A cultura Antes da urna, ainda há tempo para a política

Welber Tonhá
Chegamos à última semana antes das eleições gerais de 2026. No próximo domingo, 4, o Brasil volta às urnas para escolher presidente, governador, senadores, deputados federais e estaduais. Há algo de solene nesse gesto aparentemente simples: entrar numa seção, caminhar até a urna, digitar alguns números e confirmar escolhas que ajudarão a desenhar os próximos anos. Talvez a pressa tenha nos feito esquecer, mas votar nunca foi apenas apertar teclas. Votar é participar da escrita da história.
Em Divinópolis, esta eleição tem um significado especial. A cidade chega ao pleito com nomes ligados ao município disputando o Governo de Minas, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa. Há uma expectativa evidente de ampliar nossa representação política e de ver Divinópolis ocupar espaços importantes em Minas e em Brasília. Mais do que contar quantos nomes sairão eleitos, porém, deveríamos perguntar o que esperamos deles. A representação só ganha sentido quando se transforma em compromisso, presença e resultado.
No cenário nacional, a polarização presidencial está diante de todos nós. Ela aparece nas redes sociais, nas conversas de família, nos grupos de mensagens e na propaganda eleitoral. Pensar diferente não é o problema; a democracia existe justamente porque ideias distintas podem conviver e disputar legitimidade pelo voto. O problema começa quando o adversário vira inimigo e quando a proposta desaparece para dar lugar ao ataque.
É isso que espero não ver nesta reta final: campanhas descendo o nível justamente quando deveriam mostrar maturidade. O eleitor não precisa de gritos; precisa de respostas. Não precisa saber apenas por que um candidato considera o outro ruim. Precisa entender o que cada um pretende fazer pela saúde, educação, segurança, emprego, cultura, infraestrutura, desenvolvimento e tantas outras questões que atravessam a vida real.
Tenho especial incômodo com a quantidade de fake news que circula durante as eleições. A mentira ganhou velocidade. Uma montagem, uma frase fora de contexto ou um vídeo recortado atravessam centenas de grupos em poucos minutos. E talvez o mais triste seja perceber que, muitas vezes, a informação falsa é compartilhada não porque alguém acredita nela, mas porque ela atinge aquele de quem não gosta. Nesse instante, a verdade perde espaço para a torcida.
A política, entretanto, não deveria funcionar como arquibancada. No futebol, posso vestir minha camisa, cantar mais alto e desejar a vitória do meu time. Na democracia, quem vence governa também para quem não votou nele. Por isso, respeito e verdade não podem ser acessórios de campanha.
Às vezes, imagino como seria o horário eleitoral no rádio e na televisão se cada candidato tivesse de usar seu tempo apenas para falar de seus próprios projetos, metas e soluções, sem transformar o espaço em vitrine permanente de ataques ao adversário. Talvez assim pudéssemos comparar melhor as propostas e conhecer com mais clareza aquilo que cada candidatura pretende entregar. Eu preferiria ouvir caminhos para o futuro a assistir a intermináveis disputas sobre quem consegue destruir melhor a imagem do outro.
E, quando vejo a superficialidade de parte das campanhas, lembro-me da longa caminhada que fizemos para conquistar o direito ao voto. A história eleitoral brasileira não começou com participação ampla. Durante muito tempo, parcelas inteiras da população ficaram afastadas das decisões. As mulheres conquistaram o direito ao voto em 1932; as pessoas analfabetas recuperaram esse direito em 1985; e a Constituição de 1988 consolidou o sufrágio universal e o voto direto e secreto. Também atravessamos períodos autoritários em que a participação política foi profundamente limitada.
Nada disso aconteceu por acaso. Os direitos políticos foram construídos ao longo de gerações. É por isso que não consigo enxergar o voto como mera obrigação burocrática de domingo. Aquilo que hoje cabe em poucos segundos diante de uma urna representa uma conquista histórica.
No próximo domingo, cada eleitor terá alguns instantes de silêncio diante da tela. Não haverá ali postagem, vídeo, discussão de grupo ou locutor de campanha. Haverá apenas a consciência de cada um e a liberdade de escolher. Eu não espero que todos pensem como eu — democracia nunca foi isso. Espero apenas que possamos discordar sem transformar diferenças em ódio e escolhas em rompimentos.
Nesta última semana, gostaria de ver menos ataques e mais ideias; menos boatos e mais fatos; menos acusações e mais propostas. Candidatos passam, mandatos terminam e eleições acabam. O que permanece são as consequências das escolhas feitas.
Antes de apertarmos o botão verde, talvez valha lembrar quantas pessoas atravessaram a história sonhando com o direito que hoje temos nas mãos. A democracia não exige que votemos iguais. Exige apenas que respeitemos o direito de cada um escolher diferente — e que tratemos o voto com a seriedade que ele merece.
Welber Tonhá
Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.
Instagram: @welbertonha
Leia também
Mais recentes
Do nosso arquivo
Veja tudo o que publicamos em setembro de 2026
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…









