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Welber Tonhá

A cultura dos gatos — entre a história, o mistério e o afeto

Por Welber Tonhá · Colunista· 5 min de leitura
A cultura dos gatos — entre a história, o mistério e o afeto

Costumo pensar que, entre todas as criaturas que aprenderam a dividir o mundo com o ser humano, poucas conservaram tanta independência e mistério quanto os gatos. Enquanto outros animais foram domesticados pela força, pela necessidade ou pelo trabalho, os felinos parecem ter estabelecido conosco um acordo silencioso, uma espécie de pacto em que a liberdade jamais deixou de ser uma condição. Para compreender essa relação, preciso recuar milhares de anos, quando as primeiras comunidades humanas começaram a abandonar a vida nômade para cultivar a terra e construir seus povoados, sem imaginar que, entre os grãos armazenados e os pequenos roedores atraídos pelas colheitas, nasceria uma das mais antigas e fascinantes amizades entre espécies.

Foi há aproximadamente dez mil anos, na região do Crescente Fértil, no Oriente Próximo, que os ancestrais dos nossos gatos domésticos começaram a se aproximar dos agrupamentos humanos. Descendentes de felinos selvagens, especialmente do gato-selvagem-africano, encontraram nos celeiros uma abundância de alimento, enquanto os agricultores descobriram naqueles caçadores discretos aliados eficientes contra os ratos. Imagino que ninguém precisou ensinar o caminho de casa àqueles primeiros gatos, pois eles simplesmente chegaram, observaram, permaneceram e, pouco a pouco, conquistaram um lugar junto às pessoas. A arqueologia nos oferece uma imagem comovente dessa aproximação: em Chipre, uma sepultura de aproximadamente 9.500 anos revelou um ser humano enterrado próximo a um gato, testemunho de que aquela convivência já ultrapassava os limites da simples utilidade.

Séculos depois, encontro no Egito Antigo um capítulo extraordinário dessa história, quando os gatos passaram a ocupar não apenas as residências, mas também o imaginário religioso de uma civilização. Associados à deusa Bastet, símbolo de proteção, fertilidade e harmonia doméstica, tornaram-se animais de grande importância cultural, representados em esculturas, pinturas e objetos sagrados. Alguns eram mumificados e oferecidos em rituais religiosos, demonstrando uma reverência que atravessou gerações. Gosto de imaginar aqueles felinos caminhando entre colunas monumentais, observando faraós e sacerdotes com a mesma expressão de indiferença elegante que reconheço nos gatos de hoje, como se os grandes acontecimentos humanos fossem apenas pequenos episódios diante da eternidade de seus olhos.

Com a expansão das rotas comerciais, os gatos atravessaram mares e fronteiras, acompanhando mercadores, navegadores e povos como fenícios, gregos e romanos. Nos navios, protegiam os alimentos dos roedores; nas cidades, encontravam abrigo; nas propriedades rurais, continuavam exercendo seu antigo ofício de caçadores. Durante a Idade Média europeia, entretanto, viveram uma contradição dolorosa, pois, enquanto permaneciam indispensáveis à vida cotidiana, também foram associados, em determinados lugares, às superstições, à feitiçaria e aos maus presságios, especialmente os gatos pretos. A história, infelizmente, também registra perseguições a esses animais, mostrando como o desconhecimento humano pode transformar a beleza em medo e a inocência em condenação.

Com o Renascimento e, posteriormente, com as transformações culturais dos séculos XVIII e XIX, os gatos conquistaram crescente reconhecimento como companheiros domésticos, inspirando artistas, escritores e admiradores. Em 1871, uma grande exposição felina realizada no Crystal Palace, em Londres, marcou a consolidação de uma nova cultura de valorização desses animais. No século XX, tornaram-se personagens da literatura, do cinema e da televisão, até alcançarem, no século XXI, uma popularidade extraordinária nas redes sociais, onde milhões de pessoas compartilham suas travessuras, expressões e curiosidades.

E curiosidades não faltam a essas criaturas extraordinárias. Aprendi que seus bigodes funcionam como instrumentos sensoriais capazes de perceber detalhes do ambiente, que suas orelhas identificam sons muito além da nossa capacidade auditiva e que seus longos períodos de sono preservam hábitos herdados de ancestrais caçadores. O ronronar, frequentemente associado ao contentamento, também pode surgir em situações de desconforto ou estresse. Descobri ainda que uma piscada lenta pode representar confiança, enquanto o gesto de esfregar a cabeça em nós é também uma maneira de compartilhar seu cheiro e reconhecer familiaridade. Talvez seja essa linguagem tão particular que mais me encante, porque os gatos não precisam pronunciar palavras para preencher uma casa inteira de significados.

É justamente quando abandono os grandes acontecimentos históricos e retorno ao universo da minha própria casa que percebo como milhares de anos de convivência permanecem vivos nos pequenos acontecimentos cotidianos. Aqui, essa história tem três nomes: João, Frederico e Lua. Três presenças que transformam os espaços da casa em territórios de descobertas, carinho e convivência, cada qual com sua individualidade, suas vontades e sua maneira particular de participar da nossa vida. Quando observo esses pequenos companheiros, penso que entre os primeiros felinos dos celeiros antigos e os gatos que hoje dividem conosco o conforto dos lares existe uma linha invisível de afeto, atravessando civilizações, religiões, guerras e transformações sociais, sem jamais romper o elo que nos aproxima.

Mas existe também um nome que pronuncio com uma ternura diferente, misturada à saudade: Hagnarok. Ele já não está fisicamente entre nós, embora permaneça em um lugar onde a ausência não consegue apagar a presença. Aprendi que os animais também escrevem capítulos importantes da nossa biografia, mesmo sem conhecer as palavras, e que a partida de um companheiro de quatro patas deixa marcas que não se explicam apenas pela falta que ele faz, mas, sobretudo, pelo amor que conseguiu despertar. Hagnarok pertence agora à memória afetiva da nossa casa, onde continuará existindo enquanto houver lembrança, gratidão e carinho.

Depois de percorrer tantos séculos dessa história, chego à conclusão de que talvez os gatos nunca tenham sido completamente domesticados, pelo menos não no sentido convencional da palavra. Eles preservaram a liberdade de seus antepassados e, ainda assim, escolheram permanecer ao nosso lado. Olho para João, Frederico e Lua, recordo com carinho o nosso Hagnarok e compreendo que a verdadeira riqueza dessa convivência não está em possuir um animal, mas em merecer sua confiança. Afinal, se os homens construíram impérios, ergueram monumentos e escreveram a história das civilizações, os gatos realizaram uma conquista muito mais silenciosa: sem precisar de coroas, exércitos ou grandes discursos, encontraram um lugar definitivo dentro dos nossos corações.

Welber Tonhá

welbertonha@gmail.com

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural. Instagram: @welbertonha


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