Tiradentes e a Estrada Real

Welber Tonhá
Em continuidade ao tem comemorativo a Tiradentes, falarei sobre a relação entre ele e a Estrada Real.
A poeira da Estrada Real não era apenas um resíduo nos sapatos de Joaquim José; era a própria tinta com que ele escrevia sua história. Enquanto os outros inconfidentes debatiam a liberdade entre as paredes de pedra e as rimas ricas de Vila Rica, o Alferes a sentia no solavanco das mulas, no cheiro do suor e no peso da farda de couro sob o sol implacável das Alterosas.
Sua rotina não conhecia a estática dos gabinetes. O dia de Joaquim começava antes mesmo que o sol vencesse o nevoeiro pesado que abraçava os picos de Ouro Preto. Como Alferes da Cavalaria, sua vida era o movimento pendular entre a opulência decadente das minas e o porto do Rio de Janeiro. O som que o despertava era o tilintar rítmico dos freios e o bater de cascos contra o cascalho úmido do Caminho Novo.
O itinerário da inquietação
Ao deixar as ladeiras de Vila Rica, Joaquim carregava consigo mais do que ordens militares; levava ferramentas de dentista, ervas de boticário e uma mente que não parava de projetar.
São João e São José del-Rei: Ao passar pelas terras de sua infância — a atual cidade de Tiradentes e a vizinha São João del-Rei — ele não era apenas o militar, mas o filho da terra que via a decadência do ouro. Ali, em conversas de beira de estrada, ele começava a testar a recepção de suas ideias libertárias entre os pequenos mineradores e comerciantes que, como ele, sentiam o arrocho da Coroa.
A parada em Barbacena
Subindo a Serra da Mantiqueira, Barbacena era um ponto nevrálgico. Nas fazendas da região, como a de Registro Velho, Joaquim encontrava seus pares aristocratas. Mas, enquanto eles discutiam leis e perdão de dívidas, Joaquim estava no pátio, examinando os dentes de um tropeiro ou desenhando no chão de terra o traçado de um novo moinho que poderia otimizar a produção local.
A descida da Mantiqueira e a borda do campo
Na região da atual Juiz de Fora, sua rotina atingia o ápice da "viração". O Alferes tornava-se o mascate de esperança. Nas tavernas enfumaçadas, entre um trago de cachaça para espantar o frio da serra e um prato de feijão com toucinho, sua voz ecoava. Ele falava de impostos abusivos enquanto extraía um dente inflamado com precisão cirúrgica, usando instrumentos que ele mesmo aprimorava. Para Joaquim, curar o corpo do povo e curar a política do país eram missões indissociáveis.
O engenheiro do futuro no caminho do mar
Conforme a estrada serpenteava em direção ao litoral, passando por Petrópolis e descendo a serra em direção à Baixada, a mente de Joaquim se voltava para a engenharia. Ele olhava para as quedas d'água e não via apenas paisagem; via energia e infraestrutura.
No Rio de Janeiro, sua rotina mudava de cenário, mas não de intensidade. Ele apresentava ao Vice-Rei projetos audaciosos: sistemas de canalização de águas para acabar com as epidemias da capital e a construção de armazéns públicos. Joaquim via o Brasil como um canteiro de obras paralisado. Sua frustração crescia a cada negativa burocrática, alimentando o fogo da revolta que ele transportava de volta para as Minas em cada subida de serra.
A essência de um homem da estrada
A Estrada Real foi a grande sala de aula de Tiradentes. Nela, ele foi:
O Tropeiro, que aprendeu a ler o tempo e a geografia.
O Boticário, que manipulava unguentos com ervas colhidas no acostamento.
O Alferes, que protegia o ouro, mas lamentava seu destino além-mar.
O Mascate, que, em vez de sedas, vendia a ideia de uma República.
Para Tiradentes, a estrada não era apenas uma rota comercial; era o mapa da injustiça brasileira. Cada curva revelava a contradição: o brilho do ouro que passava em direção ao porto e a opacidade da pobreza que se fixava nas vilas.
"Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos por mãos à obra."
Joaquim José não morreu por ser um soldado insubordinado, mas por ser um cidadão excessivamente atento à vida que pulsava entre as pedras do caminho. No fim, a estrada que ele tanto percorreu foi a mesma que o levou ao martírio no Rio de Janeiro, mas sua memória permanece viva em cada marco da Estrada Real — não como um santo de gesso, mas como o homem inquieto que tentou construir um país com a força das próprias mãos.
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Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.
Instagram: @welbertonha
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