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Welber Tonhá

A cultura das festas juninas

Por Bruno
A cultura das festas juninas

Na última coluna, eu falei sobre a quermesse e sua origem, muitos leitores me pediram para contar sobre as festas juninas, sendo assim, vamos lá. 

Nas noites frias de junho, quando o vento sussurra entre os galhos e o céu se salpica de estrelas, o chão do Brasil se aquece. Brota da terra um som ritmado — o sopro da sanfona, o estalar da lenha, o arrastar de chinelos na poeira. A Festa Junina não é apenas uma data no calendário; é um rito vivo, uma tapeçaria tecida com fios de memória, fogueiras e fados antigos.

Para compreender a alma dessa festividade, é preciso viajar no tempo e no espaço, seguindo o rastro das faíscas que cruzaram oceanos.

A história das festas juninas remonta a um passado esquecido, muito antes de se chamar “junina” ou de cruzar o Atlântico. Ela nasce do ritmo da própria Terra.

A noite do solstício - Antiguidade Remota

No hemisfério norte, os povos pagãos celebravam o solstício de verão— o dia mais longo do ano. Acendiam-se fogueiras para agradecer a fertilidade da terra, pedir boas colheitas e espantar os espíritos da escassez. Era o culto ao sol, à vida que brota do solo.

A cristianização da fogueira - Idade Média

Com a expansão do Cristianismo na Europa, a Igreja incorporou os antigos ritos sazonais ao seu calendário devocional. O fogo do solstício passou a iluminar o nascimento de São João Batista (24 de junho), ladeado depois por Santo Antônio (13 de junho), o casamenteiro, e São Pedro (29 de junho), o chaveiro do céu. A festa tornou-se “joanina”.

A viagem transatlântica -  século XVII

Os colonizadores portugueses trouxeram a tradição na bagagem. Ao desembarcarem no Brasil, a celebração encontrou uma nova terra, um novo clima (o inverno do hemisfério sul) e um novo significado. O encontro cultural com os povos indígenas e, mais tarde, com os africanos, transformou a herança europeia em algo inteiramente novo.

O florescer nordestino - século XIX e XX

A festa fincou raízes profundas no coração do Nordeste brasileiro. Coincidindo com a época da colheita do milho, a celebração ganhou o sabor da pamonha e do canjica, a batida do baião e do xote, transformando-se no maior espetáculo da cultura popular do país.

O altar dos símbolos: significados ocultos na linha do Horizonte

Cada elemento que compõe o cenário junino é um símbolo carregado de história e afeto. Nada está ali por acaso; tudo dialoga com o sagrado e o profano.

O fogo e os santos

A fogueira é o coração da festa. Diz a tradição cristã que Isabel acendeu uma pira no topo de uma montanha para avisar Maria sobre o nascimento de seu filho, João. Mas, além do mito, o fogo é o ponto de encontro. Ele aquece o corpo na noite fria e purifica a alma. Cada santo tem o seu corte de lenha: a fogueira de São João é redonda; a de Santo Antônio, quadrada; e a de São Pedro, triangular.

A quadrilha e a chita

O que hoje dançamos com poeira no pé nasceu nos palácios da aristocracia francesa. A quadrille era uma dança de salão elegante que a corte portuguesa trouxe para o Brasil. O povo, com sua genialidade irreverente, apropriou-se dos passos nobres, transformou os comandos franceses em sussurros aportuguesados (em avant virou “anarriê”, changez virou “changê”) e vestiu a dança com a chita, o tecido barato, colorido e vibrante que veste a identidade sertaneja.

O casamento caipira

Uma sátira teatral cheia de humor, onde o amor vence a marra do pai da noiva e a autoridade do delegado. É a celebração da comunidade, da fertilidade e da união dos laços sociais, onde o riso é o principal convidado.

O milho

O mês de junho é o tempo de colher o que foi plantado no dia de São José (19 de março). O milho é o ouro da terra. Dele se faz o bolo, a canjica, a pamonha e o curau. Comer o milho é comungar com a generosidade da natureza, um banquete de gratidão pela subsistência.

”A Festa Junina é o momento em que o Brasil rural e o urbano se abraçam sob o mesmo teto de bandeirolas coloridas. Elas cortam o céu como pedaços de sonhos suspensos, lembrando-nos de que, enquanto houver uma fogueira acessa, haverá calor contra a solidão do inverno.”

Quando a sanfona silencia e a última brasa se apaga, fica nas roupas o cheiro de fumaça e na boca o gosto doce do quentão. A tradição junina permanece viva porque não pertence ao passado—ela se renova a cada ano, no peito de quem sabe que festejar é, antes de tudo, uma forma de resistir e amar.

Tem pauta sobre cultura? Me envie.

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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