Respira, é humano

Marina Diva
Tenho transitado em muitos ambientes e escutado muitas pessoas. Essa escutatória (como nos diz Rubem Alves) me fez pensar que tem algo curioso e profundamente humano sobre aquilo que não vemos em nós mesmos. E, como já mencionado por Carl Jung, "até que o inconsciente se torne consciente, ele dirigirá sua vida e você chamará isso de destino”.
A ciência deu um nome para isso. O conceito é conhecido como “teoria do ponto cego”: são aspectos da nossa forma de pensar, sentir e agir que escapam à nossa própria percepção, mas que frequentemente são visíveis para o outro. Essa ideia se conecta com a Janela de Johari, uma ferramenta clássica que mostra que há uma parte de nós que é pública, outra privada, uma desconhecida e uma que é cega (percebida pelos outros, mas não por nós).
E é aqui que a saúde mental começa a ser atravessada de forma silenciosa.
Porque não enxergar a si mesmo com alguma nitidez pode nos levar a repetir padrões que nos ferem: relações que sempre dão errado, reações desproporcionais, dificuldade de sustentar limites, ou até um cansaço constante que parece não ter explicação. Muitas vezes, o sofrimento não vem apenas do que acontece fora, mas daquilo que, dentro de nós, permanece não elaborado.
Do ponto de vista da psicanálise, esses pontos cegos não são falhas, são construções. São defesas, histórias mal digeridas, emoções que em algum momento não puderam ser sentidas por completo. O inconsciente, como já dizia Sigmund Freud, não é um lugar vazio, mas um campo ativo que influencia nossas escolhas sem pedir licença.
E, quem sabe, isso explique por que, mesmo querendo mudar, às vezes nos vemos fazendo exatamente as mesmas coisas.
Cuidar da saúde mental passa, então, por um movimento delicado: ampliar a consciência sobre si. E isso não se faz sozinho o tempo todo. O outro, seja em relações de confiança, seja em processos terapêuticos funciona como um espelho possível. Não para nos definir, mas para nos revelar.
Olhar para os próprios pontos cegos exige coragem. Porque nem sempre o que vamos encontrar é confortável. Mas há algo de profundamente libertador nisso: quando começamos a ver, também começamos a escolher diferente.
Deixo aqui quatro provocações se destacam como fundamentais para a saúde mental:
- A mente humana não é totalmente racional: somos atravessados por vieses que moldam nossa percepção sem que percebamos;
- A experiência subjetiva importa tanto quanto os dados objetivos, porque é nela que o sofrimento (ou o bem-estar) se instala;
- Temos uma tendência a confiar excessivamente nas nossas próprias interpretações, mesmo quando elas estão distorcidas;
- Reconhecer nossas limitações cognitivas/emocionais não é sinal de fraqueza, mas de maturidade emocional. É esse reconhecimento que abre espaço para escolhas mais conscientes, relações mais saudáveis e uma forma mais honesta de existir consigo e com o outro.
Na prática, viver melhor a partir dessa consciência é cultivar pequenas pausas de honestidade consigo mesmo:
- Desconfiar das primeiras certezas, perguntar “o que aqui pode ser um ponto cego meu?”;
- Abrir espaço para escutar o outro sem se defender imediatamente e, sobretudo, sustentar o incômodo de se rever. Isso se traduz em atitudes simples e profundas;
- Pedir feedback (quando alguém te mostra como você está sendo percebido/a) com abertura;
- Observar padrões que se repetem, nomear emoções antes de agir, buscar processos terapêuticos quando necessário e não tomar toda percepção como verdade absoluta.
É um treino diário de humildade psíquica: sair do automático, ampliar o olhar e assumir a responsabilidade pela própria história. Porque, quando a gente começa a se enxergar com mais nitidez, a vida deixa de ser só reação e passa a ser escolha.
No fim, saúde mental não é sobre ter tudo sob controle. É sobre, aos poucos, ir se tornando menos desconhecido de si mesmo.
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