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A Crônica Coroada: Uma Viagem Literária pela História e Cultura do Chapéu 

Por Bruno
A Crônica Coroada: Uma Viagem Literária pela História e Cultura do Chapéu 

O chapéu, mais do que um mero adorno, é um silencioso cronista da civilização, uma coroa de feltro, palha ou seda que testemunhou a marcha da história, adaptando sua forma e significado ao longo dos milênios. Eu mesmo tinha uma coleção, na época que trabalhava no museu usava sempre. Sua jornada é uma tapeçaria tecida com a urgência da proteção e o capricho da vaidade.

I. A Aurora da Cobertura (Antiguidade ao Início da Idade Média)

No berço das civilizações, a necessidade impôs a forma. A cabeça, vulnerável ao sol inclemente e ao frio áspero, clamou por abrigo.

Necessidade e Simbolismo: Os primeiros vislumbres, por volta de 4000 a.C., são faixas, turbantes e ataduras, protetores primários. O uso da cobertura, contudo, logo ascendeu a um símbolo de status e distinção social. Na Roma Antiga, por exemplo, o Píleo (uma espécie de gorro cônico) era o emblema do escravo recém-liberto, um atestado de nova  

cidadania.

O Pétaso Grego: Por volta de 2000 a.C., a Grécia Antiga nos legou o Pétaso, um chapéu de sol prático, com abas largas, feito de feltro, couro ou palha. Era o companheiro dos viajantes e, mitologicamente, o chapéu alado de Hermes, o mensageiro dos deuses, conferindo-lhe ares de velocidade e mobilidade.

II. O Véu e a Vanguarda (Idade Média ao Renascimento)

Com a chegada da Idade Média, o chapéu masculino torna-se um acessório de distinção, enquanto a cabeça feminina, muitas vezes coberta por véus ou toucas, só mais tardiamente adota a chapelaria exuberante.

A Era Gótica e a Nobreza: No século XV, a moda gótica deu à luz o extravagante Hennin, um chapéu cônico alto, por vezes dotado de um longo véu esvoaçante, reservado às damas da alta nobreza, desafiando os céus em sua altura. Paralelamente, os acadêmicos vestiam gorros de lã que evoluiriam para o moderno chapéu quadrangular.

 O Florescer Renascentista: No Renascimento, os chapéus masculinos ganham abas e copas mais elaboradas, ostentando ricos bordados, penas de avestruz e joias – o acessório torna-se um palco para a riqueza e o poder dos homens. As boinas, originárias da Itália, surgem como um modelo de tecido franzido e ajustável, mais artístico e informal.

III. A Faixa e a Cartola (Séculos XVII e XVIII)

A moda se sofisticou, e os modelos militares e cívicos influenciaram o guarda-roupa social.

O Tricórnio e o Bicórne: No século XVII, o Tricórnio, com suas abas dobradas em três pontas, domina a cena masculina por toda a Europa, da corte ao campo de batalha. Com a Revolução Francesa, no final do século XVIII, ele cede o lugar ao Bicórne (ou chapéu de dois bicos), frequentemente associado a figuras militares e a Napoleão.

A Eclosão Feminina: O século XVIII marca o uso mais disseminado do chapéu feminino, que se enriquece com flores, fitas e bordados. O Calash (feito de seda ou linho), que permitia cobrir e proteger os penteados altos da época, torna-se popular entre as nobres.

IV. O Rigor e a Reforma (Séculos XIX e Início do XX)

A Revolução Industrial e a ascensão da burguesia moldaram o chapéu em emblemas de formalidade e bom tom.

 Os Clássicos da Formalidade: O século XIX é a era dourada da chapelaria masculina. A Cartola (ou Top Hat), com sua copa alta e cilíndrica, emerge nos anos 1790 e se consagra como o ápice da elegância e da solenidade. O Chapéu-Coco (ou Bowler), surgido em 1849, oferece uma alternativa mais compacta e durável, popular entre a classe trabalhadora e, ironicamente, ícone do gentleman britânico.

A Exuberância e o Declínio: As mulheres vitorianas usavam modelos que iam de pequenos bonnets a chapéus cada vez mais decorados com flores, pássaros empalhados e plumas. No entanto, a popularização do automóvel e a mudança de estilo de vida urbana no início do século XX tornaram os chapéus de abas largas menos práticos, levando a uma diminuição gradual de seu uso como item indispensável.

V. A Revolução e o Retorno (Meados do Século XX aos Dias Atuais)

A metade do século passado viu o chapéu ser destronado pela contracultura, mas sua essência persiste.

 A Crise do Acessório: Nos anos 60, a contracultura e a rebeldia hippie (simbolizada pelo cabelo comprido e livre) rejeitaram o chapéu como um emblema do conservadorismo e da formalidade. Os homens pararam, em grande parte, de usá-lo cotidianamente.

Renascimento e Diversidade: Hoje, o chapéu é menos uma obrigação e mais uma declaração de estilo. Modelos clássicos como o Fedora e o Trilby ressurgem com toques modernos. A cultura streetwear trouxe o Boné e o Bucket Hat para o mainstream. A realeza e a alta costura feminina mantêm a tradição, com chapéus extravagantes em ocasiões especiais, enquanto o Chapéu Oversized (com abas exageradas) faz sua aparição como um elemento de moda audacioso.

O chapéu, portanto, é um acessório que resistiu ao esquecimento. Não mais uma regra social, mas um convite à personalidade, uma peça que, em sua aba e copa, carrega os ecos de todas as épocas

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welbertonha@gmail.com

Welber Tonhá e Silva 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Imortal da Academia de Letras e Artes Luso-Suiça em Genebra, cadeira nº C186

Membro da Academia Mineira de Belas Artes

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha

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