Entre o excesso e o vazio: por que estamos adoecendo por dentro?

Vivemos um tempo curioso e, ao mesmo tempo, inquietante. Não é falta de informação. Nunca soubemos tanto. Também não é falta de estímulo. Nunca fomos tão provocados. Ainda assim, algo parece não sustentar: o interesse.
A sensação é de que atravessamos uma espécie de “crise de interesse”. Mas não no sentido superficial de tédio ou desatenção. É mais profundo. É como se estivéssemos perdendo a capacidade de nos implicar com o que vivemos.
E quando o interesse se fragiliza, a saúde mental sente.
Porque o interesse não é só um movimento cognitivo ele é um organizador psíquico. É o que nos conecta com o mundo, com o outro e com nós mesmos. É o que dá direção ao desejo, sustenta o sentido e, muitas vezes, protege contra o esvaziamento da vida.
Quando tudo vira passageiro, quando nada nos prende de verdade, o que começa a aparecer não é só desatenção, é vazio.
Na clínica e na vida, isso tem nome e forma: apatia, sensação de desconexão, falta de propósito, exaustão emocional. Quadros que muitas vezes se confundem com Depressão ou caminham ao lado dela. Não necessariamente pela intensidade dos sintomas, mas pela perda de vínculo com aquilo que sustenta a vida como experiência.
É como se o sujeito estivesse presente… mas sem estar.
E há um ponto delicado aqui: confundimos excesso de estímulo com vitalidade. Mas, na prática, quanto mais dispersos estamos, menos conseguimos nos envolver. E quanto menos nos envolvemos, menos sentido encontramos. É um ciclo silencioso de adoecimento.
A crise de interesse, então, não é só cultural, ela é também clínica. Ela aparece no profissional que não encontra mais significado no trabalho. Na mulher que se sente cansada sem saber exatamente do quê. No jovem que transita por tudo, mas não se reconhece em nada. No cuidador que se doa tanto que já não consegue sentir.
E, aos poucos, o sofrimento psíquico vai se instalando e não necessariamente como ruptura, mas como esvaziamento.
Talvez, por isso, cuidar da saúde mental hoje passe por um movimento que parece simples, mas é profundamente desafiador: resgatar a capacidade de se interessar.
Mas não por tudo. Não pelo excesso. Pelo essencial.
Aquilo que merece nossa presença.
Aquilo que suporta o tempo.
Aquilo que nos convoca a permanecer.
Porque, no fundo, o interesse é um ato de escolha.
E escolher, nesse tempo, é quase um gesto de coragem.
Para não esquecer: o adoecimento, muitas vezes, não começa no excesso de dor. Começa na ausência de sentido. E cuidar disso é, antes de tudo, voltar a se implicar com a própria vida.
Respira, é Humano!
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
