Muita coisa muda em um ano e quase nunca muda do jeito que a gente planejou

Marina Diva
No início do ano, sentamos com listas, metas, palavras-guia. Prometemos organização, constância, controle. Juramos que agora vai (ufa! Tantos planos que não cabem em uma folha, não é?).
Mas a vida (essa entidade indomável) não lê planilhas. Ela atravessa. Ela desorganiza. Ela ensina sem pedir licença. Uma escola de desaprendizagem! E que bom! Para entrar algo novo temos que desaprender velhos hábitos, conceitos, olhares.
E. em um ano, mudam os cenários, os corpos, os afetos, os interesses. Mudam as prioridades. Mudam as certezas que a gente defendia com tanta convicção. Algumas quedas que pareciam o fim viram começo. Portas se fecham e janelas se abrem, com nova luz. Algumas conquistas tão desejadas chegam e nem eram tão desejadas assim que não preenchem como imaginávamos. Há encontros que salvam. Há despedidas que doem mais do que estávamos prontos para sentir. A maioria dos nossos planos não saíram do papel. Você sentiu algo assim neste ano?
Drummond nos lembra que o milagre não está em mudar a vida inteira, mas em mudar o jeito de olhar para ela. Há algo profundamente terapêutico nisso: quando o olhar se renova, o cotidiano deixa de ser automático e volta a pulsar. A saúde mental também passa por esse gesto simples e difícil desaprender o olhar cansado, endurecido pelas quedas, e permitir-se ver de novo, como quem não sabe tudo, como quem ainda se surpreende. Não é a realidade que se transforma por completo, é o sujeito que, ao olhar diferente, encontra novas possibilidades de sentido no mesmo cenário.
Essa é boa notícia: saúde mental não está em cumprir tudo o que foi prometido em janeiro. Ela mora, justamente, na capacidade de recalcular rota. De reconhecer limites sem vergonha. De aceitar que controle total é fantasia pura e das mais adoecedoras. De perceber que vida perfeita não existe.
Não temos domínio sobre tudo o que acontece, mas podemos escolher como nos tratamos no meio do caminho. Sobre a forma como nomeamos nossas dores. Sobre a coragem de pedir ajuda. Sobre o descanso que insistimos em adiar. Sobre a vida que passa enquanto tentamos dar conta de tudo. Para Freud, o tempo ganha valor justamente porque é escasso. É a finitude que nos convoca a escolher, a investir energia, a renunciar (escolher também é sobre escolher o que perder). Se tudo fosse infinito, nada teria urgência, nada seria precioso. Na vida, percebemos isso com nitidez: o que adia demais, perde presença; o que não é cuidado, escapa. Reconhecer a escassez do tempo não é adoecer, é amadurecer. É entender que viver exige decisão, presença e responsabilidade afetiva com aquilo que realmente importa.
Talvez o aprendizado mais honesto de um ano inteiro seja este: viver não é sobre acertar sempre, é sobre sustentar-se mesmo quando tudo muda. É aprender a dançar com a impermanência, em vez de brigar com ela. Eu tenho aprendido e tem sido muito interessante.
Na virada do ano, que a gente deseje mais vida aos dias e menos controle. Menos coisas e mais gente. Menos avião e mais passarinhos. Menos fórmulas mágicas e mais hábitos, menos corpos perfeitos e mais corpos saudáveis reais. Menos julgamentos e mais olhar humano. Menos rigidez e mais escuta. Menos networking e mais encontros. Menos tela e mais presença. Menos promessas grandiosas e mais compromissos possíveis com o que é essencial, com o que é humano, com o que é vivo em nós.
Que a gente se permita existir a partir do encontro. Que o outro deixe de ser ameaça e volte a ser espelho, contorno, possibilidade de expansão de mundo. Quando nos vemos a partir do outro, algo em nós se humaniza, perde rigidez, aprende a coexistir. Talvez saúde mental, neste tempo tão individualizado, seja também isso: sair da lógica do isolamento e lembrar que somos ecossistema interdependentes, afetáveis, atravessados. Comunidade não é concordar sempre, é sustentar o vínculo apesar das diferenças. E esperança não é ingenuidade; é uma escolha ética de continuar apostando no laço, mesmo depois de tudo. Eu vejo você!
Que 2026 não seja perfeito.
Que seja verdadeiro. Que seja seu ano.
Respira, é humano e estamos juntos!
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