A cultura do “homem” por trás do “mito” Tiradentes

Welber Tonhá
Com o despontar do 21 de abril, decidi verter em palavras minhas reflexões sobre Tiradentes, dividindo-as em dois ensaios. Longe de pretender o rigor intelectual dos ilustres Flávio Ramos e Evandro Araújo — cujas pesquisas mergulharam em abissais profundezas —, ouso aqui traçar algumas notas. Meu intuito, todavia, é transcender a hagiografia oficial e buscar a essência humana que o véu do mito costuma ocultar.
Para compreender Joaquim José da Silva Xavier, é preciso descer do patíbulo de mármore e despir o mártir de suas túnicas de herói. O homem que a história oficial congelou em uma estátua de barba longa e olhar piedoso era, na verdade, um turbilhão de humanidade — um camaleão que viveu dez vidas em uma, movido por uma inquietação que nenhuma farda ou consultório conseguiu conter.
O camaleão das minas: o homem de mil ofícios
Muito antes de se tornar o rosto da Inconfidência, Joaquim foi um homem do “fazer”. Sua trajetória é um inventário de sobrevivência e curiosidade técnica, um exemplo da “viração” brasileira em um século XVIII que não dava trégua aos desprovidos de berço nobre.
Antes da fama, Joaquim buscou a sorte no leito dos rios. Como minerador, conheceu a exaustão de peneirar o cascalho no Sertão do Leste. Essa dureza o tornou um tropeiro habilidoso, conduzindo mulas e mercadorias pelas trilhas perigosas da Colônia, aprendendo a ler o tempo, o solo e a geografia como poucos.
Em suas andanças, atuou como mascate, vendendo utilidades. Mas foi como “Alferes da Cavalaria” que sua visão política floresceu. Patrulhando o "Caminho Novo" (a estrada entre Minas e o Rio), ele não apenas protegia o ouro da Coroa, mas documentava a miséria que ficava para trás enquanto a riqueza sangrava para Portugal.
Seu apelido célebre nasceu de uma destreza cirúrgica. Em uma época de medicina precária, Tiradentes era famoso por extrair dentes com precisão e moldar próteses em marfim e osso que devolviam a dignidade aos pacientes. Além disso, era um “prático de farmácia”, profundo conhecedor de ervas medicinais, atuando como um verdadeiro médico popular onde o Estado jamais chegava.
Talvez sua faceta mais brilhante fosse a de projetista. Joaquim tinha uma obsessão pelo progresso técnico: desenhou sistemas de canalização de águas para o Rio de Janeiro, projetou armazéns públicos e moinhos. Ele via o Brasil não como uma colônia extrativista, mas como uma nação que precisava de infraestrutura e engenho
Curiosidades e a humanidade por trás do mito
A imagem do Tiradentes "cristificado" (parecido com Jesus) é uma construção pictórica muito posterior. Na vida real, a figura era bem mais terrena e complexa:
Como militar ativo, Joaquim andava barbeado e de cabelo curto. A barba e os cabelos longos que vemos nos quadros foram fruto dos três anos em que apodreceu na prisão à espera do julgamento, onde a higiene era um luxo inexistente.
Entre os inconfidentes, ele era considerado o mais imprudente. Enquanto os poetas e magistrados conspiravam em sussurros e metáforas, Joaquim pregava a revolução em tabernas e esquinas, movido por uma paixão que beirava a ingenuidade política.
Enquanto a maioria dos conjurados eram latifundiários e intelectuais buscando o perdão de dívidas imensas com a Coroa, Joaquim era o "primo pobre". Ele não buscava apenas alívio fiscal, mas uma mudança estrutural na terra que ele conhecia palmo a palmo.
Além do mártir: uma essência inquieta
Imagine Joaquim em uma estalagem à beira da Estrada Real. Ele não está falando apenas de impostos. Ele está mostrando a um viajante como tratar uma inflamação na gengiva; minutos depois, desenha no chão de terra o traçado de um canal que poderia trazer água para uma vila seca.
Ele era um homem de “movimento”. Seus múltiplos ofícios não eram apenas formas de ganhar a vida, mas ferramentas de observação. Ao arrancar um dente, ele ouvia o lamento do colono; ao projetar canais, percebia que o progresso era sequestrado pela burocracia imperial.
"Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos por mãos à obra."
(Frase que sintetiza seu espírito empreendedor).
Joaquim José não morreu apenas por um ideal político; ele viveu buscando utilidade para suas mãos e soluções para o seu povo. A corda interrompeu o pescoço de um soldado, mas não conseguiu calar a voz do homem que via o futuro onde os outros só viam colônia. Ele foi, acima de tudo, um brasileiro que tentou construir um país com as próprias mãos antes que lhe tirassem a vida.
Na próxima semana falarei sobre Tiradentes e a Estrada Real.
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Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.
Instagram: @welbertonha
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