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O fio de Ariadne da maternidade: uma odisseia através do tempo

Por Bruno
O fio de Ariadne da maternidade: uma odisseia através do tempo

​O Dia das Mães pulsa em mim com uma força particular, transcendendo o simples rito do calendário. Para este que verte palavras no papel, a data é um santuário dedicado à memória de Dona Binha, minha mãe. Mais do que uma referência, ela foi presença constante, o solo firme onde meus primeiros passos se apoiaram.

​Mas minha reverência estende-se também às mulheres que florescem ao meu redor. Vejo em Karen, minha companheira, a fibra de uma leoa: seu amor ignora as fronteiras do sangue, abraçando Cecília e Alexandre com a mesma entrega sagrada, provando que a maternidade é, antes de tudo, um ato de escolha. E há ainda a doçura rascante de Rosângela, minha sogra. Em seu jeito simples, por vezes moldado na rusticidade da vida, ela possui o raro dom de transformar o acolhimento em colo, abrigando a todos — inclusive a mim — em sua generosidade sem adornos.

Você conhece a origem desta data? Vou te contar. 

Desde que o primeiro sopro de vida ecoou nas cavernas ancestrais, a figura da mãe foi desenhada como o pilar invisível do mundo. Não é apenas uma questão de biologia, mas uma tecedura de afeto que atravessa os milênios. Celebrar a mãe é um exercício de memória que nos transporta de altares pagãos a cartões coloridos em prateleiras modernas. Para entender como chegamos ao segundo domingo de maio, precisamos caminhar pelas pegadas deixadas por civilizações que já se tornaram pó, mas que guardavam no peito o mesmo fogo da gratidão.

O alvorecer dos deuses: a devoção na Antiguidade

A história do Dia das Mães não começa com um decreto oficial, mas com o florescer da primavera. Na Grécia Antiga, a celebração era divina. Durante as festividades de primavera, os gregos rendiam homenagens a Reia, a Grande Mãe dos Deuses, progenitora de Zeus e de toda a linhagem olímpica. Eram rituais repletos de mel, flores e vinho, onde a fertilidade da terra e a fertilidade feminina eram celebradas como uma única força sagrada.

Os romanos, herdeiros de muitos desses costumes, levaram a celebração a um novo patamar com o festival da Hilaria, dedicado a Cibele, a Mãe dos Deuses (Magna Mater). Por três dias, a partir do equinócio de março, Roma se transformava em um cenário de procissões e jogos. Era um tempo de alegria e renascimento, onde a figura materna era o símbolo máximo da proteção e da continuidade da vida.

A Idade Média e o despertar do "Domingo das Mães"

Com a ascensão do cristianismo, os antigos altares foram substituídos pela veneração à Virgem Maria, mas o impulso de honrar a origem persistiu. Na Inglaterra do século XVII, surgiu o "Mothering Sunday" (Domingo das Mães). Celebrado no quarto domingo da Quaresma, este dia permitia que os servos e trabalhadores, que muitas vezes viviam longe de suas famílias, tivessem o dia de folga para retornar às suas cidades natais e visitar a sua "igreja mãe" (a catedral ou paróquia principal da região).

Inevitavelmente, o encontro com a igreja se tornava o encontro com a família. As crianças colhiam flores silvestres pelo caminho para presentear suas progenitoras e preparavam o Simnel Cake, um bolo rico em frutas e simbolismo. Era um breve intervalo de ternura em meio à austeridade do período quaresmal, plantando a semente da comemoração familiar que conhecemos hoje.

O grito pela paz e a promessa de uma filha

O salto para a modernidade ocorreu em solo americano, movido por dor e ativismo. Em meados do século XIX, Ann Reeves Jarvis organizou os "Mothers' Day Work Clubs" para combater a mortalidade infantil e melhorar as condições sanitárias. Após a Guerra Civil Americana, ela buscou unir mães de soldados de ambos os lados em prol da reconciliação.

Paralelamente, em 1870, a poetisa e sufragista Julia Ward Howe escreveu a "Proclamação do Dia das Mães", um apelo pacifista para que as mulheres se unissem contra a barbárie da guerra. No entanto, o Dia das Mães como feriado oficial só ganharia corpo através da persistência da filha de Ann, Anna Jarvis.

Após a morte de sua mãe em 1905, Anna jurou oficializar uma data que honrasse o sacrifício e a dedicação materna. Em 10 de maio de 1908, ela organizou o primeiro serviço memorial na Igreja Episcopal Metodista de St. Andrew, na Virgínia Ocidental. Anna enviou 500 cravos brancos — a flor favorita de sua mãe — para a congregação. Para ela, o cravo branco simbolizava a pureza e a perenidade do amor materno.

A linha do tempo da oficialização

A campanha de Anna Jarvis foi uma força da natureza. Ela inundou políticos e empresários com cartas, até que o movimento se tornasse imparável:

- 1910: a Virgínia Ocidental torna-se o primeiro estado a reconhecer oficialmente a data.

- 1914: o presidente Woodrow Wilson assina a proclamação que estabelece o segundo domingo de maio como o Dia das Mães nos Estados Unidos.

- 1932: no Brasil, o presidente Getúlio Vargas oficializa a data, seguindo a tendência americana, consolidando o feriado em terras tupiniquins.

O labirinto do comércio e o sentido reencontrado

A história, porém, guarda uma ironia melancólica. Anna Jarvis, a fundadora, passou o resto de sua vida lutando contra o que sua criação se tornara. Ela horrorizava-se com a comercialização da data — a venda desenfreada de cartões impressos, bombons e flores superfaturadas. Anna acreditava que o sentimento deveria ser expresso por cartas escritas à mão e gestos sinceros, não por lucro. Ela chegou a ser presa por protestar contra convenções de confeiteiros e floristas, morrendo amargurada em um sanatório em 1948.

Hoje, cruzamos o limiar de um novo tempo. O Dia das Mães reflete a pluralidade da nossa era: mães solo, pais que exercem o papel materno, avós que criam, mães de coração e de alma. Se no passado a celebração era para deusas de mármore e no presente é um motor econômico, a essência literária da data permanece naquilo que é invisível.

A linha do tempo, que começou com mel na Grécia e passou por cravos na Virgínia, termina agora em cada abraço que ignora o relógio. O Dia das Mães é a prova de que, não importa o quanto a tecnologia avance ou as culturas mudem, a humanidade sempre precisará de um dia para voltar ao porto seguro de onde todos partimos. É o reconhecimento de que, por trás de cada vida, houve um ato de entrega e uma canção de ninar que ainda ecoa, silenciosa, no tecido do tempo.

Tem pauta cultural, me conte no e-mail:

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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