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A Odisseia da Máscara: uma cultura na cronologia da folia

Por Bruno
A Odisseia da Máscara: uma cultura na cronologia da folia

O Carnaval não é apenas uma festa; é um organismo vivo que respira a cultura de seu tempo.

Divinópolis viveu o Carnaval de rua com escolas como a do Estrela, liderada pelo saudoso José Alonso, Jorginho Miranda e suas festas, o que nos dá saudades, como os blocos do Nono, o boi Sabino, as festas da Zélia Brandão, o Bloco do Cléo e o Bloco dos Caveiras, além de outros. Hoje, o Pré-Carnaval, organizado pela Prefeitura de Divinópolis, já é referência em Minas Gerais. A história do Carnaval de Divinópolis merece um capítulo à parte.

Hoje vou começar falando do Carnaval e sua origem. Para entendê-lo, precisamos despir as fantasias de hoje e mergulhar no passado, onde o sagrado e o profano dançavam sob o mesmo luar.

Tudo começou como um rito de sobrevivência e gratidão. Na Mesopotâmia, as Saceias permitiam que um prisioneiro assumisse o trono por cinco dias, vivendo como rei antes de seu destino fatal — uma subversão radical da ordem. No Egito, celebrava-se a deusa Ísis e as cheias do Nilo.

Na Grécia Antiga, o Carnaval encontrou sua alma nas Dionisíacas. Era o culto ao vinho, ao teatro e ao excesso, onde a individualidade se perdia no coletivo. Já em Roma, as Saturnais e Lupercais estabeleciam o "mundo ao avesso": escravos eram servidos por senhores, e as ruas se tornavam palcos de libertação sensorial.

Com a ascensão do Cristianismo, a Igreja tentou conter os ímpetos pagãos. Não conseguindo extirpá-los, domesticou-os. O termo Carnevale (do latim carne vale, ou "adeus à carne") surgiu para marcar o último grito de liberdade antes dos 40 dias de privação da Quaresma.

Na Europa, a festa ganhou contornos regionais:

- Veneza: O luxo das máscaras de porcelana permitia que nobres e plebeus se misturassem sem julgamentos.

- França e Nice: Desfiles de carros alegóricos e batalhas de flores começavam a desenhar o espetáculo visual que conhecemos.

O Carnaval chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses sob a forma do Entrudo. Era uma brincadeira bruta: limões de cheiro e baldes de água suja eram lançados nos transeuntes. A elite, chocada com a "barbárie", buscou europeizar a festa no século XIX, trazendo os Bailes de Máscaras e os Corsos (desfiles de carros abertos).

No final do século XIX, a identidade brasileira floresceu. Chiquinha Gonzaga compôs "Ó Abre Alas" em 1899, inaugurando a era das marchinhas — letras satíricas e ritmos binários que davam voz ao povo.

Enquanto o Rio de Janeiro via o nascimento da primeira Escola de Samba (a Deixa Falar, em 1928), o resto do Brasil criava suas próprias batidas:

- Rio de Janeiro: As escolas transformaram-se em óperas populares, com enredos complexos e o surdo de marcação ditando o coração da cidade.

- Pernambuco: O Frevo e o Maracatu mantiveram a chama da resistência negra e indígena, com sombrinhas coloridas cortando o ar de Olinda e Recife.

- Bahia: Nos anos 50, Dodô e Osmar eletrificaram a folia com o Trio Elétrico, que culminaria no movimento Axé nos anos 80, transformando as ruas de Salvador em um mar de gente atrás do caminhão.

Hoje, o Carnaval é um caleidoscópio. Se, por um lado, temos os Sambódromos como templos de alta tecnologia e turismo bilionário, por outro, assistimos ao renascimento fenomenal dos Blocos de Rua.

O Carnaval de 2026 reflete uma sociedade que busca a ocupação do espaço público. Em São Paulo, o asfalto é tomado por milhões; em Belo Horizonte, a festa se politiza e se reinventa. A tecnologia agora permite que o Carnaval seja global, mas a essência permanece a mesma de seis mil anos atrás: o desejo humano de suspender a realidade, vestir uma máscara e, por alguns dias, ser exatamente quem se deseja ser.

O Carnaval prova que, embora as sociedades mudem e as fronteiras se movam, a necessidade de celebrar a vida antes do silêncio é uma constante universal.

Gostar de Carnaval é uma opção; reconhecer sua importância cultural é obrigação.

Tem pauta cultural para sugerir? Me manda.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça, em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural

Instagram: @welbertonha

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