Aberta sindicância para apurar denúncia de erro médico na UPA

Da Redação
As críticas contra a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Padre Roberto, em Divinópolis, se intensificaram nos últimos dias. Os casos envolvem a morte de duas pacientes e a consulta de um bebê de sete meses. O Instituto Brasileiro de Políticas Públicas (Ibrapp), responsável pela administração, publicou notas de esclarecimentos para negar as denúncias. Já a Prefeitura anunciou a abertura de um sindicância para apurar uma das ocorrências.
Caso
A mais recente é a morte da blogueira Tatielle Scarlat Ferreira, aos 28 anos. A influencer, internada com pneumonia bacteriana, possuía mais de 70 mil seguidores no Instagram.
Pelas rede sociais, a família criticou o atendimento.
— Infelizmente, devido ao descaso na saúde pública de Divinópolis e o despreparo de alguns profissionais, ela veio a falecer precocemente!!! — publicou.
Scarlat deixou um marido, três filhos pequenos e “uma família completamente desolada, indignada e destruída”, acrescentou.
Ela procurou atendimento na UPA pela primeira vez na terça-feira, 16, com diarreia, vômito e dor generalizada. Segundo uma amiga, o diagnóstico foi de dengue, mesmo sem nenhum exame. Tatielle voltou à unidade no sábado, às 8h50, com problemas respiratórios. Os exames teriam descartado dengue e identificado uma pneumonia.
— A paciente foi medicada, orientada e liberada com prescrição de antibióticos — detalhou a Prefeitura.
Horas depois, às 18h21, ela voltou à UPA, levada pelo Samu, com o quadro de saúde agravado, tendo sido “entubada e transferida para a Sala Vermelha do Complexo de Saúde São João de Deus às 4h15, do dia 21 de abril”, onde morreu.
Outra sindicância
Ao se pronunciar sobre o ocorrido, ontem, a Prefeitura disse “zelar pelo princípio da transparência” e anunciou a abertura de uma sindicância administrativa, a ser concluída dentro de 30 dias.
— A Semusa informa também que o Ibrapp, empresa responsável pela gestão da UPA Padre Roberto, já foi acionado para prestar esclarecimentos em relação ao ocorrido, uma vez que, pela natureza contratual, não há subordinação direta dos funcionários daquela unidade à Secretaria Municipal de Saúde — informou.
O objetivo, segundo o Executivo, é apurar possível erro médico.
— Diante da natureza da ocorrência e por não se tratar de evento de natureza exclusivamente administrativa, a sindicância será conduzida por profissionais médicos, não pertencentes ao corpo clínico da UPA Padre Roberto — ressaltou.
Após a conclusão, serão adotadas as medidas cabíveis. Dentre elas, a possibilidade do conteúdo ser encaminhado ao Conselho Regional de Medicinas de Minas Gerais e sugestões de providências administrativas a serem providenciadas pela Secretaria Municipal de Saúde (Semusa).
Questionado, o Ibrapp não havia se manifestado até o fechamento desta página, por volta das 17h desta segunda-feira.
Transferência
Já na sexta-feira, 19, o Ibrapp publicou uma nota sobre a morte de Isabela Cristina Cordeiro, de 27 anos. Segundo a família, ela teria sido transferida da UPA à Oliveira já morta. A assessoria de comunicação do Instituto, no entanto, negou a informação.
Em nota, o Ibrapp afirmou que a paciente teve “total assistência multiprofissional” durante sua permanência na unidade.
— (...) não foi negligenciado nenhum tipo de atendimento ou realização de procedimentos cabíveis dentro da complexidade e disponibilidade de recursos que a unidade oferece — pontuou.
A regulação para transferência hospitalar, ressaltou a unidade, é responsabilidade da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), através do sistema SUSfácil.
— (...) nem o Ibrapp nem o Município tem governabilidade para tal regulação — reforçou.
A paciente foi transferida, em estado grave, para Oliveira.
— O Ibrapp reitera que lamenta o ocorrido, se solidariza com a família e se coloca à disposição no que necessitar para mais esclarecimentos — concluiu.
O Consórcio Intermunicipal de Saúde da Região Ampliada Oeste para Gerenciamento dos Serviços de Urgência e Emergência (CIS-URG Oeste), responsável pelo Samu, também se manifestou. Em nota, a diretoria informou ter tomado conhecimento da denúncia da família.
O acionamento para a transferência, relatou a entidade, ocorreu às 16h57.
— Ao chegar na UPA, o médico da equipe informou à Central de Regulação que se tratava de um caso grave, com necessidade de realizar a intubação da paciente e estabilizá-la para o transporte. Enviou também os dados vitais, que constam no prontuário da paciente, confirmando que a paciente estava viva e em condições de transporte — detalhou.
A ambulância deixou a unidade às 18h54, chegando ao Hospital São Judas Tadeu, em Oliveira, às 20h17.
— Portanto, não procedem as informações de que a paciente já estava em óbito e sem preparação adequada para deslocamento. Ademais, o CIS-URG Oeste cumpre a Resolução RDC Anvisa nº 33, de 8 de julho de 2011, e da Lei Estadual no 15.758/2005, que determinam que o transporte de cadáveres só pode ser realizado em carro funerário específico para esse fim, de acordo com normas específicas vigentes — ressalta.
O consórcio ressalta que denúncias podem ser feitas na Ouvidoria pelo telefone (37) 3690-3258, de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h, ou pelo site https://cisurg.oeste.mg.gov.br/ouvidoria/.
Uma sindicância foi aberta para uma “avaliação detalhada da denúncia”.
A Prefeitura também manifestou sua solidariedade à família.
— Neste momento de intensa dor da família, manifestamos nossa solidariedade em relação à perda de um familiar querido, mas, a bem da prevalência da verdade e da necessidade de tratarmos os problemas em suas matizes reais, que, por si, já são por demais gravosas, não podemos nos eximir de fazer os apontamentos necessários — explica.
O Executivo fez coro aos esclarecimentos prestados pelo Ibrapp, especialmente quanto à responsabilidade do Estado em regular os leitos.
— Decerto que a falta de leitos hospitalares resolutivos em nossa região é um problema crônico e grave, que precisa ser urgentemente resolvido pelos entes responsáveis, para que unidades pré-hospitalares como a UPA não permaneçam com pacientes aguardando internação por dias — apontou.
Negou, ainda, a denúncia.
— No entanto, a acusação feita é absolutamente descabida e desprovida de verdade, posto que tal expediente demandaria um concurso de instituições e atores (Prefeitura, Ibrapp, Samu e hospital) dispostos a adotar condutas reprováveis e criminosas e isso, em absoluto, não encontra eco em nenhuma das instituições envolvidas no atendimento da paciente — ressaltou.
Bebê
Um bebê, de sete meses, com um abscesso no pescoço, foi levado à UPA por sua mãe na madrugada de domingo. Segundo ela, o inchaço crescia há três dias. A Prefeitura também publicou uma nota de esclarecimento.
— A criança foi atendida em 20 minutos, desde a triagem, consulta médica e especializada. Foram solicitados exames da bebê e foi discutido com cirurgião e infectologista a melhor conduta para o caso, não havendo nenhum incidente registrado com a mãe da bebê pelo corpo clínico. A médica realmente estava no descanso, que é direito garantido por lei, porém quando foi acionada foi atender a criança imediatamente — detalhou.
Segundo o Executivo, todo o processo está devidamente documentado, passível de comprovação.
— Neste momento em que o atendimento pediátrico encontra-se indisponível, até mesmo em estabelecimentos da rede privada, qual o propósito do acionamento midiático para fazer declarações tendenciosas e inverídicas envolvendo uma unidade que possui pediatra em tempo integral e que atendeu uma demanda em 20 minutos? — questionou, em nota.
Afirmou, ainda, estar à disposição de promover mudanças caso identificadas irregularidades na assistência prestada na UPA.
O Ibrapp também se manifestou sobre o caso.
— Após a drenagem espontânea do abscesso, a criança segue sob os cuidados da UPA Padre Roberto, em uso de antibióticos, seguindo as orientações do serviço de controle de infecções e aguarda liberação de um leito hospitalar, por parte da Central de Regulação do Governo do Estado de Minas Gerais, para término de tratamento — informou.
(Foto: Divulgação/PMD)
Os últimos dias têm sido marcados por críticas contra a unidade de saúde
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