Mês das Mulheres: que você encontre um jeito mais gentil de morar em si

Outro dia ouvi uma pergunta atravessar uma conversa como quem abre uma janela num quarto abafado: “Você está cansada… ou está desistindo de si?”
Não era sobre trabalho.
Nem sobre maternidade.
Nem sobre casamento.
Era sobre existir.
Março chega sempre vestido de flores, campanhas e frases bonitas sobre força feminina. Mas, nos bastidores, no consultório, nos corredores das instituições, nas mensagens enviadas, o que mais encontro são mulheres tentando respirar dentro das próprias exigências nos seus muitos papéis.
Talvez você conheça essa sensação.
Porque ser mulher virou, silenciosamente, um cargo acumulado.
Trabalhar como se não tivesse filhos.
Cuidar como se não tivesse trabalho.
Amar como se nunca tivesse sido ferida.
E sorrir como se descansar fosse fraqueza.
Existe uma pedagogia invisível ensinando mulheres a “dar conta”.
Dar conta do excesso.
Dar conta do silêncio.
Dar conta das relações que drenam.
Dar conta de ambientes que pedem produtividade enquanto retiram dignidade.
E, no meio disso tudo, quem dá conta de você?
Na psicanálise aprendemos que o sintoma não aparece por acaso. Ele é linguagem quando a palavra não encontra espaço. Talvez por isso tantas mulheres estejam dizendo “estou cansada”, quando o corpo tenta dizer algo mais profundo: não quero mais viver assim. Não é fragilidade individual. É estrutura.
A carga mental feminina continua invisível porque não faz barulho. Ela acontece enquanto alguém lembra do aniversário da família inteira, organiza consultas, antecipa conflitos, administra emoções alheias e ainda pede desculpa por precisar de ajuda.
Chamaram isso de amor durante muito tempo. Mas amor não deveria custar a própria saúde.
Há mulheres exaustas tentando ser boas profissionais.
Boas mães.
Boas companheiras.
Boas filhas.
Quase nunca apenas boas consigo mesmas.
E quando finalmente param, muitas sentem culpa. Como se descansar fosse abandonar alguém.
Já se sentiu assim?
Talvez porque fomos ensinadas que existir para si é egoísmo. Só que o corpo não negocia indefinidamente. Ele começa com insônia. Depois ansiedade. Depois dores que exame nenhum explica. Até que um dia ele simplesmente diz: chega.
E, às vezes, esse “chega” é o gesto mais honesto que conseguimos fazer.
Talvez a revolução mais silenciosa não seja provar que damos conta. Talvez seja escolher não dar conta de tudo.
Porque há uma diferença enorme entre ser forte e viver sobrecarregada e performando.
E nenhuma mulher deveria precisar adoecer para finalmente ser autorizada a descansar, a não dar conta de tudo.
Se você está cansada, eu espero que encontre um lugar onde possa dizer isso sem ser corrigida.
Se você anda mais sensível, eu espero que alguém leia isso como pedido de cuidado e não como defeito.
Você não precisa adoecer para merecer pausa.
Não precisa performar potência o tempo inteiro para ser reconhecida como valiosa.
Há dignidade em dizer “hoje não”. Há maturidade em pedir ajuda. Há coragem em escolher a si.
Que março não seja apenas sobre flores, mas sobre raízes.
Raízes que sustentam.
Raízes que nutrem.
Raízes que não aparecem nas fotos, mas mantêm a vida inteira de pé.
Que você encontre espaços onde não precise explicar seu cansaço.
Que encontre pessoas que não confundam sua força com obrigação.
E que, aos poucos, encontre um jeito mais gentil de morar em si.
Antes de ser símbolo, estatística ou exemplo,
você é humana.
E, acredite, isso já é suficiente.
Marina Diva de Oliveira
Mestra em Gestão da Saúde, Enfermeira e facilitadora. Atua com Saúde Mental na interseção entre cuidado, psicanálise, liderança e gestão.
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