Onde a saudade acende sua luz

Há um silêncio que nenhuma palavra consegue preencher: aquele que fica depois da última despedida. A casa permanece no mesmo lugar, a manhã atravessa a janela, o café continua espalhando seu cheiro pelos cômodos, mas falta alguém. Uma voz, um passo no corredor, uma maneira de chamar nosso nome. A morte interrompe a existência e modifica a vida de quem permanece, deixando nas coisas mais simples uma ausência que, por vezes, parece ocupar a casa inteira.
Muito antes das cidades, dos livros e dos sinos, nossos antepassados já cuidavam de seus mortos. Sepultamentos encontrados em Qafzeh, no atual território de Israel, têm cerca de cem mil anos. Não sabemos exatamente quais sentimentos acompanhavam aqueles gestos, nem que explicações davam ao mistério. Podemos, porém, imaginar o peso de recolher um corpo conhecido e lhe reservar um lugar na terra. Naquele cuidado remoto, reconheço algo que ainda nos aproxima: a dificuldade de abandonar quem fez parte de nós.
No Egito Antigo, a preparação dos corpos e os objetos depositados nos túmulos estavam ligados à crença em uma vida após a morte. A eternidade recebia os cuidados das mãos humanas. Entre amuletos, inscrições e oferendas, preparava-se a continuidade da existência. Penso na delicadeza desse desejo de oferecer proteção a quem já não podia pedi-la, como fazemos quando ajeitamos uma roupa, aproximamos uma flor ou tocamos, pela última vez, o rosto de alguém amado.
Entre os antigos gregos, o cuidado com o corpo, o lamento e os ritos funerários também davam forma à despedida. Os monumentos guardavam nomes e imagens, oferecendo à memória um lugar entre os vivos. Ao olhar essas marcas do passado, percebo quanto uma inscrição numa pedra pode carregar: uma vida inteira reduzida a poucas palavras, enquanto aqueles que a conheceram conservavam histórias que jamais caberiam ali.
Ao longo dos séculos, crenças e costumes ofereceram caminhos diferentes para atravessar a perda. Na tradição cristã, a esperança da ressurreição acompanha as orações pelos mortos e consola muitas famílias. Para outras pessoas, o amparo está na continuidade da natureza, no legado de uma existência ou na lembrança compartilhada. Nenhuma dessas maneiras de sentir cabe inteiramente numa explicação. Há quem encontre paz numa igreja e quem a encontre diante de uma árvore, recordando uma conversa antiga.
Em comunidades indígenas do México, o Dia dos Mortos celebra o retorno temporário dos entes queridos, conforme suas tradições. Flores, velas e alimentos participam desse encontro entre os vivos e aqueles que partiram. A memória ganha cor, cheiro e sabor. Imagino a força de preparar uma comida para recordar alguém: as mãos repetindo uma receita enquanto o coração reconhece, no tempero, uma presença. Também por aqui um prato servido à mesa pode nos devolver uma tarde inteira da infância.
Entre nós, o Dia de Finados reúne flores, visitas, preces e silêncios. Cada pessoa leva consigo uma história que os demais desconhecem. Diante de um túmulo, alguém agradece; outra pessoa pede perdão; outra apenas fica, porque ainda não encontrou palavras. E há aqueles que fazem sua visita por dentro, longe dos cemitérios, diante de uma fotografia ou de um objeto que perderia o valor nas mãos de qualquer outra pessoa.
Hoje também guardamos vozes em áudios, sorrisos em vídeos e conversas que os dedos hesitam em apagar. A tecnologia acrescentou novos lugares à saudade. Basta apertar uma pequena seta para ouvir novamente quem já não atende ao telefone. É um consolo delicado e doloroso: por alguns segundos, a voz volta à sala, com sua entonação conhecida, e precisamos aprender outra vez a conviver com o silêncio que vem depois.
Eu penso na minha mãe, Dona Binha, e entendo que a história humana da morte passa também pela intimidade de um filho. Todo conhecimento se torna pequeno diante da vontade de ouvir mais uma vez um conselho, contar uma novidade, receber um abraço. A saudade me visita assim, no meio da vida, quando alguma coisa bonita acontece e nasce o impulso de compartilhar com ela. Então me demoro na lembrança, tentando alcançar o calor daquele tempo.
Talvez os ritos nos ajudem justamente a dar destino a esse amor que continua procurando alguém. Acendemos uma vela, conservamos uma receita, contamos aos mais novos uma história antiga. E, enquanto a contamos, o rosto lembrado parece ganhar movimento. Quem escuta passa a conhecer um pouco de quem partiu.
Desde os sepultamentos mais antigos até a fotografia que hoje seguramos nas mãos, seguimos procurando maneiras de cuidar dos nossos mortos e de acolher os vivos que sentem sua falta. Eu os reconheço nos gestos que herdei, nas palavras que ainda repito, no carinho que aprendi a oferecer. E há dias em que, ao preparar o café, deixo a lembrança se sentar comigo, sem pressa de terminar a conversa.
Welber Tonhá
Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça, em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.
Instagram: @welbertonha
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