Dia da Luta Antimanicomial destaca defesa da dignidade e do cuidado sem exclusão

Jonny Reisle
Neste 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, ruas, universidades, serviços de saúde mental e movimentos sociais voltaram a se transformar em espaços de resistência, reflexão e defesa do cuidado humanizado em Minas Gerais.
Em Divinópolis, estudantes, profissionais, usuários da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e representantes do Fórum Antimanicomial da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) participaram de uma série de atividades ao longo da última semana e nesta segunda-feira, 18, estiveram em Belo Horizonte para o tradicional desfile da Escola de Samba “Liberdade Ainda que Tam-Tam”, uma das maiores manifestações antimanicomiais do país.
Resistência
O ato cultural e político acontece desde 1998 na capital mineira e reúne trabalhadores da saúde, familiares, artistas, estudantes, usuários dos serviços de saúde mental e movimentos sociais em defesa da reforma psiquiátrica brasileira e do tratamento em liberdade. Neste ano, o desfile celebrou os 25 anos da Lei Federal 10.216, considerada um marco da luta antimanicomial no Brasil.
A legislação, sancionada em 2001, garantiu direitos às pessoas em sofrimento mental e fortaleceu a substituição progressiva dos antigos hospitais psiquiátricos por serviços comunitários, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), centros de convivência e outras estruturas da RAPS.
Pauta atual
Com o tema “Somos diferentes, somos muitos, mas todos cabem no mundo!”, o desfile propôs reflexões sobre democracia, direitos humanos, racismo, medicalização da vida, infância, políticas sobre álcool e outras drogas e resistência às políticas higienistas e aos retrocessos manicomiais.
História
Em entrevista ao Agora, a estudante de psicologia e integrante do Fórum Antimanicomial da Uemg Divinópolis, Mariana Ribeiro, destacou que a luta antimanicomial ganhou força principalmente nas décadas de 1970 e 1980, em paralelo à construção do Sistema Único de Saúde (SUS) e à reforma psiquiátrica brasileira. Segundo ela, apesar dos avanços conquistados ao longo das últimas décadas, o movimento ainda enfrenta desafios constantes.
— Hoje em dia, nós temos a Raps no Brasil, que é uma rede muito forte, composta pelos Caps, Caps AD, Caps III, Caps Infantil Juvenil, entre outros serviços. Mas é uma rede que precisa ser fortalecida, porque sofre ataques constantes e, muitas vezes, os municípios acabam sucateando esses serviços — afirmou.
Desafios
Ela explica que o combate à lógica manicomial vai muito além do fechamento de hospitais psiquiátricos. Para Mariana, o desafio também está em romper com a ideia de exclusão social das pessoas em sofrimento mental.
— A lógica manicomial não está só dentro dos manicômios. Ela aparece quando a sociedade acredita que uma pessoa em sofrimento mental precisa ser isolada por anos para só depois voltar ao convívio social. O cuidado não pode acontecer na exclusão. Nós somos seres sociais — pontuou.
Ironias online
A estudante também alerta para a disseminação de preconceitos e desinformações nas redes sociais envolvendo os serviços de saúde mental, especialmente os Caps.
— Muitas piadas surgiram recentemente dizendo ‘vão me mandar para o Caps’ ou ‘vou fugir do Caps’, como se fosse um manicômio. Mas o Caps não é isso. É um serviço substitutivo aos manicômios, onde ninguém fica trancado. Esse tipo de comentário reforça estigmas e dificulta a compreensão sobre a importância desses espaços — destacou.
Desafio histórico
Minas Gerais possui uma relação histórica profunda com a luta antimanicomial, especialmente por causa do Hospital Colônia de Barbacena, conhecido nacionalmente pelas denúncias de violações de direitos humanos, abandono e mortes de milhares de internos ao longo do século passado. O episódio se tornou símbolo das violências praticadas pelos antigos modelos de internação psiquiátrica no Brasil.
Ações no município
Em Divinópolis, o Fórum Antimanicomial da Uemg promoveu uma semana inteira de atividades preparatórias para o 18 de maio. A programação contou com mesas-redondas, rodas de conversa, oficinas e atividades culturais voltadas à conscientização sobre saúde mental e cuidado em liberdade.
Entre as ações, houve oficinas de produção de fantasias e adereços para o desfile realizado em Belo Horizonte. Segundo Mariana Ribeiro, o fórum reúne não apenas estudantes, mas também profissionais da saúde, trabalhadores da Raps e usuários dos serviços de saúde mental.
— Nós temos psicólogos, funcionários da rede e usuários participando do fórum. É uma construção coletiva — explicou.
Unidos por uma causa
A delegação da Uemg Divinópolis seguiu para Belo Horizonte com cerca de 40 estudantes, além de outros participantes que já aguardavam o grupo na capital. O desfile reuniu representantes de diversas cidades mineiras e se consolidou como um espaço de protagonismo de usuários da saúde mental e de defesa do SUS.
Ao longo das quase três décadas de existência, a Escola de Samba “Liberdade Ainda que Tam-Tam” transformou a arte, a música e a ocupação das ruas em instrumentos de denúncia contra as violências manicomiais e de afirmação da diversidade humana.
Compaixão
Para Mariana Ribeiro, fortalecer a luta antimanicomial significa defender não apenas políticas públicas, mas também uma sociedade mais acolhedora e menos preconceituosa.
— Quando a gente fala sobre sofrimento mental, não pode pensar apenas no outro. Qualquer pessoa está suscetível a passar por isso. Precisamos fortalecer os serviços públicos, pensar no coletivo e garantir que, se um dia precisarmos, também seremos acolhidos com dignidade — concluiu.
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