Fica. Amanhã a gente conversa

Marina Diva
Os dias estão tão corridos que estamos perdendo o melhor de nós.
Aquele encontro gostoso, aquele sorriso sem intenção, aquela descoberta de um caminho diferente. Aquele fazer sem ser por utilidade, sem meta, sem corre.
Sabe, fica! Amanhã a gente conversa! Estamos tão ocupados tentando dar conta da vida que, muitas vezes, deixamos de estar nela. Estamos presentes em tantos lugares que, às vezes, não estamos inteiros em lugar nenhum.
Esses dias estava lendo o livro Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli e fiquei com algumas perguntas. Tem algumas perguntas que a gente lê. E há algumas que, de algum modo, nos leem de volta: o que exatamente desejamos quando desejamos desaparecer?
Fiquei pensando esses dias que o que uma pessoa chama de desaparecimento pode ser uma tentativa desesperada de ser encontrada, de ser vista, de ser amada.
Eu acredito que nem sempre desaparecer seja a vida que queremos abandonar.
Muitas vezes queremos desaparecer de uma versão de nós mesmos.
Da mulher que dá conta de tudo.
Do homem que precisa ser forte o tempo inteiro.
Da mãe que acredita que não pode falhar.
Do profissional que aprendeu a transformar cansaço em competência.
Da pessoa que se acostumou tanto a corresponder às expectativas que já não sabe distinguir desejo de obrigação.
Sabe que há um tipo de desaparecimento que é quase um pedido de socorro?
Não necessariamente “quero morrer”, mas “não aguento mais continuar sendo quem precisei ser para chegar até aqui”. Já se sentiu assim?
Algumas pessoas, em determinados momentos da vida, sentem vontade de sumir. Não querem necessariamente deixar de existir. Querem deixar de existir em uma forma de viver que se tornou pesada demais.
E existe algo profundamente humano nisso.
Porque viver também é perder algumas versões de nós mesmos. É desaprender. Rapas as tintas que nos pintaram, como já nos disse Rubem Alves.
A menina que acreditava que amor era agradar a todos precisa desaparecer para que a mulher descubra que amor também é limite.
A pessoa que aprendeu sobre afeto em relações atravessadas pela violência precisa deixar morrer a ideia de que amor é aquilo que machuca e aprender que o amor não precisa doer e também pode ser segurança, limite, presença e liberdade.
O profissional que confundia valor com produtividade precisa desaparecer para que alguém possa compreender que descansar não é fracassar.
A pessoa que passou anos tentando ser indispensável talvez precise desaparecer um pouco para descobrir que ser amada não depende de ser necessária.
E aquela que cresceu acreditando que nunca era suficiente precisa descobrir que insegurança não é falta de valor; é, muitas vezes, a memória de ter precisado duvidar de si para sobreviver aos olhos do outro. Até aprender que ser vista não é sobre ser reconhecida ou validada pelo outro, mas sobre conseguir olhar para si e reconhecer o próprio valor.
Amadurecer também de desaparecer das versões que fizemos de nós.
Desaparecer de expectativas.
De personagens.
De culpas herdadas.
De relações que exigem que sejamos menores para permanecermos nelas.
Mas, lembre-se: nem todo desejo de desaparecer é apenas poético. Às vezes, ele é sofrimento psíquico pedindo cuidado, acolhimento e suporte. Quando o desejo de sumir vem acompanhado de desesperança, isolamento, sensação de não pertencimento ou pensamentos sobre a própria morte, não devemos romantizá-lo. É preciso escutar. Procurar ajuda. Permitir que alguém nos acompanhe.
Há momentos em que a vida não precisa de uma grande resposta. Precisa de presença.
Sabe quando a gente não quer uma explicação, não precisa de um conselho? Mas de alguém que permaneça por perto enquanto tentamos lembrar quem somos?
Penso que desaparecer, algumas vezes, pode ser uma forma de transformação.
Que a gente consiga abandonar o que já não somos sem abandonar a própria vida.
Que possamos mudar de pele sem destruir o corpo inteiro.
Que haja alguém para nos chamar pelo nome quando nós mesmos esquecermos como ele soa.
E que, mesmo nos dias em que a vida parecer um lugar distante, alguma pequena parte de nós continue dizendo: fica.
Não precisa saber como.
Não precisa ter certeza.
Só fica.
Amanhã a gente conversa de novo.
E, quanto isso, quero propor um experimento para esta semana: experimentar coisas que não servem para nada.
Nada de produtividade. Nada de meta. Nada para postar, contabilizar ou transformar em resultado. Do tipo das coisas desimportantes, como:
Tomar um café com calma.
Ouvir uma música inteira sem fazer outra coisa.
Conversar demoradamente com alguém sem pegar o celular.
Fazer uma receita só porque deu vontade.
Sentar ao sol.
Rir de uma bobagem.
Voltar para um lugar de que você gosta.
Experiências que não servem para nada além de nos lembrar que estamos vivos.
Espia, quem sabe a vida não esteja apenas nas grandes conquistas que perseguimos, mas também nesses pequenos intervalos em que não precisamos provar absolutamente nada.
Experimente fazer alguma coisa inútil.
Não para melhorar sua performance.
Não para ser uma versão melhor de você.
Só para estar aqui.
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