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Welber Tonhá

A cultura em envelhecer — Quem foi que disse que aos 50 somos velhos?

Por Welber Tonhá · Colunista· 5 min de leitura
A cultura em envelhecer — Quem foi que disse que aos 50 somos velhos?

Welber Tonhá

Tenho 51 anos. Jogo futebol. Corro atrás da bola, reclamo do passe errado, tento chegar antes do adversário, comemoro gol e, no dia seguinte, é verdade, talvez o corpo me lembre com alguma dor que já não tenho vinte. Mas velho? Não. Definitivamente não me sinto velho. E é justamente por isso que, de vez em quando, me pego pensando: quem decidiu, afinal, quando uma pessoa fica velha?

Se eu tivesse 51 anos em 1975 ou 1980, provavelmente seria enxergado de outra maneira. Naquele tempo, chegar aos quarenta já significava, para muita gente, entrar numa espécie de sala de espera da velhice. Aos cinquenta, então, quase se esperava que a pessoa aceitasse um roteiro previamente escrito: roupas mais sóbrias, menos ousadia, menos planos, menos recomeços. O homem virava “senhor”, a mulher passava a ser tratada como “senhora”, e parecia existir uma fronteira invisível separando aquilo que ainda era permitido daquilo que já não combinava com a idade.

Era preciso vestir-se “de acordo com a idade”, divertir-se “de acordo com a idade”, comportar-se “de acordo com a idade”. Havia idade para estudar, para casar, para ter filhos, para praticar determinados esportes e até para começar alguma coisa. Como se a sociedade colocasse prazo de validade nas pessoas.

Hoje olho para meus 51 anos e percebo o quanto essa ideia mudou. Não quero ter vinte novamente. Também não quero fingir que tenho trinta. Tenho 51. Trago comigo cinco décadas de experiências, acertos, erros, cicatrizes, conquistas e histórias que um jovem ainda terá tempo de viver. Mas continuo querendo estar no mundo. Continuo fazendo planos, escrevendo, criando, aprendendo e entrando em campo para jogar futebol.

Talvez seja exatamente aí que esteja a diferença entre envelhecer e desistir.

Durante muito tempo confundimos maturidade com recolhimento, como se envelhecer significasse diminuir nossa presença. Hoje vemos pessoas com cinquenta, sessenta e setenta anos estudando, viajando, praticando esportes, começando negócios, aprendendo novas tecnologias, escrevendo o primeiro livro ou reconstruindo completamente a própria vida. Há quem encontre um novo amor, quem comece uma faculdade, quem aprenda a pedalar, quem faça finalmente aquela viagem adiada por décadas.

E há aqueles, como eu, que continuam entrando em campo.

Para mim, existe uma simbologia enorme nisso. Quando jogo futebol, não estou tentando provar que ainda tenho vinte anos. Seria ridículo competir com o calendário. O corpo muda e eu sei disso. Aos 51, aquecer tornou-se mais importante, o descanso deixou de ser luxo e uma dividida mais forte pode deixar lembranças no dia seguinte. Existe sabedoria em reconhecer limites. O que não aceito é transformar limite em sentença.

Envelhecer bem não significa negar a idade. Significa não permitir que a idade determine antecipadamente quem devemos ser.

Vivemos, porém, uma contradição curiosa. Nunca se falou tanto em longevidade e, ao mesmo tempo, nunca se vendeu tanto medo de parecer velho. Cremes, procedimentos, dietas, fórmulas e promessas tentam apagar qualquer sinal do tempo. Talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de perguntar “como faço para não envelhecer?”, deveríamos perguntar: “como quero envelhecer?”.

Porque envelhecer é inevitável. Mas envelhecer bem é uma construção diária. E não falo apenas de saúde física. Falo de conservar a curiosidade, manter amigos, ler, conversar, conhecer lugares, fazer planos, apaixonar-se por projetos e encontrar motivos para sair de casa. Talvez a verdadeira velhice não comece quando aparecem os cabelos brancos, mas quando desaparecem os projetos.

Conheço jovens envelhecidos aos trinta e pessoas extraordinariamente vivas aos oitenta. Por isso tenho cada vez mais dificuldade em aceitar que um número possa definir sozinho a idade de alguém.

Eu não tenho o mesmo corpo dos vinte anos. E não quero ter. Aquele jovem tinha mais velocidade, mas ainda precisava aprender quase tudo aquilo que hoje conheço. A maturidade talvez tenha levado alguma rapidez, mas entregou percepção. Tirou impulsividade e acrescentou experiência. Aos vinte queremos correr para chegar depressa; depois dos cinquenta começamos a perceber que algumas paisagens mereciam ter sido observadas com mais calma.

Aprendemos também a escolher melhor nossas batalhas. Nem toda discussão merece resposta, nem toda opinião merece preocupação e nem todas as pessoas precisam permanecer em nossa caminhada. Descobrimos o valor do tempo justamente quando entendemos que ele não é infinito. E isso, para mim, não é triste. É libertador.

Nos anos 1970 e 1980, uma pessoa de cinquenta anos era muitas vezes colocada socialmente muito mais perto do encerramento de uma trajetória do que de um novo começo. Hoje essa fronteira se deslocou. Vivemos mais, cuidamo-nos mais e, principalmente, começamos a entender que a existência não precisa obedecer ao antigo roteiro de juventude, trabalho, aposentadoria e espera.

A vida pode ter muitos atos. E talvez alguns dos melhores sequer tenham começado aos cinquenta.

Eu tenho 51 anos. Ainda jogo futebol. Ainda tenho projetos. Ainda escrevo. Ainda quero conhecer lugares onde nunca estive, aprender coisas que ainda não sei e realizar sonhos que continuam guardados. Se isso é envelhecer, então envelhecer ganhou outro significado.

Não tenho medo de ficar velho. Tenho medo, isso sim, de chegar a qualquer idade e descobrir que parei de viver antes do tempo. Ninguém permanece jovem para sempre, e nem deveria. A juventude é uma estação maravilhosa, mas não pode ser a única estação que consideramos bonita. Existem flores que somente o tempo faz nascer.

Hoje, aos 51, não quero voltar aos vinte. Quero chegar bem aos sessenta, depois aos setenta, quem sabe aos oitenta. E, se a vida permitir, continuar encontrando algum campo onde eu possa entrar, olhar para a bola no meio do gramado e ainda ter vontade de jogar. Porque talvez envelhecer bem seja exatamente isso: o corpo conhecer a idade, a cabeça respeitar o tempo, mas a vontade de viver continuar entrando em campo.

Welber Tonhá

welbertonha@gmail.com

Imortal da academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha


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