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Welber Tonhá

A cultura das Copas do Mundo de Futebol parte 2

Por Bruno
A cultura das Copas do Mundo de Futebol parte 2

A Taça e o Tempo

Capítulo II – Deuses, Heróis e Tragédias (1974–2002)

A Taça do Mundo jamais permanece muito tempo nas mesmas mãos. Ela viaja, atravessa fronteiras, escapa dos vencedores, escolhe novos heróis.

Quando o sol se pôs sobre o Estádio Azteca, em 1970, parecia que o futebol havia alcançado sua forma perfeita. O Brasil de Pelé encantara o planeta com uma exibição tão sublime que muitos acreditavam estar diante de algo irrepetível.

Mas a história das Copas nunca se satisfaz com a perfeição, ela prefere a transformação. Enquanto a seleção brasileira celebrava o tricampeonato, um novo capítulo começava a ser escrito em silêncio, na Holanda, na Alemanha, na Argentina, em campos onde jovens sonhadores imaginavam um futuro impossível. O mundo estava mudando, e o futebol mudaria com ele.

Em 1974, a Copa chegou à Alemanha Ocidental, a Europa vivia tempos de modernização, o futebol também, foi naquele torneio que o planeta conheceu plenamente uma ideia revolucionária. Ela tinha rosto, tinha nome, e tinha cabelos longos, chamava-se Johan Cruyff. Cruyff não parecia um jogador comum, corria como um meia, criava como um camisa 10, finalizava como um atacante, defendia como um volante, parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Sob sua liderança, a Holanda apresentou ao mundo o chamado Futebol Total. Os jogadores trocavam constantemente de posição, o campo tornava-se um tabuleiro vivo, o adversário não sabia quem marcar, nem de onde viria o próximo ataque, a Holanda encantou o planeta.

Nas ruas, nos jornais e nos cafés, falava-se daquele futebol quase artístico, parecia destino, parecia inevitável, parecia que a Copa já tinha dono, mas a história das Copas gosta de ironias. Na final, a Alemanha Ocidental enfrentou os holandeses diante de sua torcida, a Holanda marcou antes mesmo de um alemão tocar na bola, o mundo acreditou que testemunharia uma coroação, mas os alemães tinham outros planos, com disciplina e determinação, viraram o placar, venceram por 2 a 1. Cruyff perdeu a taça, mas conquistou algo diferente, a eternidade.

Quatro anos depois, a Copa desembarcou na Argentina, o país vivia tempos turbulentos, mas dentro dos estádios o futebol transformava-se em esperança, a seleção argentina carregava o peso das expectativas de milhões, entre seus jogadores havia um jovem de cabelos encaracolados chamado Mario Kempes, ele se transformaria no grande herói nacional. A Argentina avançou, venceu, convenceu, e chegou à final, o adversário era a Holanda, outra vez a Holanda, outra vez próxima da glória, o jogo foi dramático, os holandeses acertaram a trave nos minutos finais, a bola recusou-se a entrar. Na prorrogação, Kempes decidiu, a Argentina venceu por 3 a 1. Pela primeira vez, os argentinos eram campeões do mundo, as ruas de Buenos Aires transformaram-se num mar azul e branco, o país inteiro cantava, a taça tinha um novo lar.

Em 1982, a Copa foi realizada na Espanha, a Itália chegou desacreditada, problemas internos cercavam a equipe, a crítica era severa, a confiança parecia pequena, mas havia um atacante chamado Paolo Rossi. Durante a fase inicial, Rossi não marcou um único gol, parecia perdido, então algo mudou, contra o Brasil, marcou três vezes, contra a Polônia, marcou duas, na final, contra a Alemanha Ocidental, marcou novamente, seis gols em três partidas decisivas, uma das maiores reviravoltas individuais da história. A Itália conquistava seu terceiro título mundial, e Rossi tornava-se uma lenda.

Enquanto a Itália celebrava, um homem preparava seu encontro com a história, seu nome era Diego Armando Maradona, nascido em Villa Fiorito, um bairro pobre de Buenos Aires, Diego crescera acreditando que a bola poderia mudar destinos, e mudou. Em 1986, no México, chegou o seu momento, o torneio parecia ter sido criado para ele, Maradona driblava como ninguém, pensava mais rápido que os adversários, via espaços invisíveis, na semifinal eliminou a Bélgica praticamente sozinho, mas foi nas quartas de final contra a Inglaterra que nasceu a lenda. A partida carregava tensões políticas decorrentes da Guerra das Malvinas, o mundo observava, então vieram dois gols. O primeiro foi marcado com a mão, Maradona diria depois que foi "um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus". Quatro minutos depois, aconteceu algo ainda mais extraordinário, Diego recebeu a bola em seu campo, driblou um, dois, três, quatro, cinco, o goleiro, Gol. 

Aquele lance seria eternizado como o Gol do Século. Na final, a Argentina derrotou a Alemanha Ocidental, Maradona levantou a taça, e tornou-se um deus para milhões.

Em 1990, a Copa retornou à Itália, Maradona voltou, a Argentina voltou, a Alemanha também, os alemães carregavam a lembrança amarga da derrota de 1986, chegaram determinados, a final repetiu o confronto anterior, mas desta vez a história mudou de lado, um pênalti convertido por Andreas Brehme deu a vitória à Alemanha, a seleção alemã conquistava seu terceiro título mundial. Enquanto isso, o muro de Berlim havia acabado de cair, poucos meses depois, a Alemanha seria reunificada, aquele título parecia simbolizar muito mais que futebol.

Em 1994, os Estados Unidos receberam a Copa, muitos duvidavam do sucesso do torneio em um país apaixonado por outros esportes, mas o público respondeu, os estádios lotaram, a competição tornou-se um fenômeno. O Brasil chegava pressionado, já eram vinte e quatro anos sem título, uma eternidade para os padrões brasileiros, a equipe era liderada por Romário e Bebeto, a dupla encantava, a seleção avançou, sofreu, lutou, chegou à final. Do outro lado estava a Itália de Roberto Baggio, pela primeira vez na história, uma final terminou sem gols, tudo seria decidido nos pênaltis, milhões prenderam a respiração, então veio a cobrança mais famosa de todas, Baggio chutou por cima do travessão, o Brasil era tetracampeão, o país inteiro explodiu em alegria.

Em 1998, a França recebeu a Copa, o mundo esperava o Brasil, Ronaldo Fenômeno era o melhor jogador do planeta, imparável, goleador, genial, mas algo estranho aconteceu horas antes da final, Ronaldo sofreu uma convulsão. O episódio permanece cercado de dúvidas até hoje, ele jogou, mas não parecia o mesmo, a França aproveitou. Liderada por Zinedine Zidane, venceu por 3 a 0, pela primeira vez os franceses eram campeões mundiais, uma nação inteira celebrou, Zidane tornava-se herói nacional.

O futebol, porém, gosta de conceder segundas chances, após a derrota de 1998, Ronaldo enfrentou lesões devastadoras, muitos acreditaram que jamais voltaria ao alto nível, mas os grandes campeões possuem uma qualidade rara, eles se recusam a desistir, em 2002, a Copa do Mundo chegou à Coreia do Sul e ao Japão, era a primeira edição realizada na Ásia, também era a primeira organizada por dois países, o Brasil chegou desacreditado, mas possuía três talentos extraordinários, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, o famoso "Trio R", a seleção avançou de forma impecável, venceu todos os jogos, nas quartas de final, Ronaldinho eliminou a Inglaterra com um dos gols mais surpreendentes da história. Na final, o adversário era a Alemanha, a partida estava equilibrada, então Ronaldo apareceu, marcou uma vez, depois outra, o Brasil venceu por 2 a 0, pentacampeão, unico país do mundo a alcançar cinco títulos.

Enquanto segurava a taça, Ronaldo sorria, era mais que uma vitória, era uma redenção, o menino que havia chorado em 1998 agora era o herói absoluto do futebol mundial.

Quando as luzes do Estádio Internacional de Yokohama começaram a se apagar, uma nova geração observava. Na Argentina, um garoto chamado Lionel Messi sonhava em vestir a camisa azul e branca, em Portugal, um adolescente chamado Cristiano Ronaldo começava a chamar atenção, na França, um menino ainda desconhecido chamado Kylian Mbappé dava seus primeiros passos, a Taça do Mundo continuava sua jornada.

Novos reis estavam chegando.

E a história ainda guardava algumas de suas páginas mais dramáticas.

Fim do Capítulo II.

Continua no Capítulo III – O Futebol Global (2006–2026).

welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, Escritor, Pesquisador, Fotógrafo e Fazedor Cultural.

Instagram: @welbertonha

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