A Cultura em se despedir

Minha coluna desta semana, seria com um outro tema, no entanto, fomos abalados aqui pela partida repentina do amigo Anderson Pereira Gontijo, o “Anderson Mergulhador”, uma pessoa positiva, pacificadora, e amigo do futebol no Estrela, pronto para dar carona a quem quer que precisasse, eu mesmo precisei muitas vezes, e ele estava lá, sempre, descanse em paz meu amigo. Está coluna é em sua homenagem.
Podemos parecer, mas nunca estamos prontos, nunca preparados. E isso é uma questão a se pensar. Como cada um de nós nos relacionamos com a partida de alguém?
A morte, esse silêncio absoluto que ecoa por gerações, nunca foi lida da mesma forma pelo olhar humano. Através dos milênios, deixamos de encará-la apenas como um fim biológico para transformá-la em rito, mito e, finalmente, em uma questão de legado.
O Despertar do Sagrado: Egito e Mesopotâmia
Nas margens do Nilo, há quatro milênios, a morte não era um adeus, mas uma viagem burocrática e espiritual. Para o egípcio, o corpo era a âncora da alma; por isso, a mumificação era o passaporte para o tribunal de Osíris. A morte era uma transição que exigia preparação técnica e moral. Já na Mesopotâmia, o tom era mais sombrio: o submundo era a "Terra sem Retorno", um lugar de pó e escuridão onde até heróis como Gilgamesh curvavam-se à inevitabilidade do fim.
A Dualidade Clássica: Grécia e Roma
Para os gregos antigos, o momento do último suspiro era o domínio de Caronte. A morte era o desprendimento da psique, que cruzava o rio Estige. Era um evento cívico e familiar, onde o lamento fúnebre servia para garantir que a sombra do morto não vagasse desamparada. Os romanos, herdeiros dessa visão, transformaram o lamento em memória pública: os ancestrais eram cultuados em máscaras de cera, mantendo os mortos vivos na estrutura da família.
A Esperança e o Temor: A Idade Média Cristã
Com a ascensão do Cristianismo, a morte ganhou contornos de julgamento final. No período medieval, a "Dança Macabra" ilustrava que a ceifadora não distinguia reis de camponeses. A morte era onipresente, marcada pela peste e pelas guerras, mas também era o portal para a vida eterna. O foco mudou do corpo para a salvação da alma; morrer "bem" significava morrer em estado de graça, cercado por orações e rituais de contrição.
O Oriente e a Roda do Devir
Enquanto o Ocidente temia o fim, culturas como a indiana e a tibetana viam a morte como uma troca de vestes. No Hinduísmo e Budismo, o Samsara dita que a morte é apenas um estágio em um ciclo de renascimentos. O corpo é entregue ao fogo em piras crematórias para que a essência se liberte. Aqui, a morte não é uma linha reta que termina num abismo, mas um ponto em uma circunferência eterna.
A Modernidade e o Silêncio Clínico
A partir do século XIX e XX, a morte foi sendo gradualmente expulsa da sala de estar e levada para os hospitais. Ela tornou-se um tabu técnico. O luto, antes público e vestindo preto por anos, tornou-se discreto, quase invisível. Nas sociedades secularizadas de hoje, a morte é muitas vezes vista como uma falha médica ou um inconveniente que preferimos não discutir, buscando em telas e algoritmos uma forma de imortalidade digital.
A história da morte é, em última análise, a história da nossa busca por sentido. Do terror dos abismos mesopotâmicos à celebração colorida do Día de Muertos no México, o ser humano insiste em decorar o vazio com símbolos, garantindo que, enquanto houver alguém para lembrar, ninguém realmente desaparece.
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Welber Tonhá e Silva
Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09
Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.
Instagram: @welbertonha
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