A cultura da mulher no mundo

Welber Tonhá e Silva
Neste mês de março, em uma forma de homenagear as mulheres, escreverei sobre 5 mulheres. Uma em cada semana. Inicio falando da Mulher Árabe.
Véu do Tempo: A Saga das Filhas das Areias e das Montanhas
Sob o sol implacável que doura as dunas do Magrebe e as cristas do Zagros, caminha uma figura tecida em seda e resistência. Falar da mulher no mundo árabe e na Pérsia (o Irã) não é narrar uma única vida, mas desvelar um mosaico de identidades que, embora distintas por etnia e língua, partilham a mesma herança de força e o mesmo peso de séculos de transformações.
A Aurora das Matriarcas e Rainhas (Antiguidade)
Nos tempos em que a escrita ainda era um segredo das pedras, a mulher dessas terras não era uma sombra, mas um pilar. Na Península Arábica pré-islâmica, embora o deserto fosse severo, existiam figuras como Khadija, a mercadora bem-sucedida que comandava caravanas, e rainhas como Zebúnia (Zenóbia) de Palmira, que desafiou o Império Romano com o brilho de sua espada e inteligência.
Na Pérsia, sob o esplendor de Persépolis, as mulheres aquemênidas possuíam propriedades, viajavam e ocupavam cargos administrativos. Não eram apenas acompanhantes da realeza; eram administradoras da terra e da fé. A cultura era um tecido vibrante onde o feminino não estava escondido, mas integrado à cosmologia do poder e do sagrado.
A Revelação e a Idade de Ouro (Séculos VII - XIII)
Com o advento do Islã, o cenário se transformou. O Alcorão trouxe direitos inéditos para a época: a herança, o direito ao divórcio e o fim do infanticídio feminino. Na vibrante Bagdá e na sofisticada Isfahan, a mulher tornou-se guardiã do saber. Fatima al-Fihri fundou, no Marrocos, a universidade mais antiga do mundo ainda em funcionamento.
Nesta era, a vivência feminina era marcada por uma dualidade: enquanto a esfera pública começava a se fechar em estruturas mais patriarcais, o intelecto florescia. Poetisas árabes e místicas sufis, como Rabia al-Adawiyya, moldavam a espiritualidade da região, provando que o acesso ao divino não tinha gênero. No Irã, a língua persa tornava-se o veículo de uma sensibilidade refinada, onde a mulher era musa e, por vezes, a voz por trás dos versos.
O Eclipse e o Despertar (Séculos XVIII - Início do XX)
Os séculos de dominação otomana e a posterior pressão colonial europeia trouxeram um período de estagnação e, paradoxalmente, de resistência. A mulher tornou-se o “símbolo da honra” e, muitas vezes, foi confinada ao espaço doméstico como forma de proteger a identidade cultural contra o invasor.
Contudo, o início do século XX viu o surgimento das primeiras feministas árabes e iranianas. No Egito, Huda Sha'arawi retirou seu véu em público em 1923, um gesto que ecoou por todo o Levante. No Irã, a Revolução Constitucional de 1906 já contava com a voz ativa de mulheres que exigiam educação e o fim do isolamento. Elas escreviam jornais clandestinos, fundavam escolas para meninas e entendiam que a libertação da nação passava, obrigatoriamente, pela libertação feminina.
A Modernidade em Disputa (Meados do Século XX - Presente)
A história recente é um mar de contrastes. Entre as décadas de 1950 e 1970, cidades como Beirute, Cairo e Teerã viviam uma ocidentalização acelerada: minissaias e diplomas universitários conviviam em harmonia. No Irã, a mulher ganhou o direito ao voto e cargos no parlamento sob o regime Pahlavi.
Entretanto, as reviravoltas políticas trouxeram novos desafios. A Revolução Islâmica de 1979 no Irã e a ascensão de movimentos conservadores em países árabes redefiniram o papel da mulher através da imposição de códigos de vestimenta e leis de status pessoal mais rígidas. Mas a vivência dessas mulheres não é de submissão passiva.
Hoje, a mulher árabe e a iraniana são as protagonistas das maiores transformações sociais. No Irã, o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" mostrou ao mundo que a resistência é geracional e inabalável. Na Arábia Saudita, mulheres conquistaram o direito de dirigir e viajar de forma independente. No Golfo, elas lideram ministérios e missões espaciais.
Características e Desafios
O que une a mulher do Magrebe à mulher da Mesopotâmia e aos planaltos persas é uma resiliência forjada no fogo. Seus desafios são monumentais: lutar contra sistemas legais desiguais, enfrentar o assédio e equilibrar a tradição familiar com a ambição profissional.
Suas culturas são ricas em nuances. A hospitalidade árabe, o refinamento da etiqueta persa (Taarof) e a importância da família são fios condutores. Elas são cientistas, cineastas, mães e revolucionárias que, independentemente de usarem o hijab, o chador ou trajes ocidentais, reivindicam o direito de narrar sua própria história.
A mulher dessas terras não pede permissão para existir; ela ocupa o espaço que sempre foi seu por direito ancestral. Da rainha de outrora à estudante que protesta hoje nas ruas de Teerã ou Beirute, a trajetória é uma só: a busca pela autonomia em um mundo que tenta, incessantemente, defini-las.
Na próxima semana falarei da Mulher Africana.
Tem pauta Cultural para sugerir, me manda.
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.
Instagram: @welbertonha
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
