Caminhada ‘Todos Contra a Pedofilia’ reúne multidão e reforça alerta em Divinópolis

Lucas Maciel
Divinópolis voltou a ser palco, nesta segunda-feira, 18, de uma das maiores mobilizações sociais do estado no combate à violência sexual contra crianças e adolescentes. A caminhada do movimento “Todos Contra a Pedofilia” reuniu milhares de pessoas na região central da cidade e marcou os 20 anos da iniciativa, criada pelo promotor de Justiça Casé Fortes.
A concentração ocorreu na Praça da Catedral, em frente ao Museu Histórico, reunindo estudantes, representantes de escolas, entidades, autoridades, forças de segurança, voluntários e famílias. Mais de mil crianças participaram da mobilização utilizando as camisas do projeto Guardião, em um ato marcado por apresentações culturais, fanfarras e atividades de conscientização.
O evento contou com apoio da Prefeitura de Divinópolis, Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Samu, Settrans e Tiro de Guerra. Durante toda a manhã, o trânsito na área central precisou ser parcialmente interditado para garantir segurança aos participantes.
Programação
Além da caminhada, a programação teve distribuição de materiais informativos, apresentações de mascotes, trenzinho da alegria, ações educativas e participação de entidades da sociedade civil. O movimento também mobilizou escolas das redes municipal, estadual e particular em atividades de conscientização sobre prevenção e denúncia de abusos.
O fundador do movimento, o promotor Casé Fortes, destacou o crescimento da mobilização ao longo das duas décadas.
— Hoje tive a notícia de que este é o maior movimento do Estado de Minas Gerais na defesa das crianças contra a violência. Vem gente de outras cidades e até de outros países. O objetivo é chamar atenção para a causa e fazer com que essa prioridade seja colocada em prática — afirmou.
Importância
O deputado federal Domingos Sávio (PL), que participou do ato, afirmou que o combate à violência sexual exige participação permanente da sociedade.
— A proteção à criança é dever do Estado, da família e da sociedade. Não podemos ficar de braços cruzados vendo milhares de crianças serem vítimas de abuso sexual. Muitas vezes, isso acontece dentro de casa, cometido por pessoas próximas. Por isso é tão importante despertar consciência nas pessoas — disse.
O parlamentar também relembrou casos recentes de repercussão nacional envolvendo decisões judiciais relacionadas a crimes sexuais contra menores e defendeu maior atenção da sociedade diante dessas situações.
Representando o Centro Espírita Jesus de Nazaré, Sérgio Bebiano destacou a importância da conscientização coletiva.
— É um crime que muitas vezes acontece na surdina e ninguém fica sabendo. Precisamos abraçar essa causa e cuidar das nossas crianças. Informação e conscientização são fundamentais — afirmou.
O presidente do Rotary Club Divinópolis-Leste, Ilio Milani, também defendeu união entre instituições e população.
— Precisamos unir forças. Não importa de onde vem a ajuda. O importante é que toda a sociedade participe. A situação está muito séria e exige atenção permanente — comentou.
Já o delegado da Polícia Civil, Flávio Destro, ressaltou a dimensão alcançada pelo movimento ao longo dos anos.
— Hoje é um movimento nacional. Para a Polícia Civil é uma honra participar dessa mobilização. Todas as instituições precisam caminhar juntas para reduzir esses índices alarmantes de violência contra crianças e adolescentes — disse.
Luta nacional
O dia 18 de maio marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data foi instituída pela Lei Federal 9.970/2000 e faz referência ao caso Araceli, menina de apenas oito anos assassinada em 1973, em Vitória (ES), após sofrer violência sexual. O crime teve grande repercussão nacional e nunca foi totalmente esclarecido.
A campanha busca mobilizar a sociedade para prevenção, conscientização e fortalecimento das redes de proteção à infância.
Números
Dados divulgados em março deste ano pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) reforçam o cenário de alerta no estado. Segundo levantamento baseado em registros da Polícia Civil, Minas contabilizou 4.101 ocorrências de estupro de vulnerável contra menores de 14 anos entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
Em 235 casos, a violência resultou em gravidez das vítimas. Segundo o MPMG, mais da metade dos abusos ocorreu dentro do círculo familiar ou de confiança da criança.
A promotora de Justiça Graciele de Rezende Almeida, coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, alertou, à época, para a subnotificação dos casos e destacou que muitos abusos permanecem ocultos por medo, vergonha ou ameaças.
As ocorrências foram registradas em 611 municípios mineiros, o equivalente a mais de 70% das cidades do estado.
Rede de proteção e denúncias
Durante a caminhada, organizadores reforçaram a importância das denúncias e da atuação integrada entre escolas, famílias, órgãos de proteção e forças de segurança.
Casos suspeitos podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 100, além dos Conselhos Tutelares, Polícia Civil e Ministério Público.
A principal orientação das autoridades é que sinais de mudança de comportamento em crianças e adolescentes sejam observados com atenção, especialmente isolamento, medo excessivo, alterações emocionais, queda no rendimento escolar e dificuldade de convivência social.
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