O que a gente diz e o que realmente quer dizer

Às vezes a gente briga pelo que é dito, mas sofre pelo que não foi ouvido. Talvez grande parte das dores humanas more exatamente aí: no espaço entre uma palavra e outra.
Entre o que eu digo.
E o que você escuta.
Entre o que você responde.
E o que, no fundo, estava tentando pedir.
Falar não é sobre dizer. Existe uma ideia simples e profunda: nós não falamos apenas para informar algo. Falamos para sermos reconhecidos. Falamos para sermos vistos. Falamos para existir no olhar do outro. O falar exerce uma função.
Por isso, muitas discussões nunca foram realmente sobre o motivo aparente. Talvez venha de algo que nos transborda, tipo quando o copo transborda com uma gota a mais, sabe?
Não era sobre a toalha molhada na cama.
Nem sobre a mensagem que demorou para ser respondida.
Nem sobre quem está certo.
Era sobre algo mais profundo:
“Você ainda me vê?”
“Eu ainda importo para você?”
“Você ainda está aí?”
A saúde mental passa muito por isso: pela qualidade das nossas relações. Não apenas pelas grandes histórias da vida, mas pelos pequenos gestos de presença no cotidiano. Um olhar atento. Uma escuta sem pressa. Uma pergunta feita com interesse verdadeiro.
Mas vivemos em uma época curiosa. Nunca falamos tanto e muito mesmo: mensagens, áudios, notificações, redes e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos escutado tão pouco. Escutamos pouco os outros e a nós mesmos. Escutamos pouco os nossos desconfortos, os nossos sinais.
Escutar exige algo raro hoje: disponibilidade.
Escutar não é esperar a vez de responder.
Escutar é suspender a pressa de ter razão.
Rubem Alves já dizia: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir! Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto”
Nas minhas andanças, muitas vezes vejo algo que me impressiona: quando alguém finalmente se sente escutado de verdade, algo muda no corpo. A respiração desacelera. Os ombros relaxam. A fala encontra um ritmo diferente.
Ser ouvido reorganiza a alma.
Talvez seja por isso que tantos conflitos não pedem soluções complexas. Pedem presença. Porque, no fundo, a maioria das pessoas não quer vencer uma discussão.
Quer apenas não se sentir sozinha dentro dela.
A psicanálise nos lembra de algo bonito e difícil: nunca compreenderemos completamente o outro. Existe sempre uma parte que escapa, que não se traduz em palavras.
Mas ainda assim tentamos.
E talvez seja exatamente isso que sustenta os vínculos: essa tentativa contínua de atravessar a distância entre dois mundos interiores.
Não existe relação sem ruído. Mas existe relação que aprende a escutar o silêncio entre as palavras.
No fim das contas, cuidar da saúde mental também é isso: cuidar das conversas que sustentam a nossa vida.
Porque, às vezes, uma boa escuta faz mais pela alma do que muitos conselhos.
E talvez a pergunta mais importante que podemos nos fazer hoje seja simples:
Quem, na sua vida, você tem realmente escutado?
E mais importante ainda:
Quem tem escutado você?
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