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Welber Tonhá

A Mulher Brasileira e sua Cultura

Por Bruno
A Mulher Brasileira e sua Cultura

Eu sempre recebo sugestões de pautas dos meus leitores, sempre que posso acato, e neste caso em especial, um leitor de Caraguatatuba, em SP, me sugeriu falar sobre a Mulher Brasileira. Seguindo sua sugestão, resolvi escrever, este leitor é especial, meu pai, o Walter Pezão.

A história da mulher brasileira não é uma linha reta; é uma trama complexa de fios de seda e arame farpado, tecida no tear do tempo com cores que o mundo ainda tenta catalogar. Para entender quem ela é hoje, precisamos mergulhar no silêncio das florestas e no estrondo das caravelas.

A Gênese: O Barro e a Floresta

Antes de o Brasil se chamar "Brasil", ele já era feminino. A mulher indígena era a guardiã da semente e da cura. Sua vivência era o ciclo da lua: ela plantava, colhia e moldava o barro, conferindo alma aos utensílios. Ela não era "descoberta"; ela era a própria terra. Sua cultura era a da coletividade, onde o corpo não era objeto, mas parte integrante da natureza.

Com a chegada do colonizador, essa mulher viu seu mundo ser traduzido para uma língua estranha. A miscigenação, muitas vezes romantizada em nossos livros, nasceu de um processo violento de posse. A "Cunhã" tornou-se a ponte forçada entre dois mundos, dando origem aos primeiros traços do que viria a ser o povo brasileiro.

O Sangue e o Mar: A Força Africana

O horizonte mudou com o balanço dos tumbeiros. Se a mulher indígena era a terra, a mulher africana foi o aço que forjou a resistência do país. Arrancada de reinos como Daomé e Angola, ela trouxe consigo deuses, temperos e uma sabedoria ancestral sobre sobrevivência.

Nas senzalas, ela era o esteio; na Casa Grande, muitas vezes o colo que amamentava o filho do senhor. Mas foi nas ruas que ela mostrou sua faceta empreendedora: as mulheres de ganho foram as primeiras grandes articuladoras econômicas do Brasil urbano, vendendo quitutes para comprar a própria liberdade (alforria) e a de seus filhos. A cultura brasileira — do samba ao candomblé — pulsa no ritmo dessas mãos pretas.

O Império e o Véu: A Redoma de Vidro

Durante o século XIX, enquanto as ruas fervilhavam com a mistura de raças, a mulher de elite vivia à sombra. O patriarcado português impunha o silêncio e o bordado como únicas janelas para o mundo. Contudo, as frestas começaram a se abrir. Mulheres como Nísia Floresta começaram a questionar por que a inteligência feminina era tratada como um acessório desnecessário. A miscigenação avançava, criando uma paleta de peles e cabelos que desafiava as classificações europeias, consolidando uma identidade visual única: a brasileira, múltipla por natureza.

O Século das Vozes: Da Urna ao Asfalto

O século XX foi o palco da grande metamorfose. A mulher brasileira deixou de ser apenas o tema do poema para se tornar a autora.

- Anos 30: o direito ao voto chega com a luta de Berta Lutz.

- Anos 60 e 70: entre o desbunde da Tropicália e o rigor da ditadura, ela queimou sutiãs (metaforicamente) e ocupou as universidades.

- A Estética da Resistência: a imagem da brasileira, por muito tempo hipersexualizada pelo olhar estrangeiro, começou a ser reivindicada por elas mesmas. A beleza deixou de ser um padrão nórdico para celebrar a curva, o cacho e a melanina.

Pluralidade e Desafio

Chegamos aos dias de hoje. A mulher brasileira atual é uma equilibrista de realidades. Ela é a CEO que rompe o teto de vidro e a chefe de família que sustenta a casa com um salário mínimo. É a mulher trans que luta pelo direito de existir e a mulher rural que defende a agroecologia.

Os desafios permanecem imensos:

- A violência doméstica que ainda mancha o mapa do país.

- A dupla (ou tripla) jornada de trabalho.

- O abismo salarial que insiste em separar gêneros e raças.

Mas sua essência é a adaptabilidade. Se o Brasil é o país do futuro, esse futuro tem rosto feminino. A brasileira de hoje é a soma da resiliência indígena, da força africana e da ambição imigrante. Ela não cabe em uma definição; ela é um movimento constante, uma orquestra de cores que, apesar das cicatrizes, nunca perdeu a capacidade de sorrir e de lutar.

Na próxima semana falarei da Mulher Oriental. 

Tem pauta Cultural para sugerir, me manda.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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