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Marina Diva de Oliveira

A vida que se escreve enquanto acontece

Por Bruno
A vida que se escreve enquanto acontece

Marina Diva

Tem algo de simbólico quando o número encontra a gente.

A coluna 40 chega junto com a minha idade. E não é só coincidência, é quase um espelho. Como se o tempo resolvesse, por um instante, parar de correr e sentar ao meu lado para conversar.

Quarenta.

Uma palavra que carrega travessia. Não é começo, mas também não é fim. É esse lugar entre onde a gente já foi muita coisa e, ao mesmo tempo, ainda está em aberto.

Tenho pensado no quanto a gente se constrói… e se reconstrói. Todos os dias. Sem anúncio, sem plateia, sem manual.

Há uma versão de mim que aprendi com os meus. Nos gestos herdados, nas frases que escapam sem que eu perceba, nos silêncios que também dizem. Carrego pedaços de quem veio antes às vezes como abrigo, às vezes como pergunta.

Mas também sou aquilo que escolhi construir.

Os repertórios que fui criando ao longo do caminho: os livros que me atravessaram, as conversas que me deslocaram, os encontros que me ensinaram a ver de outro jeito. A vida vai oferecendo matéria-prima, mas é a gente que decide, ainda que sem muita consciência, o que faz com isso.

E tem as cicatrizes. Ah, as cicatrizes!!!

Por muito tempo, tentei escondê-las como quem esconde erro. Hoje, começo a entendê-las como registro. Não de dor apenas, mas de experiência. Cicatriz é quando a pele diz: “isso aqui aconteceu… e você seguiu”.

Não existe construção sem rachadura. Não existe amadurecimento sem algum nível de perda. Crescer, às vezes, é perder a versão de si que já não cabe mais.

E isso dói.

Mas também abre espaço.

Aos quarenta, percebo que a vida não é sobre chegar pronta. É sobre sustentar esse movimento quase invisível de ir se fazendo enquanto vive. Como quem escreve e reescreve o próprio texto, às vezes apagando, às vezes insistindo, às vezes deixando um trecho em aberto porque ainda não sabe como termina.

Tem dias em que me sinto inteira.

Em outros, me sinto em pedaços.

E tudo bem. Quem não?

Talvez maturidade tenha menos a ver com estabilidade e mais com a capacidade de habitar as próprias contradições sem precisar resolvê-las o tempo todo.

Ser muitas, inclusive.

Ser mudança, inclusive.

Ser processo.

Aos quarenta, não tenho todas as respostas. E, sinceramente, isso já não me assusta como antes. Existe uma certa paz em não saber completamente. Uma humildade bonita em reconhecer que a vida é maior do que qualquer tentativa de controle.

O que tenho, hoje, é mais presença.

Mais escuta.

Mais discernimento para escolher o que fica… e o que precisa ir.

Porque a gente também se constrói a partir do que decide deixar.

Deixar ir expectativas irreais. Deixar ir relações que já não sustentam. Deixar ir a necessidade de caber em lugares que não nos acolhem.

Existe coragem nesse deixar.

A gente vai tirando excessos. Vai afinando o olhar. Vai entendendo que nem tudo precisa ser dito, resolvido ou apressado.

Algumas coisas só precisam ser vividas.

A coluna 40 não é um ponto de chegada. É um marco. Um daqueles que a gente olha e pensa: “olha o tanto que já foi caminho”.

E, ao mesmo tempo, “olha o tanto que ainda pulsa”.

Se eu pudesse deixar algo registrado aqui, para mim e para quem me lê, seria isso: a vida não pede perfeição. Pede presença. Pede coragem para continuar, mesmo quando a gente ainda está se entendendo. Pede gentileza com o próprio processo.

Porque, no fim, talvez seja isso que nos sustenta: essa capacidade tão humana de se refazer.

todos os dias.

um pouco.

de novo.

E que venham os próximos capítulos. Mesmo os que ainda não sei escrever.

Respira, é humano!

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