Brasileiros leem cada vez mais pelo celular, revela pesquisa
Levantamento aponta que praticidade e facilidade de acesso estão entre os principais motivos para a escolha do formato digital

O celular deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação e entretenimento para se tornar também uma das principais portas de entrada para a leitura no Brasil. Um levantamento da Nielsen BookData aponta que o país tem cerca de 94 milhões de leitores digitais, pessoas que, nos 12 meses anteriores à pesquisa, utilizaram algum dispositivo eletrônico para acessar notícias, livros, audiolivros, PDFs, textos informativos, quadrinhos ou mangás.
Pesquisa
Os dados fazem parte da pesquisa Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, divulgada nesta quarta-feira, 2. O estudo ouviu 3 mil pessoas de todas as regiões e classes sociais do país, entre 1º e 11 de junho deste ano. O objetivo foi identificar o que os brasileiros leem, de que maneira acessam os conteúdos, com que frequência utilizam as plataformas e quais fatores influenciam a escolha pelo formato digital.
Entre os resultados, um dado chama atenção: o smartphone é o principal dispositivo utilizado para acessar os conteúdos. Entre as pessoas que leem livros eletrônicos ou ouvem audiolivros, 72% fazem isso pelo celular. Quando o conteúdo não é um livro, a preferência pelo aparelho é ainda maior: 85% dos entrevistados que leem outros tipos de textos utilizam o smartphone.
O resultado mostra como a presença do celular no cotidiano pode modificar a relação dos brasileiros com a leitura. O aparelho está disponível durante deslocamentos, intervalos e momentos de espera e permite reunir diferentes publicações em um único espaço. Para uma parcela dos leitores, essa praticidade reduz obstáculos que tradicionalmente dificultavam o acesso aos livros.
Exemplo
É o caso de Maria das Neves de Araújo Alves, de 60 anos, técnica de enfermagem e cuidadora, moradora de Valparaíso de Goiás. Ela trabalha em Brasília e passa pelo menos três horas por dia em ônibus no trajeto entre casa e trabalho. Parte desse tempo é dedicada aos romances e livros de ação que encontra em uma plataforma gratuita.
— Prefiro ler no telefone porque ele está sempre comigo e posso ler no ônibus, no posto de saúde, em quase todo lugar — contou.
Ela mantém o hábito há pelo menos quatro anos e afirma já ter perdido a conta de quantos livros e textos leu. A escolha das obras é feita na própria plataforma, a partir dos resumos. Quando uma história desperta sua curiosidade, ela começa a leitura. Algumas publicações são abandonadas; outras prendem sua atenção até o fim.
A facilidade também está relacionada às condições de acesso. A plataforma utilizada por Nevinha não exige o download das obras, o que ajuda a economizar dados móveis e espaço de armazenamento no telefone. Para ela, o formato digital substitui uma barreira prática representada pelo livro físico.
— O livro se torna mais difícil para mim, porque é mais um peso para eu carregar na bolsa, no ônibus. E eu teria que ou comprá-lo ou ir a uma biblioteca – e não há nenhuma perto de onde eu moro — explicou.
Perfil socioeconômico
A pesquisa indica que essa experiência não é isolada. Entre os conteúdos digitais mais acessados no período analisado estão notícias e livros digitais. Na sequência aparecem artigos publicados em blogs ou sites especializados e audiolivros. O conjunto mostra que a leitura digital vai além dos livros e está inserido em uma rotina de consumo de informação e cultura que acontece cada vez mais pelas telas.
O perfil socioeconômico dos leitores também chama atenção. Segundo o levantamento, 64% pertencem às classes C, D e E. A classe C representa 46% do total, enquanto D e E somam 18%. Outros 29% estão na classe B e 7% na classe A.
Para os pesquisadores, os números ajudam a mostrar o papel do formato digital na ampliação do acesso. A possibilidade de encontrar conteúdos no próprio celular, sem depender necessariamente de uma livraria ou biblioteca próxima, pode aproximar da leitura pessoas que enfrentam dificuldades para adquirir ou transportar livros impressos.
O público leitor digital é formado principalmente por jovens adultos, entre 18 e 44 anos. As mulheres são maioria, correspondendo a 56% dos entrevistados. Em relação à raça e cor, metade dos leitores se declara branca. Pardos representam 37% e pretos, 11%. Amarelos correspondem a 2% e indígenas a 0,2%.
Outro aspecto apontado pelo levantamento são os motivos que levam os leitores a escolherem o formato digital. A facilidade de acesso aparece em primeiro lugar, citada por 61% dos leitores de livros. Outros 48% destacam a possibilidade de carregar vários títulos em um único aparelho, enquanto o preço inferior ao de uma publicação semelhante em papel aparece como o terceiro motivo mais mencionado.
Aparelho prático
A praticidade, portanto, não se resume ao tamanho ou ao peso do aparelho. O celular permite que o leitor tenha diferentes títulos disponíveis sem precisar carregar livros físicos. Também amplia a possibilidade de leitura em locais onde uma publicação impressa seria menos conveniente.
O levantamento, porém, identifica um ponto de atenção relacionado ao acesso gratuito a obras digitais. Dos entrevistados, 48,8% disseram ter consumido livros e audiolivros obtidos gratuitamente em sites, aplicativos ou links não oficiais. Outros 46,4% afirmaram ter recorrido a sites institucionais, como a plataforma MEC Livros, do Ministério da Educação, ou a obras que estão em domínio público.
A diferença entre conteúdos autorizados e não autorizados nem sempre é clara para o público. Cerca de 46% dos participantes afirmaram que nem sempre sabem se um livro digital gratuito é legal ou se possui autorização para ser distribuído. O cenário mostra que, ao mesmo tempo em que a tecnologia facilita o acesso à leitura, também cria a necessidade de ampliar a informação sobre direitos autorais e fontes legais.
Mesmo com esse desafio, a pesquisa aponta que a oferta digital pode estimular o hábito. Segundo os resultados, 43% dos entrevistados afirmaram que leem “muito mais” graças às oportunidades proporcionadas pelos meios digitais. O dado reforça a percepção de que a tecnologia pode funcionar como uma aliada para quem já lê e também para pessoas que encontram no celular uma maneira mais simples de começar.
Alternativa
Para Rodrigo Meinberg, executivo-chefe da plataforma de leitura digital Skeelo, que ajudou a viabilizar a pesquisa, as telas não precisam ser vistas como concorrentes dos livros físicos. Na avaliação dele, elas podem contribuir para a formação de leitores ao reduzir dificuldades históricas relacionadas à divulgação e à distribuição das obras.
— Talvez nunca antes na História tantas pessoas tenham falado sobre livros como agora, com as redes sociais, que são fontes geradoras de descoberta de novos autores — afirmou.
Meinberg também chama atenção para a distribuição desigual de livrarias no país. Segundo dados do IBGE citados por ele, em 2018 apenas 18% dos 5.570 municípios brasileiros possuíam uma livraria. Nesse cenário, a rede móvel de telefonia alcança localidades onde o acesso físico aos livros pode ser limitado.
Para o executivo, essa presença dos celulares representa uma oportunidade para o mercado editorial e para políticas de incentivo à leitura. Ele afirma que as principais operadoras de telefonia já mantêm parcerias com aplicativos e ecossistemas de leitura digital e, em alguns casos, disponibilizam livros gratuitos aos clientes.
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