A morte tem um jeito de escancarar tantas coisas

Há três anos, meu pai partiu. E desde então, percebo que datas assim não são apenas lembretes de ausência. Elas são convites silenciosos para sentir de novo. A saudade que antes era um nó na garganta hoje também é lugar de encontro, memória e sentido.
Com o tempo, fui percebendo que o luto não foi apenas despedida; foi uma ponte para algo que eu tinha esquecido: sentir profundamente. Na correria da vida, a gente aprende a funcionar, produzir, seguir. Mas a dor chega como uma força que nos atravessa e desautoriza o automático. Ela pede pausa. Pede honestidade. Pede corpo. Pede tempo.
E, curiosamente, isso tem muito a ver com saúde mental.
Recentemente, ouvi um episódio de podcast que tocou algo essencial: quando evitamos sentir, a dor não desaparece, ela se acumula. Quando acolhemos o sentir, a dor se transforma. Não porque fica menor, mas porque deixa de ser uma inimiga e passa a ser uma guia. O luto me ensinou isso com rigor e delicadeza.
Hoje, meu pai vive em mim não apenas pelas lembranças, mas pela forma como aprendi a atravessar a vida com mais verdade emocional. Cada vez que me permito sentir, me torno menos endurecida e mais inteira (comigo e com o mundo).
Há uma diferença entre a dor saudável da saudade e o que chamamos de luto persistente. O luto, em sua forma natural, é um processo de reorganização da vida após uma perda. Ele se movimenta, muda de forma, respira. Já o Transtorno de Luto Prolongado, reconhecido por manuais diagnósticos recentes, aparece quando a dor não encontra lugar simbólico para existir e permanece congelada, impedindo a vida de seguir. Não se trata apenas de “tempo demais chorando”, mas de sinais como isolamento crescente, desinteresse pela própria existência, incapacidade de retomar papéis sociais, culpa paralisante ou uma saudade que não cria vínculo, apenas desespero. É um pedido de ajuda, não um fracasso. Por isso, mais do que explicar, acompanhar alguém em luto exige presença, escuta qualificada e olhar clínico cuidadoso. Cuidar da saúde mental também é reconhecer quando a dor precisa deixar de ser atravessada sozinha.
O luto persistente, formalizado recentemente como Prolonged Grief Disorder (PGD) no DSM-5-TR, é caracterizado por sofrimento intenso, saudade paralisante e incapacidade de retomar a vida social e ocupacional por mais de 12 meses após a perda de um ente querido.
Estudos populacionais indicam uma prevalência condicional de cerca de 3,3% a 4,7% entre pessoas enlutadas, dependendo dos critérios diagnósticos aplicados. Comparações entre critérios diagnósticos do DSM-5-TR e da CID-11 revelam variações em prevalência e sobreposição, sinalizando a importância de um diagnóstico criterioso para evitar tanto a medicalização excessiva do luto normal quanto o subdiagnóstico de casos clínicos graves.
Do meu processo de luto, ficam algumas lições simples, mas profundas, que compartilho não como orientação, mas como convite. Convite para sentir, para habitar o que dói, para permitir que a vida continue nos atravessando mesmo quando parece ter parado.
11 convites que o luto me fez e ainda faz:
1. Sentir sustenta.
2. A saudade é forma de vínculo.
3. O corpo fala o que a mente ainda não consegue nomear.
4. Luto não se vive sozinho.
5. Memória não é passado: é presença recriada.
6. O tempo organiza, não apaga.
7. Herança afetiva é o que permanece quando tudo se desfaz.
8. A finitude dá profundidade à vida.
9. Amor continua, apenas muda de lugar.
10. Falar da morte é um ato de coragem e vitalidade.
11. O cuidar vai além de curar.
No fundo, não se trata de encontrar respostas, mas de sustentar perguntas novas. A psicanálise nos lembra que aquilo que perdemos não desaparece do nosso mundo psíquico, se transfere para dentro, tornando-se parte da nossa história, do nosso desejo, da forma como amamos de novo. Elaborar o luto é permitir que essa perda encontre linguagem e lugar, em vez de ficar congelada como trauma.
Não é um caminho linear, nem romântico.
É um trabalho de vida: dar destino simbólico ao que nos atravessou.
E talvez seja assim que meu pai continue vivo em mim: não como lembrança fixa, mas como presença em movimento, me afetando, moldando, transformando.
Porque, no fim, sentir é também uma forma de permanecer ligado àquilo que nos formou. E, atravessar a dor não é sobre ser forte o tempo todo, é sobre continuar vivo por dentro e um passo de cada vez.
Respira, é humano.
Marina Diva de Oliveira
Mestre em Ciências da Saúde; especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub; mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid Jovem
marinadivaahh@gmail.com
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