Deixe que fiquem com o que tiraram de você

Há perdas que fazem barulho (muito, por sinal!). Outras são silenciosas. Acontecem sem testemunhas.
Um dia você percebe que deixou de confiar, de rir com facilidade, de ocupar certos lugares, de fazer coisas que gosta, de dizer o que pensa. E, posso te dizer: isso não foi de uma vez. Acontece aos poucos, quase imperceptível.
Certo dia li em um livro de Najwa Zebian: “Deixe que fiquem com o que tiraram de você.”
Li a frase e demorei a absorver. Porque há coisas que doem demais para serem deixadas. Há injustiças que insistem em voltar à memória como quem pede reparação. Há partes de nós que queremos recuperar a qualquer custo.
Mas talvez exista uma diferença delicada entre recuperar o que foi perdido e continuar pertencendo ao que nos feriu.
Ana Suy costuma nos lembrar que viver é também aprender a fazer morada na falta. Não para cultuá-la, mas para reconhecer que nenhuma existência chega inteira ao fim do dia. Somos feitos do que recebemos, mas também do que nos escapou (essas coisinhas invisíveis que nos falam demais).
Penso nisso quando encontro pessoas que acreditam ter perdido a si mesmas depois de um luto, de uma demissão, de uma separação ou de uma palavra dita na hora errada. Elas dizem: “Nunca mais fui a mesma”.
E eu penso que ainda bem.
Porque voltar a ser quem éramos talvez seja impossível. O que a vida oferece é outra possibilidade: tornar-se alguém que carrega a cicatriz sem precisar morar nela.
Brené Brown escreve que a vulnerabilidade não é sinal de fraqueza; é o lugar onde nascem a coragem, o pertencimento e o amor. Talvez seja por isso que insistimos tanto em esconder as nossas rachaduras. Confundimos proteção com endurecimento. E, quando endurecemos demais, deixamos de sentir não apenas a dor, mas também a beleza.
Há algo que ninguém consegue tirar.
A delicadeza que você escolheu praticar, mesmo depois da brutalidade.
A capacidade de confiar novamente.
O gesto de cuidar quando teria todas as razões para desistir.
Isso não significa negar a perda. Significa impedir que ela seja promovida ao cargo de identidade.
Acredito que deixar que fiquem com o que tiraram de você seja um ato de liberdade.
Porque quem vive tentando arrancar do passado aquilo que lhe foi levado continua preso a ele.
Há um momento em que a cura muda de pergunta.
Deixa de ser “como recupero o que perdi?” e passa a ser “quem estou me tornando depois disso?”.
Gosto mais dessa segunda pergunta.
Ela não devolve o que foi embora.
Mas devolve você.
Respira.
E perceba que a maior restituição que a vida oferece não é receber de volta o que nos tiraram.
É descobrir que o essencial nunca saiu de nós.
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