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Welber Tonhá

Dia do poeta: a palavra que não cabe no silêncio

Por Welber Tonhá · Colunista· 4 min de leitura
Dia do poeta: a palavra que não cabe no silêncio

A poesia nasceu muito antes de caber nas páginas de um livro. Veio da voz dos povos, dos cantos que atravessavam gerações e da vontade de dar forma ao que o coração sente antes da razão. Talvez por isso o poeta seja um artesão do invisível: recolhe as miudezas da existência e as devolve ao mundo com outra luz. No Brasil, celebramos o Dia do Poeta nesta terça-feira, 20, lembrança da fundação do Movimento Poético Nacional, em 1976, na casa de Menotti Del Picchia, em São Paulo. Essa tradição é distinta do Dia Nacional da Poesia, instituído por lei em 31 de outubro, aniversário de Carlos Drummond de Andrade. Duas datas para uma arte que não conhece calendário.

Nossa poesia percorreu séculos como um rio que jamais abandona suas nascentes. No período colonial, Gregório de Matos fez do verso instrumento de sátira e crítica. O romantismo encontrou em Gonçalves Dias o sentimento da terra e da saudade, enquanto Castro Alves ergueu sua voz contra a escravidão. Olavo Bilac lapidou a musicalidade da palavra; mais tarde, o modernismo, impulsionado por Mário e Oswald de Andrade, abriu janelas para a fala cotidiana entrar sem pedir licença. Manuel Bandeira deu dignidade poética às fragilidades humanas, Cecília Meireles encontrou profundidade no passageiro, e Drummond mostrou que até uma pedra no caminho pode permanecer para sempre na memória de um povo.

Depois vieram, cada qual com sua voz, João Cabral de Melo Neto, com o rigor de sua construção, Vinicius de Moraes, aproximando o verso da canção, Cora Coralina, transformando a simplicidade em sabedoria, e Ferreira Gullar, atento às inquietações de seu tempo. Essa história continua nas bibliotecas, nos saraus, nas escolas, nas cozinhas e nos cadernos de quem escreve sem saber se um dia será lido. O poeta não precisa morar numa torre; frequentemente está ao nosso lado, escutando aquilo que a pressa dos outros não percebe.

E tenho o privilégio de viver numa cidade que ofereceu ao Brasil uma das vozes mais singulares de sua literatura: Adélia Prado. Nascida em Divinópolis, ela mostrou que o sagrado pode habitar uma panela no fogo, uma janela aberta, um gesto doméstico ou uma inquietação da alma. Seu livro de estreia, Bagagem, lançado em 1976, recebeu o incentivo de Drummond; em 2024, ela conquistou o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Camões. Adélia prova que não é necessário abandonar a própria terra para alcançar a universalidade. Por suas palavras, Divinópolis também aprendeu a conversar com o mundo.

Talvez por conviver com os livros e com a literatura, eu tenha aprendido a respeitar ainda mais o silêncio que antecede um verso. Faço minhas poesias, sim, mas ainda não me atrevi a publicar um livro dedicado somente a elas. Sinto que tenho muito a desenvolver, experimentar e descobrir, sobretudo encontrar a minha própria “pegada”, a forma e o estilo de poesia com os quais verdadeiramente me identifico. Já publiquei livros e escrevi muitos textos em prosa e rima, e não considero que essa caminhada esteja distante do universo poético. Afinal, a poesia não mora exclusivamente nos versos: também pode respirar num parágrafo, caminhar numa crônica e florescer numa narrativa quando as palavras ultrapassam a tarefa de informar e começam a emocionar.

Há, porém, uma razão ainda mais íntima para este 20 de outubro ser tão especial. Neste mesmo dia, minha companheira Karen celebra seu aniversário, e gosto de pensar que o calendário, por alguma delicadeza do destino, resolveu aproximar duas formas de poesia que fazem parte da minha vida. Não é por acaso que ela me encanta, me conquista e desperta diariamente minha admiração: quem nasce no Dia do Poeta parece trazer desde o primeiro instante uma bagagem de versos, mesmo sem escrevê-los. Em Karen, encontro essa poesia que dispensa papel, mas transforma a rotina em beleza e os dias comuns em motivos para agradecer.

Neste Dia do Poeta, celebro os que vieram antes, os que escrevem agora e aqueles que ainda guardam poemas numa gaveta. Não tenho pressa de chamar-me poeta; prefiro continuar aprendendo com a poesia. E, como homenagem a quem faz da palavra um lugar de encontro, arrisco estas linhas, misturando prosa e rima, como quem oferece ao tempo uma pequena flor.

Quando a palavra floresce

Há um poeta escondido em cada silêncio, esperando a hora de se revelar; às vezes nasce de uma ausência, outras vezes de um abraço que não se pode guardar. Toma emprestada a dor, devolve esperança, faz do ontem lembrança e do amanhã confiança. Onde o mundo vê somente estrada, ele enxerga partida e chegada.

Se a vida é breve, que a palavra seja abrigo; se a noite pesa, que o verso venha comigo. Que nunca falte ao coração a coragem de sentir, nem à mão que escreve a vontade de prosseguir. Pois ser poeta não é possuir a beleza, é reconhecê-la mesmo na incerteza; e quando tudo parecer perdido, fazer do silêncio um poema e do poema um sentido.


welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha


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