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A História dos Meus Pais

Por Bruno
A História dos Meus Pais

Às vezes, quando estou sozinho no meu quarto, vendo fotos antigas, me lembro de toda a minha vida, do meu passado, das alegrias, tristezas, lutas, e posso dizer com franqueza: "não me arrependo de nada e, se pudesse, faria tudo de novo!"

Tudo começara nos meados do ano de 1957, durante um ensaio de teatro no Colégio Franciscano, fora a primeira vez que a vi. Eu já tinha 26 anos e participava do ensaio juntamente com outros colegas, dentre eles uma pessoa que se tornaria posteriormente uma das maiores poetisas da nossa cidade e também um colega, o Sr. Antônio de Castro, que me apresentara uma menina, muito bonita, com 18 anos na época, e que eu nem imaginava, mas seria minha companheira por 58 anos.

Ela era linda, inteligente e, para minha surpresa, confidenciara que já queria me conhecer desde os 14 anos, quando me vira passando pela avenida Sete de Setembro, em frente à Escola Dona Antônia Valadares. O nome dela era Maria das Dores, natural de Dores do Indaiá, mas era conhecida pela família por Dora. Ela tinha se mudado para estudar aqui em Divinópolis e morava com a irmã, a Sra. Maria da Conceição, que já era casada e residia à Rua Minas Gerais.

Na mesma hora, me senti atraído e, em pouco tempo, já estávamos namorando. Conheci e gostei muito da família dela, e acredito que tiveram a mesma impressão sobre mim.

Ela se parecia muito com a mãe, e o pai dela era um homem bem alto, muito honesto, trabalhador, sério e muito religioso. Em pouco tempo, apenas seis meses, a pedi em casamento.

Nos casamos em maio de 1958. No ano seguinte, veio nosso primeiro filho, dos 14 que tivemos ao longo do nosso casamento.

Lutamos muito, sempre um ao lado do outro. Graças a Deus, não deixamos faltar nada para os nossos filhos e os criamos da melhor forma possível, tanto que todos se tornaram pessoas boas.

À medida que se passaram os anos, fui vendo que estava ficando muito difícil criar cinco filhos apenas com o salário de alfaiate. Em 1966, fora instalada em Divinópolis a Faculdade de Direito do Oeste de Minas, e logo percebi que essa era minha grande oportunidade. Fora um período difícil, a faculdade era muito cara e, me lembro bem, no ano da minha formatura, tive que improvisar e inventar um consórcio de ternos para os alunos, pois só assim conseguiria me formar. Eles pagavam um valor mensalmente e, com muito esforço e trabalho, consegui pagar todas as despesas e me formar em Direito. Hoje, depois de tudo que passei, posso dizer com muito orgulho que os ternos que vestiram a maioria dos primeiros bacharéis de Direito da nossa cidade, em 1970, foram confeccionados pela minha modesta alfaiataria.

Desde 1970, juntamente com o advogado Milton Egídio, que já era experiente, comecei a me dedicar seriamente à advocacia. Graças a Deus e a muito esforço, melhorei de vida e consegui me destacar na profissão.

Depois de alguns anos, a Dora, incentivada por mim, também conseguira se formar em Direito, já com treze filhos e no ano de 1978. Porém, durante sua vida, advogara poucas vezes, mas me ajudara bastante, principalmente num período em que me acidentei e não conseguia nem andar, tampouco trabalhar, e ela cuidara de tudo, inclusive de todos os processos.

No ano de 1980, quando tivemos nossa última filhinha, a Dorinha teve um problema sério e quase falecera. Uma hemorragia grave nos fez levá-la às pressas para o Hospital São Judas Tadeu e, como consequência, teve que retirar o útero.

Quando a hemorragia começara, infelizmente, eu não estava em casa, mas tenho que ressaltar e agradecer penhoradamente ao Sr. Newton Tavares, que, atendendo ao pedido do meu filho mais velho, a levara prontamente para o hospital, em seu próprio carro, num gesto nobre que fora primordial para sua recuperação.

Nessa época, fiquei desesperado. Lembro-me que à noite saí louco pelas ruas da nossa cidade, pedindo a todos que encontrava pela frente, sem nenhuma exceção, que fossem ao hospital e doassem sangue para salvar a vida da minha preciosa esposa.

Fiquei sabendo, posteriormente, que um dos meus filhos, sem minha anuência, e na época menor, chegara a doar sangue para a mãe em um dos braços, mas, como a veia era muito fina, arrebentou-se e ele, sem pestanejar, no mesmo instante, oferecera o outro braço para a enfermeira.

Com tanto desespero, acredito que aquele momento sensibilizara muita gente, inclusive os médicos e enfermeiras, que imaginavam a tragédia que seria a morte daquela mãe, ainda jovem e com 14 filhos, dos quais 13 ainda eram menores. Tenho convicção que até Deus se sensibilizara e, por essa razão, pela primeira vez, Ele a salvara para nós.

Depois desses problemas todos, graças a Deus as coisas foram melhorando. Foram aparecendo os netos, alguns dos filhos começaram a se formar e a vida fora continuando com muita felicidade.

Sem dúvida alguma, durante nosso casamento, fomos muito felizes, apesar de algumas desavenças que surgiram com alguns dos nossos familiares. Mas isso é natural, a felicidade não é plena e nem permanente. Talvez isso até seja por vontade de Deus, o surgimento dessas dificuldades durante nossas vidas, justamente para que possamos ter força para sobrepujá-las e, acima de tudo, para valorizarmos os momentos felizes.

O ano de 2013 não foi bom para nossa família. Neste ano, perdemos nossa filha Rosemere, antes de completar 45 anos, no dia 21 de julho, infelizmente vitimada pelo câncer.

A família toda se abalara, mas mal sabíamos que a vida nos reservava dores ainda maiores. No mesmo ano, em novembro de 2013, minha esposa apresentara alguns problemas cardíacos. Aqui em Divinópolis, os médicos não nos transmitiram segurança, deixaram muitas dúvidas e acabamos decidindo que a levaríamos para São Paulo.

A situação era grave, mas, depois de algumas viagens a São Paulo e vários exames, ela fora operada com êxito no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, por um médico de Itapecerica-MG. Essa fora a segunda vez que Deus, ouvindo nossas preces, a salvara novamente.

Porém, dois anos após, exatamente no dia 7 de dezembro de 2015, recebi a pior notícia da minha vida. Minha companheira de 58 anos havia falecido, no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, vitimada também pela mesma doença que levara nossa filha.

A perda foi terrível, irreparável, e os 13 filhos vivos, 23 netos e 3 bisnetos ficaram órfãos. A bondosa matriarca havia partido para nunca mais voltar.

Apesar da perda, não posso reclamar de nada, fomos muito felizes por 58 anos. São poucos os casais que tiveram e ainda terão esse privilégio. Hoje, me contento apenas em ver os frutos que ela me deixara.

Agradeço muito a Deus, por anteriormente já ter salvo minha esposa, pelo menos por duas vezes que presenciei e tenho conhecimento, mas também entendo — talvez por ter ela já cumprido dignamente sua missão aqui na Terra e sua presença já ser requisitada no céu por um bom tempo —, desta vez não teve jeito e ela infelizmente nos deixara.

Alguns poetas dizem que as alegrias e tristezas que vivenciamos durante nossas vidas jamais serão esquecidas e, com o passar do tempo, perdem a intensidade e envelhecem como a própria vida. Mas, no meu caso específico, é diferente. Quanto mais tempo passa, minha saudade se intensifica e a ausência dela dói cada vez mais.

O sentido da minha vida, a motivação, a alegria, a força, tudo era ela e a saudade dela é imensa, inenarrável! Sou muito religioso e, por essa razão, estou resignado e viverei o resto dos meus dias até quando Deus assim permitir. Porém, confesso, meu corpo ainda está aqui pela minha família, por persistência, ou talvez até por teimosia, mas minha alma e meu coração não estão mais, já se foram junto com ela.

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