o mundo.
Tem pauta cultural, me conte no e-mail:
Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.
Instagram: @welbertonha
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